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Polónia-Ucrânia: guerra das condecorações atinge o auge

O presidente polaco, Karol Nawrocki, à esquerda, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, antes do encontro em Varsóvia, na Polónia, sexta‑feira, 19 de dezembro de 2025.
O presidente polaco Karol Nawrocki, à esquerda, e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky antes do encontro em Varsóvia, na Polónia, esta sexta-feira, 19 de dezembro de 2025 Direitos de autor  Czarek Sokolowski/Copyright 2025 The AP. All rights reserved
Direitos de autor Czarek Sokolowski/Copyright 2025 The AP. All rights reserved
De Serge Duchêne
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Após a decisão do presidente polaco de retirar a mais alta condecoração nacional ao homólogo ucraniano, por um gesto visto como insultuoso para a memória histórica da Polónia, antigos dirigentes em Kiev renunciam, por sua vez, à Ordem da Águia Branca.

Uma rutura entre dois aliados, mesmo com um passado comum conturbado, numa altura em que a unidade da Europa, perante os numerosos desafios, tanto de leste como do outro lado do Atlântico, é tão preciosa...

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O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, os seus principais colaboradores e os antigos presidentes ucranianos anunciaram a devolução das condecorações polacas, num contexto de crescentes tensões com a Polónia sobre os massacres da Segunda Guerra Mundial.

Zelenskyy desencadeou a ira da vizinha Polónia, aliada‑chave na resposta à invasão russa em grande escala desde 2022, ao dar o nome de Exército Insurgente Ucraniano (UPA) a uma unidade militar, um movimento nacionalista responsável por massacres de polacos durante a Segunda Guerra Mundial.

Na sexta‑feira, o presidente polaco de extrema‑direita, Karol Nawrocki, retirou a Zelenskyy a Ordem da Águia Branca – a mais alta distinção polaca – apesar dos apelos, tanto em Kiev como em Varsóvia, para baixar a tensão.

Zelenskyy publicou nas redes sociais uma fotografia da encomenda a ser embalada e enviada a partir de um posto comum dos Correios, endereçada à chancelaria presidencial polaca.

"A Ucrânia está agradecida ao povo polaco pelo seu apoio e cooperação", acrescentou Zelenskyy na sua declaração.

Fissuras na aliança?

Num comunicado que revogava a distinção atribuída pelo seu antecessor, Nawrocki afirmou que esta decisão "não é dirigida contra o povo ucraniano" e que a Polónia continuaria a apoiar a Ucrânia.

Ainda assim, muitos na Ucrânia viram a decisão de Nawrocki como um ataque e a "guerra das condecorações" reacendeu‑se com ainda mais força.

O ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Andriy Sybiha, foi o primeiro a reagir, ao anunciar que devolveria a Cruz de Comendador com Estrela da Ordem do Mérito da República da Polónia, que lhe tinha sido atribuída em 2022.

O chefe do Gabinete do presidente ucraniano, Kyrylo Boudanov, e o embaixador da Ucrânia na Polónia, Vasyl Bodnar, seguiram‑lhe o exemplo ao prescindirem da sua Cruz de Oficial da Ordem do Mérito da República da Polónia.

O segundo presidente da Ucrânia independente, Leonid Kuchma (1994-2004), e, depois dele, o terceiro, Viktor Yushchenko (2005-2010), e o quinto, Petro Poroshenko (2014-2019), anunciaram todos que abdicam da Ordem da Águia Branca que lhes tinha sido entregue na altura das respetivas presidências.

Poroshenko precisou (fonte em francês) que a sua recusa da ordem era um gesto em resposta à decisão do presidente polaco, mas que essa iniciativa não visava, em caso algum, o povo polaco.

Yushchenko também sublinhou (fonte em francês) que não se tratava de um ato de ódio, mas de um gesto de solidariedade para com Zelenskyy e o exército ucraniano, classificando, ao mesmo tempo, a decisão de Nawrocki de "irresponsável".

"Não foi para isto que a Ucrânia enfrentou a Rússia, que justificou a sua invasão com reivindicações históricas, para que outros países nos venham hoje ditar a nossa história e decidir quem devemos homenagear", retorquiu, por seu lado, Kuchma, através da sua fundação presidencial (fonte em francês).

Como começou a crise?

No passado dia 27 de maio, Volodymyr Zelenskyy assinou um decreto (fonte em francês) que atribui o nome de "Heróis da UPA" ao Centro Independente de Operações Especiais "Norte" das Forças de Operações Especiais das Forças Armadas da Ucrânia.

Explicou ter tomado esta decisão "a fim de restabelecer as tradições históricas do exército nacional e tendo em conta a execução exemplar das missões confiadas na defesa da integridade territorial e da independência da Ucrânia".

O Exército Insurgente Ucraniano, ou UPA, foi um exército de guerrilha ucraniano formado em outubro de 1942, na Volínia (noroeste da Ucrânia), como braço militar da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-B), um movimento ultranacionalista liderado por Stepan Bandera, com o objetivo de instaurar um Estado ucraniano independente.

