Há um ano, Portugal ficou às escuras durante várias horas. O episódio apanhou muitos desprevenidos, sobretudo o Governo, que identificou várias “fragilidades”. Um ano depois, o que é que se aprendeu? A Euronews foi perceber junto dos portugueses como é que hoje em dia se preparam.
Há um ano, pelas 11h33, hora portuguesa, muito provavelmente não conseguiria estar a ler esta notícia. Uma falha elétrica, com origem no país vizinho, deixou Portugal e Espanha às escuras durante várias horas.
O incidente levou Bruxelas a ativar a sua estratégia de resiliência, recomendando a preparação de um kit de emergência para garantir a sobrevivência durante pelo menos 72 horas. Água potável, alimentos não perecíveis, primeiros socorros, lanterna ou rádio a pilhas fazem parte da lista.
Um ano depois, se a história se repetisse, estariam preparados? A Euronews foi perceber se as pessoas tomaram alguma medida após o apagão, como ter um kit de sobrevivência em casa.
“Convém estarmos sempre preparados com o nosso kit e sabermos viver sem tecnologias, sem estarmos constantemente ligados à internet”, partilhou Mariana, de 20 anos, que, por ser escuteira, já tem esta “veia de sobrevivente” e em casa já possui vários elementos do kit, como rádio e pilhas prontos a usar.
Manuel Oliveira, de 77 anos, recorda o dia de forma tranquila, explicando que já tinha muitos dos elementos que considera essenciais. “Tenho sempre velas, também tenho um rádio a pilhas e enlatados”, diz. À Euronews diz que conseguiria sobreviver se hoje se repetisse o apagão, mas não por “mais de uma semana”. Ainda assim, considera que “há muita gente que está desprevenida e não tem nada em casa e, depois, fica aflita porque não tem o que comer, não tem luz, não tem nada”.
Muitas pessoas que falaram com a Euronews assumiram não ter feito qualquer kit de emergência, embora tenham artigos que lhes permitiriam sobreviver. “Tenho conservas, dinheiro em casa, só não saberia notícias porque não tinha o rádio”, diz Sónia, uma lojista.
Já Filomena Nobre, aposentada, confessou ter preparado o seu kit de emergência depois do que aconteceu. “Comprei um rádio de pilhas e tenho sempre pilhas suplentes em casa”, começa por dizer. “Além disso, também me preparei para um possível tremor de terra e fiz uma mochila com cobertor, apito, pilhas e outras coisas”, acrescenta.
Uma das preocupações que também teve foi a refrigeração dos alimentos e, por isso, hoje em dia tenta ter menos comida no congelador.
Luís Latas, também reformado, lembra que estava de férias e tinha o carro abastecido, mas correu ao supermercado para comprar papel higiénico, garrafas de água e abastecer a despensa. “Parecia que o mundo estava a acabar”, diz. “Sem telemóveis, sem nada, as pessoas entram em pânico”, comenta.
Para Luís, também é importante que o Governo tenha soluções para que situações como estas não voltem a acontecer. “As câmaras municipais, juntas de freguesia e o Governo têm de pensar em ter geradores, como há nos centros comerciais, em determinados sítios”, diz.
Grupo de trabalho sobre o apagão
A quebra de energia ocorrida às 11h33 do dia 28 de abril de 2025 motivou não só mudanças de comportamento nas casas dos portugueses, mas também a adoção de medidas por parte do Governo, como a criação do CORGOV e de um grupo de trabalho parlamentar, do qual foram retiradas “lições”, como afirmou António Leitão Amaro, ministro da Presidência, na última audição, realizada na quinta-feira, 23 de abril.
O ministro da Presidência recordou as primeiras horas do Governo, no dia 28 de abril de 2025, e enfatizou que a prioridade foi “dar apoio, socorro e garantir a continuidade dos serviços mais vulneráveis e mais decisivos para as condições de vida das pessoas, começando naturalmente pelos serviços de saúde”.
Leitão Amaro reconheceu fragilidades e afirmou que “o país precisa de fazer mais”. Nesse sentido, o Governo tem medidas previstas para apresentar no “Programa de Transformação, Recuperação e Resiliência”, também nesta terça-feira, que promete tornar mais robustas, “em vários domínios" as "estruturas, infraestruturas e comunidades para eventos extremos”.
Durante várias semanas, o grupo de trabalho parlamentar, constituído por representantes dos partidos com assento na Assembleia da República, ouviu várias entidades, como a Direção Executiva do SNS, a Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE) e o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).
Hoje, precisamente um ano depois do episódio, o grupo de trabalho sobre o apagão apresenta o seu relatório final onde são propostas várias medidas ao executivo.
