Berlin e Varsóvia reforçam cooperação de defesa com novo acordo para proteger o mar Báltico e melhorar a coordenação militar e comunicações.
Alemanha e Polónia preparavam-se para assinar na quarta-feira um novo acordo de defesa, deixando de lado o passado complicado para reforçar a cooperação militar europeia numa altura de maior tensão com a Rússia e de crescente incerteza quanto ao envolvimento dos Estados Unidos na Europa.
As relações entre os dois vizinhos tornaram-se mais pragmáticas nos últimos anos, na sequência da guerra em grande escala da Rússia contra a Ucrânia em 2022 e da chegada ao poder, em 2023, de um governo liberal na Polónia.
Num momento em que os EUA ponderam reduzir parcialmente a presença militar na Europa, a Polónia procura garantir que os principais aliados europeus assumem um papel maior na defesa da ala leste do continente.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, procura parceiros no esforço de revitalizar as forças armadas do país, a Bundeswehr, após décadas de desinvestimento, com a ambição de construir o exército convencional mais forte do lado europeu da NATO, um esforço que deverá tornar a Alemanha um pilar central da defesa europeia nos próximos anos.
A importância da Polónia como plataforma logística para a Ucrânia, a par do crescimento económico e do forte investimento em defesa, tornou o país um parceiro atrativo para a Alemanha e para outros Estados centrais da Europa.
“Nós, alemães, precisamos de uma Polónia forte como parceiro em pé de igualdade”, afirmou Merz em Berlim, depois de uma reunião com o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, em dezembro. “Isso corresponde a um interesse fundamental nosso.”
O acordo de defesa deverá incluir planos para proteger a região do mar Báltico e detalhes sobre a cooperação em mobilidade e infraestruturas militares, cibersegurança e novas tecnologias.
Os dois países estão ligados de forma irreversível pelos planos de defesa da NATO, que atribuem à Alemanha um papel central na defesa da região do Báltico, juntamente com a Polónia e outros países da Europa Central e de Leste.
“A Alemanha é em grande medida responsável pela defesa dos Estados bálticos e, sem cooperação com a Polónia, isso não será possível”, afirmou Justyna Gotkowska, diretora-adjunta do think tank Center for Eastern Studies, sediado em Varsóvia.
Os países bálticos são frequentemente apontados como o alvo mais provável da Rússia caso, no futuro, ataque território da NATO, alargando as hostilidades para além da Ucrânia, contra a qual lançou uma invasão em grande escala em fevereiro de 2022.
Espera-se que o acordo de defesa reafirme as obrigações de segurança mútua previstas nos tratados da NATO e da União Europeia, de que ambos os países são signatários.
Ao contrário dos tratados bilaterais que cada um assinou nos últimos anos com a França e o Reino Unido, o acordo polaco-alemão é interministerial, centra-se nos aspetos práticos da cooperação militar e não inclui declarações políticas de defesa mútua como as previstas nesses tratados.
Questionado pelos meios de comunicação polacos sobre a razão de Varsóvia não assinar um tratado semelhante com a Alemanha, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Radosław Sikorski, afirmou que o presidente Karol Nawrocki, que chegou ao poder com o apoio do partido nacional-conservador Lei e Justiça, nunca aceitaria essa solução.
“Instalar-se-ia o caos no país” se fosse assinado um tratado germano-polaco, acrescentou Sikorski.
Apesar da importância crescente da Polónia na arquitetura de segurança europeia, a Alemanha tem preferido tomar as principais decisões sobre a Ucrânia ou o Irão apenas em conjunto com os principais aliados da Europa Ocidental, França e Reino Unido, deixando Varsóvia de fora.
A 7 de junho, os três países da Europa Ocidental receberam em Londres o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, para discutir o papel que poderão desempenhar em eventuais futuras negociações de paz com a Rússia.
Numa conferência de imprensa em Varsóvia, após o encontro de Londres, Tusk afirmou ter transmitido a Merz que a Polónia devia fazer parte das discussões sobre o futuro da Ucrânia e da região.
“Qualquer acordo alcançado sem a nossa participação não será respeitado nem será vinculativo para nós”, sublinhou o chefe do governo polaco.