Lutando simultaneamente contra o exército alemão e as forças soviéticas, a organização perpetrava massacres em massa contra as populações polacas na Volínia, que causaram entre 40 000 e 100 000 vítimas, segundo algumas estimativas. A UPA assassinou também várias centenas e possivelmente vários milhares de judeus na Volínia e na Galícia Oriental.

Uma decisão que caiu particularmente mal na Polónia. O presidente Karol Nawrocki declarou de imediato que recebeu a decisão de Zelenskyy "com grande tristeza".

"Não é assim que se constroem relações entre nações", sublinhou na sexta‑feira, acrescentando que a glorificação da UPA fornecia à propaganda russa "muito oxigénio para a desinformação".

"Limiar da dor dos polacos foi ultrapassado"

O presidente polaco voltou à carga este sábado, 20 de junho, justificando a sua decisão de retirar a Zelenskyy a Ordem da Águia Branca com o facto de as suas ações terem ultrapassado o limiar de tolerância dos polacos.

Durante as comemorações do Dia Nacional das Insurreições da Silésia, Nawrocki sublinhou que os polacos estão conscientes da luta da Ucrânia pela independência e da ameaça russa, mas as ações de Zelenskyy ultrapassaram o "limiar da dor" (fonte em francês).

Afirma que, ao longo do século XX, a Polónia foi livre apenas durante 31 anos e passou o resto do tempo a resistir ao domínio estrangeiro.

"Ou combatíamos as tropas soviéticas em 1920, ou sofríamos o totalitarismo alemão e soviético, ou lutávamos contra os colonialistas soviéticos de 1945 a 1989", declarou o presidente polaco.

"Sim, sabemos o que é a guerra, sabemos o que é a luta pela independência, sabemos o que são a ameaça pós-soviética e, hoje, a ameaça russa, mas somos uma nação polaca orgulhosa e temos o nosso próprio limiar de tolerância à dor nas questões que nos dizem respeito a nós e aos nossos aliados. E esse limiar da dor foi ultrapassado, por isso retirei ao presidente Zelenskyy a Ordem da Águia Branca".

Só a Rússia beneficiará

Muitos, de ambos os lados da fronteira entre os dois países, salientam que só o agressor pode beneficiar deste reacender das tensões históricas entre dois aliados‑chave que resistem à invasão de Moscovo na Ucrânia e à ameaça híbrida russa na Europa.

A Polónia tem sido um dos principais aliados da Ucrânia desde o início da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022, acolhendo centenas de milhares de refugiados e servindo de plataforma logística para a ajuda ocidental destinada a Kiev.

O ministro polaco dos Negócios Estrangeiros, Radosław Sikorski, afirmou estar convencido de que só a Rússia pode tirar proveito do conflito ucraniano‑polaco, tendo em conta o contexto histórico.

Sikorski partilhou o comentário do jornalista e cronista Witold Jurasz, do jornal Onet, que sublinhava que, ao retirar a Ordem da Águia Branca a Volodymyr Zelenskyy, Karol Nawrocki obteve, é certo, uma vitória moral, mas sofreu uma derrota – e, com ela, toda a Polónia.

O primeiro‑ministro polaco, Donald Tusk — cujo governo está em desacordo com Nawrocki — criticou a decisão de Zelenskyy, mas precisou que o líder ucraniano o assegurou de que não pretendia ofender os polacos. Apelou para que as duas nações não percam a sua solidariedade e não deixem que "a história arruíne o nosso futuro".

Por seu lado, o ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Andriy Sybiha, que anteriormente qualificara a decisão do presidente polaco de « erro estratégico... de que só a Rússia beneficiará », expressou a sua gratidão aos polacos que não apoiam a escalada das tensões com a Ucrânia e recordou a existência de um inimigo comum: a Rússia.

"Quero agradecer a todos os polacos que expressaram claramente a sua oposição à escalada das tensões com a Ucrânia. Apoiamos firmemente essa posição", assinalou na rede X.

Segundo o chefe da diplomacia ucraniana, essa posição dá a muitos ucranianos esperança num futuro melhor para as relações de boa vizinhança.

"Somos um povo sábio, sabemos sempre encontrar uma saída para situações difíceis. Une-nos uma história dolorosa, um futuro comum e a ameaça representada pelo nosso inimigo eterno: Moscovo", sublinhou o ministro.

E, de facto, responsáveis russos, que repetidamente invocaram a Segunda Guerra Mundial para justificar a invasão, afirmando que combatiam "neonazis" na Ucrânia, saudaram a decisão de Nawrocki.

"O presidente polaco destituiu finalmente (Zelenskyy) da Ordem da Águia Branca", declarou o antigo presidente russo Dmitri Medvedev, atual vice‑presidente do Conselho de Segurança russo.

Outras fontes • AFP, Ukraïnska Pravda

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