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Saúde marca eleição na Suécia: grandes promessas, poucas soluções

Cartazes eleitorais de partidos suecos, incluindo um dos sociais-democratas com o seu slogan para a saúde, em Solna, Suécia (9 de setembro de 2026)
Cartazes eleitorais de partidos suecos; num deles, dos sociais-democratas, lê‑se o seu slogan sobre saúde, Solna, Suécia (9 de setembro de 2026) Direitos de autor  Roselyne Min/Euronews
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Eleições suecas de domingo centram-se em recuperar o sistema de saúde, prioridade para os eleitores, mas especialistas dizem que as promessas falham o essencial.

As longas listas de espera, a falta de pessoal e a fraca qualidade dos cuidados de saúde primários devido ao subdimensionamento tornaram-se elementos habituais no debate sueco sobre a saúde desde a pandemia, transformando o serviço de saúde num teste à capacidade do modelo de bem-estar do país continuar a corresponder ao que os eleitores esperam.

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Partidos de todo o espectro político prometem soluções para o tema que mais pesa para os eleitores suecos, mas médicos e enfermeiros questionam se as mudanças propostas são as de que o sistema realmente precisa, apontando antes para a necessidade de melhorar as condições de trabalho e o número de profissionais, bem como de reforçar os cuidados de saúde primários.

Chegar à fórmula certa pode render muitos votos aos partidos, já que cerca de 64% dos eleitores indicaram a saúde entre as questões políticas mais importantes numa sondagem em agosto, acima dos 55% registados em maio, seguida da educação, da criminalidade e da segurança pública. Alguns eleitores admitem até mudar de partido se este der prioridade à saúde, segundo outra sondagem realizada pela Novus para o grupo da indústria farmacêutica Lif, que concluiu que 34% considerariam mudar o seu voto.

Com isto em mente, os partidos apresentam promessas eleitorais cada vez mais ambiciosas para consertar o sistema de saúde antes das eleições de 13 de setembro.

As propostas políticas

As reformas mais ambiciosas ao sistema partem dos partidos de centro-direita.

Para garantir um acesso mais rápido aos cuidados de saúde, algo que se tornou um grande problema para muitos suecos, o Partido Moderado, de centro-direita, atualmente terceiro nas sondagens, quer reduzir de 90 para 30 dias o prazo estabelecido pela garantia legal de cuidados de saúde, que limita o tempo máximo de espera dos doentes por cuidados especializados. Atualmente, porém, alguns doentes esperam mesmo para além dos 90 dias.

Cartazes eleitorais de partidos suecos, dois deles dos sociais-democratas com os seus slogans sobre saúde, Solna, Suécia (9 de setembro de 2026)
Cartazes eleitorais de partidos suecos, dois deles dos sociais-democratas com os seus slogans sobre saúde, Solna, Suécia (9 de setembro de 2026) Roselyne Min/Euronews

De acordo com o Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar da Suécia, 27% dos doentes aguardavam, em abril de 2026, cirurgias ou tratamentos especializados programados para além do prazo de 90 dias previsto pela garantia sueca de cuidados de saúde. O Partido Moderado propõe que, se uma região não conseguir garantir cuidados dentro de 30 dias, o doente tenha de ser encaminhado para tratamento noutra unidade, ficando a região de origem responsável pelos custos.

Entretanto, os Democratas-Cristãos, penúltimo partido nas sondagens, propõem uma remodelação de um sistema com mais de um século. Querem substituir o atual modelo baseado em regiões por um sistema gerido pelo Estado, defendendo que as fronteiras regionais criam desigualdades no acesso e impedem a Suécia de utilizar de forma eficiente a capacidade existente em todo o país, o que ajudaria a reduzir os tempos de espera.

Os sociais-democratas, que lideram as sondagens, apontam sobretudo aos cuidados de saúde primários, prometendo que pelo menos 80% dos suecos terão um médico de referência nomeado até 2030. O Partido do Centro também promete introduzir médicos nomeados, enquanto os Liberais querem criar mais 4 500 lugares para médicos de clínica geral.

Sem solução milagrosa

Nenhuma das reformas apresentadas pelos partidos suecos é uma “solução milagrosa” que resolva todos os problemas, disse à Euronews Fanny Nilsson, médica de medicina interna, membro da direção da Sociedade Médica Sueca e autora que viajou pela Europa a comparar sistemas de saúde.

Especialistas ouvidos pela Euronews defendem que, ao concentrarem-se na redução dos tempos de espera, os políticos estão a ignorar o cerne do problema: a escassez de profissionais, a dificuldade em manter os que existem, a carga administrativa excessiva e um sistema de cuidados primários subfinanciado.

“Se essas questões não forem enfrentadas, as listas de espera vão manter-se”, disse à Euronews Hanna Kataoka, presidente da Associação Médica Sueca.