Segundo um relatório preliminar a que a agência Lusa teve acesso, o grupo de trabalho sugere que o Governo “estabeleça, por via legislativa ou regulatória, requisitos mínimos de autonomia energética para infraestruturas críticas”, como “hospitais, centros de saúde, lares e estruturas de emergência”.
Com base também nas recomendações da ENTSO-E (Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade), esses requisitos mínimos deverão ser de pelo menos 72 horas para as infraestruturas mais críticas e não inferiores a 24 horas para as restantes.
Os limites de armazenamento de combustível nestas infraestruturas e no retalho alimentar também foram analisados. O grupo defende a revisão do atual limite de 500 litros, considerando-o insuficiente “para um evento prolongado, quando outros países europeus permitem até 3.000 litros”, segundo a Lusa.
O grupo propõe ainda “a integração formal do retalho alimentar e das farmácias no quadro das infraestruturas críticas”, bem como “a revisão da Rede Estratégica de Postos de Abastecimento (REPA), incluindo a capacidade técnica dos postos, o alargamento do acesso a entidades críticas não contempladas e a definição de protocolos prévios, testados e coordenados, para o reabastecimento de combustível a geradores de infraestruturas críticas”.
A morosidade na ativação de muitos procedimentos foi também identificada, levando o grupo a recomendar uma “revisão de critérios” que permita “decisões mais céleres e operacionalmente eficazes em cenários de falha generalizada da rede elétrica”.
O Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança (SIRESP) foi igualmente escrutinado, tendo sido recomendada a “revisão estrutural da sua arquitetura” e o desenvolvimento de um “mecanismo de alerta e comunicação de emergência independente das redes comerciais”.
O relatório inclui ainda recomendações para a proteção dos consumidores, defendendo a “revisão do regime de compensação por interrupção do fornecimento elétrico”, decisões mais rápidas por parte da ERSE e a realização de um cálculo dos prejuízos causados.
No que diz respeito à segurança e operação do sistema elétrico, o grupo de trabalho propõe a “extensão dos requisitos de controlo de tensão às centrais renováveis existentes”, a “monitorização do sistema elétrico e do controlo de tensão na rede”, a “revisão dos planos de defesa do sistema para cenários de sobretensão” e a “conclusão e publicação do estudo de custo total do sistema (Total System Cost) como instrumento de política energética”.
Em novembro do ano passado, o Governo criou o Centro de Operações do Governo (CORGOV), aprovando um manual que define o processo de coordenação política e de comunicação a seguir, tendo em conta que não existia qualquer plano de ação para “crises graves”. O ministro da Presidência chegou mesmo a descrever a atuação do Governo nos primeiros minutos como baseada na “intuição” e no “conhecimento”, recorrendo às rádios para as primeiras comunicações porque não havia planeamento.
O grupo parlamentar também apresentou recomendações relativas a esta estrutura, sugerindo que o Governo apresente à Assembleia da República um relatório sobre a operacionalização do CORGOV.
Estas e outras propostas serão agora avaliadas pelos grupos parlamentares, sendo que o relatório ainda poderá sofrer alterações.
Várias falhas levaram ao apagão
O relatório técnico sobre o apagão,divulgado a 20 de março deste ano, concluiu que a origem do incidente esteve em Espanha, e não foi provocado apenas por uma causa única e sim pela soma de várias falhas que se retroalimentaram em menos de 90 segundos.
A análise, descrita em mais de 400 páginas, e explicada pela Euronews ao detalhe, identificou uma sucessão de falhas técnicas associadas a um controlo de tensão insuficiente e reconstitui o colapso com uma precisão de milissegundos.
No minuto antes do colapso, a tensão começou a subir em vários nós da rede elétrica espanhola e, paralelamente, a produção das grandes instalações de energias renováveis, com uma capacidade superior a 5 megawatts, diminuiu cerca de 500 megawatts.
Esta redução da potência ativa, em centrais que funcionam com um fator de potência fixo, arrastou também para baixo a potência reativa que estes geradores absorviam da rede o que fez com que a tensão subisse ainda mais.
Pouco tempo depois, um transformador de uma subestação na zona de Granada disparou a sua proteção contra a sobretensão.
Perante estas conclusões, o Governo português remeteu para a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) "a avaliação das consequências e a definição do enquadramento legal para eventuais compensações, sublinhando que a natureza extraordinária do evento poderá limitar indemnizações", lê-se no comunicado do executivo do dia 20 de março.
"Agora é o momento de o regulador nacional fazer a sua avaliação e indicar o caminho a seguir em relação às compensações", acrescentou a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho.