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Nuno Melo: "Investimento na defesa não pode pôr em causa o Estado social nem comprometer a economia"

Nuno Melo. Ministro da Defesa de Portugal
Nuno Melo. Ministro da Defesa de Portugal Direitos de autor  Bruno Gonçalves
Direitos de autor Bruno Gonçalves
De Raquel Abecasis
Publicado a Últimas notícias
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Nuno Melo garante que o reforço no investimento em defesa vai trazer ganhos para a economia e a industria portuguesas. Quanto à meta dos 3,5% do PIB em 2035, dá maior ênfase a reavaliação que acontecerá em 2029.

É o ministro do executivo de Luís Montenegro a quem cabe concretizar um dos objetivos mais difíceis desta legislatura. Cumprir as metas acordadas na última cimeira da NATO, que correspondem a um enorme aumento das despesas em defesa, cumprindo a promessa de não cortar nas despesas sociais. Nuno Melo, que também é o líder do CDS, garante que vai consegui-lo e ainda trazer benefícios para a economia portuguesa.

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A Cimeira da NATO foi vista como uma encenação para agradar ao presidente dos Estados Unidos da América. Foi também assim que olhou para o resultado desta reunião?

Em cinco meses não tem a mínima noção de que o mundo mudou…

E uma dessas mudanças foi exatamente a eleição de Donald Trump?

Embora seja a eleição de um presidente de um Estado democrático e, para além do mais, tão importante na salvaguarda da democracia e da liberdade como todos os Estados da NATO. Não é certamente razão de preocupação para o mundo livre, independentemente das características particulares da liderança. Já a ascensão dos extremismos, as noções de domínio, as vontades de conquista e tudo mais que traduz uma pressão geopolítica muito relevante, sim. O que é facto é que neste momento vamos no terceiro ano de guerra na Ucrânia. Era uma guerra que supostamente demoraria semanas e que somos confrontados passados três anos com a internacionalização, medida também pela presença de tropas norte coreanas no conflito. Houve um agravamento da situação política e militar no Médio Oriente. Acabámos de assistir a um ataque ao Irão e Israel encara o conflito neste momento como quase existencial. A isto junta-se a confirmação da China com uma potência. Há realmente uma deslocação estratégica dos Estados Unidos da América para o Indo-Pacífico, e sabemos que essa evidência não resulta da administração Trump, já teve vários precedentes. Os Estados Unidos já não estão disponíveis para financiar a NATO, nomeadamente, a dimensão da defesa europeia como fizeram até aqui.

Mas a questão é se a meta que foi definida não vai muito para além daquilo que é razoável, tendo em conta as necessidades e as mudanças que ocorreram no mundo. Aquilo que também muitos observadores dizem é que a cumprir essa meta, a Europa vai acabar por ter equipamentos de que não necessita.

O que referi vem a par com o enfraquecimento das organizações de segurança, das agências multilaterais de segurança que saíram e foram criadas e desenhadas depois da Segunda Guerra Mundial. Mas a par também de ondas que são muito preocupantes de protecionismo e de nacionalismos. Tudo isto leva-nos a uma conclusão que me parece evidente, seria bom que as pessoas acabassem por tomar consciência de que a NATO é a mais forte, bem demonstrada organização de defesa coletiva à escala planetária, que nos assegurou desde a sua criação mais de 75 anos de paz, mas que o fez porque foi sempre política e operacionalmente forte. A NATO garantiu a paz porque se investiu nela e nesse seu sucesso, assegurando a seu tempo o fim do bloco de Leste, a queda do Muro de Berlim e, portanto, hoje em dia, quando o mundo está mais perigoso, mais imprevisível e enfurecido, a NATO é uma razão de inteligência. Tratar de reforçar o pilar europeu de defesa da NATO, não é uma opção.

Quando nós neste momento falamos de investir na defesa, falamos desde logo em modernizar o país com equipamentos que são utilizados em Portugal todos os dias, na emergência médica, no salvamento e combate aos fogos, no combate à criminalidade, coordenado pelas entidades de polícia e pelo poder judicial, no transporte de órgãos.
Nuno Melo
Ministro da Defesa

Certo, mas a questão não é se é preciso investir mais, os 2% já estavam adquiridos?

Os 2% são um mínimo de investimento, neste momento, de quem quer fazer parte da NATO. Quando Portugal diz que até final de 2025 atingirá os 2% do Produto Interno Bruto de investimentos na defesa, está a dizer que tudo ficará nivelado pelos países que menos investem na NATO. Compará-lo com o investimento, que desde logo todos os países a leste, que já superam em muito os 4%, os 3,5% ou 5% em alguns casos… Portugal, na verdade, estava já isolado, a par do Canadá, pouco antes da Cimeira de Haia. Portanto, quando Portugal investe 2%, continua a ser um dos países que menos investe na NATO. Mas sabemos que estamos a investir na NATO depois de décadas de desinvestimento das Forças Armadas em Portugal, que existem e são relevantes não por causa da guerra, mas por causa da paz. E, portanto, quando nós neste momento falamos de investir na defesa, falamos desde logo em modernizar o país com equipamentos que são utilizados em Portugal todos os dias, na emergência médica, no salvamento e combate aos fogos, no combate à criminalidade, coordenado pelas entidades de polícia e pelo poder judicial, no transporte de órgãos. Tudo isto, a par de muito mais, a Força Aérea há muito tempo é responsável pela emergência médica das Regiões Autónomas, com o Exército todos os dias a patrulhar nas nossas florestas, numa ação de prevenção de incêndios.

