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Papa em Angola arrefece tensão com Trump e exorta líderes a quebrarem “ciclo de interesses"

O Papa Leão XIV acena após chegar a Luanda, em Angola, no sábado, 18 de abril de 2026, no sexto dia da sua visita pastoral de 11 dias a África
O Papa Leão XIV acena após chegar a Luanda, em Angola, no sábado, 18 de abril de 2026, no sexto dia da sua visita pastoral de 11 dias a África Direitos de autor  AP Photo/Themba Hadebe
Direitos de autor AP Photo/Themba Hadebe
De Manuel Ribeiro
Publicado a Últimas notícias
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O Papa Leão XIV desvalorizou a recente troca de palavras com Donald Trump e exortou os líderes a quebrar o “ciclo de interesses” que, há séculos, saqueia e explora África. JD Vance congratulou o sumo pontífice por ter arrefecido os ânimos.

A visita do Papa Leão XIV a Angola, país do sudoeste africano rico em petróleo e minerais, marcou a terceira etapa da sua viagem por quatro países africanos.

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Ainda no avião, o Santo Padre esclareceu que “não era de todo o seu interesse” debater com Trump, mas que continuaria a pregar a mensagem evangélica de paz, justiça e fraternidade em África. Palavras que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, agradeceu mais tarde, nas redes sociais.

“Estou grato ao Papa Leão por ter dito isto. Embora a narrativa dos meios de comunicação social alimente constantemente o conflito – e sim, já ocorreram e continuarão a ocorrer divergências reais –, a realidade é, muitas vezes, muito mais complexa. O Papa Leão prega o evangelho, como deve ser, e isso significa inevitavelmente que ele dá a sua opinião sobre as questões morais da atualidade. O Presidente – e toda a administração – trabalham para aplicar esses princípios morais num mundo caótico. Ele estará nas nossas orações, e espero que nós estejamos nas dele", escreveu Vance na rede X.

Depois de reunir-se com o presidente angolano, João Lourenço, o Papa proferiu o seu primeiro discurso perante as autoridades governamentais angolanas, no qual se referiu repetidamente à história conturbada de Angola, marcada pela pilhagem colonial e pela guerra civil.

"Desejo encontrar-me convosco num espírito de paz e afirmar que o vosso povo possui tesouros que não podem ser comprados nem roubados", alertou o Santo Padre.

"Sabem bem que, com demasiada frequência, as pessoas olharam — e continuam a olhar — para as vossas terras para dar, ou, mais frequentemente, para tirar", disse Leão às autoridades angolanas.

Angola é atualmente o quarto maior produtor de petróleo de África e figura entre os 20 maiores produtores mundiais, de acordo com a Agência Internacional de Energia. O país é também o terceiro maior produtor mundial de diamantes e possui importantes jazidas de ouro e de minerais essenciais muito procurados.

No entanto, apesar dos seus variados recursos naturais, o Banco Mundial estimou, em 2023, que mais de 30 % da população vivia com menos de 2,15 dólares por dia.

"É necessário quebrar este ciclo de interesses, que reduz a realidade e até a própria vida a meras mercadorias", acrescentou o Santo Padre perante os líderes angolanos.

Depois de conquistar a independência de Portugal em 1975, Angola mergulhou numa dura guerra civil que durou 27 anos.

A guerra em Angola foi um conflito por procuração da Guerra Fria, com os Estados Unidos e a África do Sul a apoiarem o Movimento Pela Libertação da Angola (MPLA) por um lado, e a União Soviética e Cuba a apoiarem a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).

Depois da guerra, o país mergulhou num regime de partido único com um líder por muitos considerado autoritário.

José Eduardo dos Santos, um dos fundadores do MPLA, governou Angola durante 38 anos, de 1979 a 2017, e foi acusado de desviar milhares de milhões de dólares de fundos públicos para a sua família, em grande parte provenientes das receitas petrolíferas do país, enquanto milhões de pessoas viviam na pobreza.

Depois de João Lourenço ter assumido a presidência, em 2017, a sua administração estimou que pelo menos 24 mil milhões de dólares foram roubados ou desviados por José Eduardo dos Santos. A administração de Lourenço prometeu combater a corrupção e tem trabalhado para recuperar fundos alegadamente roubados durante a era da família dos Santos.

Mas os críticos observam que Angola ainda enfrenta graves problemas de corrupção e questionam se as ações de João Lourenço visavam mais os rivais políticos, de modo a consolidar o seu poder.

Lado a lado com o Papa Leão XIV, o Presidente de Angola afirmou que o governo angolano estava empenhado em melhorar a vida do seu povo, mas que se tratava de um "desafio complexo e difícil". João Lourenço apelou também ao fim da guerra no Irão e pediu ao Papa que continuasse a exercer a sua "autoridade moral" para promover a paz e a compreensão entre os povos.

Visita a Muxima será o momento alto do Papa em Angola

O Papa Leão XIV chega a Kilamba, a cerca de 30 quilómetros a sul de Luanda, em Angola
O Papa Leão XIV chega a Kilamba, a cerca de 30 quilómetros a sul de Luanda, em Angola AP Photo/Andrew Medichini

Depois da missa em Kilamba, nos arredores de Luanda, o Papa desloca-se para Muxima, naquele que será o ponto alto da visita de Leão XIV a Angola. O Santo Padre rezará o terço na Igreja Mamã Muxima (Mãe do Coração). Trata-se de um santuário católico popular num país onde cerca de 44% da população é católica.

A Igreja de Nossa Senhora de Muxima foi construída pelos portugueses no final do século XVI, como parte de um complexo fortificado, e tornou-se um centro nevrálgico do comércio de escravos. Angola foi considerada o epicentro do comércio de escravos. Estima-se que mais de 5 milhões de africanos escravizados tenham sido enviados para o outro lado do oceano a bordo de navios portugueses.

Considerado "o maior centro de peregrinação católica na África Austral e símbolo de devoção popular em Angola", Muxima continua a ser um local que remete à relação entre o catolicismo romano e a exploração do continente africano.

Nascido nos EUA, Robert Francis Prevost (Papa Leão XIV) tem antepassados negros e brancos, entre os quais se contavam tanto escravos quanto proprietários de escravos, segundo pesquisas genealógicas.

Leão vai a Muxima na tarde de domingo para rezar o terço, em reconhecimento do facto de o local ter se tornado um destino de peregrinação popular depois de os fiéis terem relatado uma aparição da Virgem Maria por volta de 1833.

Outras fontes • AP, Vatican News

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