Jean-Claude Juncker, que liderou a Comissão Europeia durante o primeiro mandato de Trump, afirmou à Euronews que a UE "não pode ser submetida ao comportamento neocolonial" dos Estados Unidos.
Enquanto o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, discursava perante os líderes mundiais no Fórum Económico Mundial, em Davos, na quarta-feira, o antigo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, escolheu o programa emblemático da Euronews, Europe Today, para comentar as ameaças dos EUA para tomar posse da Gronelândia.
Juncker apelou aos europeus para que recorram à diplomacia para resolver as tensões com os EUA, salientando que "a União Europeia tem cartas na mão". "Podemos usar todos os instrumentos à nossa disposição que prejudicariam profundamente a economia dos EUA, e não devemos hesitar em recorrer a essas ferramentas, se necessário", afirmou Juncker.
Tratou-se de uma referência ao instrumento anti-coerção que alguns líderes da UE, em particular o presidente francês Emmanuel Macron, estão a tentar utilizar contra os EUA.
Apelidado de "bazuca", o instrumento anti-coerção é uma ferramenta poderosa adotada em 2023 que permite à UE punir países hostis por via de "chantagem económica", limitando as licenças comerciais e bloqueando o acesso ao mercado único.
"Comportamento neocolonial"
Juncker tem experiência em lidar com o presidente dos Estados Unidos: em 2018, quando uma guerra comercial se aproximava, ele conseguiu amenizar o conflito. Mas, esta semana, considerou que o contexto é agora muito diferente.
"Não creio que ele esteja, por enquanto, num modo muito recetivo", disse Juncker sobre Trump. "Tornou-se cada vez mais difícil falar com ele de forma amigável."
Juncker instou a UE a ser mais assertiva em relação aos EUA, mostrando que "estamos prontos para defender os interesses europeus". Questionado sobre o que faria se ainda fosse presidente, referiu que enfrentaria o presidente dos EUA e explicaria "que a União Europeia não pode ser sujeita a qualquer tipo de comportamento neocolonial".
"A UE não é escrava dos Estados Unidos da América. Ele sabe disso, mas não leva isso em consideração, pelo menos não publicamente."
Juncker acrescentou que o discurso de uma hora de Trump foi "menos agressivo" do que esperava, mas, ainda assim, "não foi tranquilizador".
Embora o presidente dos EUA tenha descartado a possibilidade de um ataque militar à Gronelândia, reafirmou a necessidade de assumir o controlo do território por via de negociações. Também se referiu à Gronelândia como um "gigantesco pedaço de gelo" e repetidamente a chamou de "Islândia".
Agora conselheiro da atual presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, Juncker afirmou, em declarações à Euronews, que as ameaças de Trump poderiam levar ao fim da aliança transatlântica.
"Se um aliado da NATO ataca ou ameaça outro aliado da NATO, isso dará início a um processo que poderá culminar no colapso da NATO", afirmou.