Nuno Melo, ministro da Defesa de Portugal
Nuno Melo, ministro da Defesa de Portugal Bruno Gonçalves

Isto para dizer que nós quando estamos a investir 2%, não estamos a investir em equipamentos usados na guerra. Podem também ser utilizados na guerra, mas são equipamentos usados, principalmente, em tempos de paz. E depois há todo um universo de investimento que tem de ser feito do ponto de vista das infraestruturas, da saúde militar da habitação, tudo aquilo que não é feito há anos e anos, mas que implica recursos. Mas com esta dupla certeza, em primeiro lugar, não se pode pôr em causa o Estado social, em segundo lugar, não se pode comprometer a economia. Nós temos de assegurar, no que tem que ver com bens, equipamentos e infraestruturas, cada aquisição, cada modernização tem de envolver a indústria portuguesa. Neste momento estou em Itália e vou ter daqui a pouco uma reunião com o ministro da Defesa italiano, mas o pretexto é a junção em projetos de sinergias de empresas portuguesas e empresas italianas, que são um gigante industrial a nível global. Ou seja, nós queremos investir na defesa, mas levar para este crescimento as empresas portuguesas. Vai reforçar a economia, a defesa vai criar oportunidades de emprego numa área de salários mais altos, onde há mais inovação e tecnologia, onde o retorno para o produto interno é muito maior. Criando clusters à volta daquilo que são as necessidades da terra, do mar e do ar. Eu acho que isto é bom, não é despesa.

Então a pergunta que faço é: se era assim tão simples, porque é que demorámos tanto tempo a fazer?

Pelo simples facto de que os sucessivos governos precedentes, mobilizados na eleição seguinte, nunca tiveram a Defesa Nacional como uma prioridade política. Para governos precedentes, nomeadamente aqueles saídos desde 2015, as Forças Armadas e a Defesa Nacional foram a última das preocupações da política. Desinvestiram nas Forças Armadas.

Mas também o contexto internacional era diferente. Os portugueses não estavam tão abertos a investimentos na defesa como estão hoje?

Bom, eu sempre gostaria de recordar que há um ano, quando nós decidimos aumentar salários e suplementos, e recordo que os militares ganhavam muito menos do que, por exemplo, os elementos das forças de segurança da GNR e da PSP, não havia relatório Draghi. Se há um ano me dissessem que estaríamos neste momento, em junho de 2025, a falar de investimentos de 2% na defesa diriam provavelmente que essa pessoa não estaria bem da cabeça. Mas nós lutámos pelo investimento na defesa quando não havia essa perceção global da necessidade de investimento nesta dimensão. E começámos pelas pessoas, por muito bem equipadas que estejam as Forças Armadas, se não tiver militares não vale de nada. Por isso começámos pelas pessoas de forma comprometida e convicta, porque sabíamos que estávamos a fazer o que era certo. Um país como Portugal, com este imenso mar soberano, tem de exercer em terra, no mar e no ar, essa soberania. Patrulhar a Zona Económica Exclusiva, exercer ações de busca e salvamento, patrulhar o território continental, fazer a emergência médica das regiões autónomas, fazer tudo aquilo que passa pelas Forças Armadas. Se hoje Portugal dá um passo importante, com noção do impacto e da dificuldade, também o faz com o propósito que é estratégico no sentido de valorização e dignificação das Forças Armadas.

Nuno Melo, ministro da Defesa de Portugal
Nuno Melo, ministro da Defesa de Portugal Bruno Gonçalves

E consegue garantir que antecipar a meta dos 2% já para este ano não vai ter nenhum impacto nas contas nacionais?

Eu acredito que vai ter um impacto positivo nas contas nacionais, pelo facto de se tratar de investimento e não da despesa. Acredito que este envolvimento das indústrias de defesa no esforço que estamos a fazer se traduzirá em mais empregos, produzirá mais riqueza, se traduzirá em mais impostos, na criação e no fortalecimento de coisas já existentes.

Mas isso é visível no acerto de contas no final do ano ou é uma coisa que se calhar não é um dado seguro. Sempre são 1000 milhões de euros?

O Reino Unido investiu em drones portugueses muitíssimos milhões de euros. A contribuição portuguesa para a iniciativa do Reino Unido em drones foi de 52 milhões de euros. Neste momento Portugal lidera a produção de drones à escala global. Os navios patrulha oceânicos estão neste momento a ser construídos nos Estaleiros de Viana do Castelo por trabalhadores portugueses. É uma empresa portuguesa que paga impostos em Portugal. As viaturas Pandur, neste momento, a atualização de muitos milhões de euros, será feita a 100% pelas empresas portuguesas. Há semanas em Paris anunciei que íamos adquirir o sexto KC-390, mas simultaneamente fazendo uma reserva de mais dez aeronaves. Eu sei que cada aeronave vendida no espaço NATO, através da relação Estado a Estado, significa 11 milhões de euros para o Estado. E 70% do KC é fabricado em Portugal.

Mas para tudo isso que me está a dizer os 2% de investimento chegam. Porque é que temos de chegar aos 5%, ainda que com aquela ideia dos 3,5% mais 1,5%, daqui a dez anos?

O que eu digo é que atingiremos os 2% com a garantia da sua execução e do retorno para a economia. O que tem que ver com os 3,5%, esses em despesa direta e depois mais 1,5 em infraestruturas, mas já gora frisando que em 2029 tem de ser feita uma reavaliação…

É coincidência ser o ano em que Donald Trump sai da Casa Branca?

Não sei se é coincidência. Para mim, o que é relevante é perceber que antes da meta de 2035 em que temos de atingir valores maiores, há um momento de ponderação.

E, entretanto, até 2029 não há nenhum teto a respeitar. Portanto, pode-se ir avaliando qual é o investimento?

Claro que sim. Dependemos dessa avaliação, que é feita também, desde logo pelas finanças, tendo em conta a necessidade de preservação do Estado social e económico.

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