Paradoxo dos cuidados de saúde na Suécia

A falta de profissionais nos cuidados de saúde primários e a ausência de continuidade, com doentes que muitas vezes não conseguem ser vistos pelo mesmo médico ao longo do tempo, criam um paradoxo no coração do sistema de saúde sueco, afirma Nilsson.

“Somos muito fortes e competentes em cuidados altamente especializados e avançados. Estamos bastante avançados em investigação e na adoção de novas tecnologias e novos medicamentos”, disse Nilsson.

“Mas como podemos ter o melhor sistema de saúde do mundo se não se consegue falar com o médico de família?”, questionou.

Os números dão-lhe razão. Em 2024, cerca de 7% dos suecos declararam não ter conseguido obter os cuidados de saúde primários de que sentiam necessidade, mais do dobro da média da UE, de 3%, segundo dados da OCDE. Ao mesmo tempo, sete em cada dez médicos de cuidados primários eram responsáveis por mais doentes do que o recomendado, de acordo com um relatório de 2026 da Associação Médica Sueca.

Embora partidos como os sociais-democratas, os Liberais e o Partido do Centro tenham prometido resolver este problema, Nilsson considera que falta uma visão concreta de longo prazo sobre como o concretizar.

As soluções em cima da mesa para o sistema de saúde acabam por “empobrecer o debate”, afirmou.

“Tornam todas estas questões demasiado superficiais, demasiado simplistas, e é também por isso, creio, que os eleitores na Suécia têm dificuldades em acompanhar o debate sobre a saúde”, disse, apelando a que os políticos olhem para os sistemas de saúde para além dos seus mandatos de quatro anos.

Promessas eleitorais dos partidos vão resultar?

O mesmo se aplica às promessas do Partido Moderado e dos Democratas-Cristãos.

A garantia de 30 dias pode alargar o papel dos prestadores privados de cuidados de saúde, concentrados em grandes cidades como Estocolmo, já que as zonas rurais, em particular o norte da Suécia, não dispõem de pessoal suficiente e podem ser obrigadas a enviar doentes para outras regiões.

“Os doentes vão ser transportados de avião para Estocolmo, operados lá e depois levados de volta”, descreveu Nilsson.

Deixar por resolver os problemas de pessoal nas regiões e, em vez disso, depender dos prestadores privados “não é uma forma correta de encarar os cuidados de saúde”, acrescentou.

Quanto à ambição dos Democratas-Cristãos de virar do avesso um sistema com um século de existência, especialistas mostram-se cépticos quanto à ideia de que alterar o nível de governo responsável pela saúde, por si só, resolva os problemas.

“Uma grande reforma estrutural corre o risco de consumir anos de atenção política sem enfrentar as questões que mais contam: a falta de profissionais, as condições de trabalho, a capacidade dos cuidados primários e o planeamento a longo prazo”, afirmou Kataoka.

Nilsson considera que os Democratas-Cristãos “têm razão ao dizer que o Estado deve estar mais envolvido”, mas defende que mudar quem gere o sistema de saúde não é o mesmo que corrigir o que nele está errado.

Falta de camas hospitalares na Suécia

Nilsson aponta ainda outro problema que identifica no centro dos cuidados especializados: a capacidade excecionalmente baixa de camas hospitalares na Suécia, com apenas 1,9 camas por 1 000 habitantes em 2023, o nível mais baixo da UE.

Aponta as más condições de trabalho como uma das principais razões, com apenas um terço dos profissionais de saúde na Suécia a não fazer horas extraordinárias e apenas um em cada dez a conseguir fazer uma pausa durante o dia de trabalho.

Isto leva muitos médicos a dar alta aos doentes mais cedo do que gostariam ou a gastar muito tempo a tentar transferi-los entre enfermarias e hospitais por falta de camas.

“Isto provoca muita pressão ética. ‘Quem é que dou alta? Como é que consigo libertar uma cama?’”, descreveu.

“É um trabalho terrível, e muitos médicos estão profundamente incomodados com o que são obrigados a fazer.”

Uma investigação de 2024 da publicação médica Sjukhusläkaren concluiu que a falta de camas, de pessoal ou de recursos e as cargas de trabalho elevadas foram fatores que contribuíram para 100 das 237 mortes hospitalares analisadas de 2023.

Kataoka afirmou que a maior melhoria na capacidade dos médicos para tratar doentes seria “ter mais tempo para os doentes”, o que exige mais profissionais, maior continuidade dos cuidados, menos burocracia e sistemas informáticos que funcionem melhor.

“Uma grande reforma estrutural corre o risco de consumir anos de atenção política sem enfrentar as questões que mais contam: a falta de profissionais, as condições de trabalho, a capacidade dos cuidados primários e o planeamento a longo prazo. Estes problemas exigem ação sustentada, independentemente do modelo de governação.”

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