Aumentam avistamentos de drones junto a aeroportos, bases militares e infraestruturas críticas. A Euronews foi conhecer um novo sistema que é capaz de capturar estes aparelhos em vez de os abater.
Durante cerca de uma hora, tudo parou no aeroporto de Munique. Na mahã sábado foi registado um avistamento de um drone, o que levou a que, pelo menos 26 voos não pudessem aterrar e fossem desviados. O episódio também gerou vários atrasos nas zonas de partidas.
Avistamentos de drones deste tipo não são novidade: só nos primeiros três meses do ano, segundo a Autoridade Alemã de Controlo de Tráfego Aéreo, a Deutsche Flugsicherung, foram registados 37 drones em aeroportos alemães. Além disso, não se sabe de onde vêm esses objetos voadores, uma vez que, até ao momento, nenhum conseguiu foi capturado, podendo estes ser objetos de espionagem "hostis", ou apenas drones recreativos.
Solução: um caça-drones
A empresa alemã Argus Interception desenvolveu, em colaboração com a norte‑americana Echodyne, uma solução: um drone que, com recurso a radar, sai em caça de outros drones e captura o aparelho desconhecido com uma rede.
O objetivo do A1-Falke é capturar o drone adversário o mais intacto possível, para evitar danos colaterais provocados por destroços e permitir a posterior análise do aparelho. Para conseguir capturar o dispositivo adversário, o drone dispõe de duas cargas de rede, o que lhe permite duas tentativas para este processo.
Numa apresentação exclusiva a um grupo restrito de jornalistas, entre os quais a Euronews, a Argus Interception e a Echodyne demonstraram a caça aos drones.
Num campo de treino perto de Hamburgo, um drone “inimigo” sobrevoou o prado e foi de imediato perseguido pelo A1-Falke. Após uma breve perseguição, ouviu‑se um som semelhante a um disparo e o aparelho ficou preso nas malhas do drone intercetor.
Em declarações à Euronews, Sven Steingräber, cofundador e diretor executivo responsável pelas áreas de vendas e marketing da Argus Interception, explica que o sistema foi pensado sobretudo para contextos em que não é viável abater um aparelho, como nas imediações de aeroportos, de infraestruturas críticas ou em zonas urbanas.
“Avançámos com este projeto porque identificámos uma lacuna de capacidades”, afirma Steingräber.
Segundo o responsável, o objetivo passa por “atuar sobre um drone de forma proporcional”, evitando danos colaterais e a queda de destroços. “Conseguimos capturar o drone, transportá‑lo e colocá‑lo onde quisermos”, acrescenta Steingräber. “Dessa forma, evitamos danos para terceiros ou simplesmente danos materiais.” Salienta que isso é particularmente relevante em áreas densamente povoadas.
Como funciona o sistema
Em termos simples, a Echodyne fornece os “olhos” do sistema, a Argus o braço que agarra. A ideia passar por, primeiro, detetar o drone e, depois, neutralizá‑lo de forma controlada.
Num mesmo sistema integrado, as duas empresas assumem funções diferentes: enquanto a Echodyne monitoriza o espaço aéreo com os seus radares e identifica aparelhos suspeitos, a missão de interceção propriamente dita cabe ao drone A1-Falke da Argus.
O radar de maior alcance, o “EchoShield”, deteta primeiro o drone que entra na zona vigiada, segue‑o com grande precisão e envia os dados para o centro de operações, explica à Euronews o CEO da Echodyne, Eben Frankenberg. Em paralelo, é utilizado o radar mais pequeno, o “EchoGuard”, que desempenha a mesma função a distâncias mais curtas.
Assim que o drone‑alvo é identificado, a sua posição é transmitida ao sistema de interceção. No próprio drone interceptor encontra‑se ainda o radar “EchoFlight”, que segue o aparelho durante a aproximação e permite ao A1-Falke acompanhar o alvo até ao momento da captura.
O A1-Falke passa então a perseguir o aparelho e tenta capturá‑lo com uma rede. O voo é controlado a partir do solo por um piloto humano, sendo que a inteligência artificial serve apenas de apoio: as decisões continuam a ser tomadas por uma pessoa.
Quem pode abater drones
Em entrevista à Euronews, Steingräber sublinha que muitos continuam a achar que um drone a sobrevoar um edifício, à partida, não representa perigo.
“As guerras modernas muitas vezes não começam com o primeiro tiro, mas com a recolha de informação. Muitos não têm consciência de que esses dados sensíveis podem vir a ter um impacto enorme mais tarde”, afirma.
“Sobrevoos deste tipo sobre infraestruturas críticas podem ter fortes repercussões. Os procedimentos são filmados, as rotas de abastecimento e os pontos sensíveis são avaliados pelo adversário, para que, em caso de conflito, possa atacar de forma cirúrgica porque dispõe dessa informação.”
Desde o início da invasão russa da Ucrânia, em 2022, em violação do direito internacional, multiplicaram‑se os avistamentos de drones sobre infraestruturas críticas, aeroportos ou instalações da Bundeswehr. Do ponto de vista legal, cabia à polícia a responsabilidade de tirar as drones do céu.
A Bundeswehr só podia intervir contra drones que sobrevoassem as suas próprias instalações. Por isso, no ano passado foi alterada a Lei de Segurança Aérea. A responsabilidade principal continua a ser da polícia, mas as forças armadas podem agora apoiar, se os estados federados ou as autoridades competentes pedirem cooperação administrativa e os meios disponíveis se revelarem insuficientes.
Mas os críticos do quadro atual argumentam que os operadores de infraestruturas críticas continuam a ter meios muito limitados para reagir a voos não autorizados de drones. Defendem que, no futuro, seja permitido utilizar sistemas de defesa específicos, como o drone intercetor da Argus.