Presidente dos Estados Unidos lamentou a situação no enclave espanhol, após cerca de 60.000 pessoas atravessarem a fronteira nas últimas horas. É mais um desentendimento entre Madrid e Washington. Na UE saúda‑se que não se registam cruzamentos para a Península Ibérica.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou esta sexta-feira de “terrível” a crise migratória que está a afetar o enclave espanhol de Ceuta, depois de, nas últimas horas, cerca de 60 000 pessoas terem atravessado a fronteira de forma irregular a partir de Marrocos.
“É terrível”, considerou Trump em declarações ao canal “Fox News”. “Lembrem-se dessas imagens. Assim estaremos nós dentro de três anos se ganhar o lado errado”, acrescentou o mandatário, em referência às eleições intercalares que terão lugar em novembro nos EUA.
O republicano, que fez da luta contra a imigração uma das bandeiras da sua presidência, quis advertir os norte-americanos de que “não viverão muito bem” se os democratas recuperarem o controlo do Congresso.
Desde a Casa Branca, segundo reportam meios de comunicação locais, culpa-se “as políticas globalistas da extrema-esquerda” pela situação em Ceuta, onde mais de pessoas morreram, muitas delas ao tentarem atravessar a nado de Marrocos para a cidade autónoma.
Por sua vez, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, deslocou-se esta sexta-feira a Ceuta, de onde apontou “as máfias” que se dedicam ao tráfico de pessoas como responsáveis por uma atuação que, segundo disse, “merece o nosso repúdio e a nossa condenação ao mais enérgico nível possível”.
Desde a União Europeia, destaca-se que não estão a ser registadas passagens de migrantes de Ceuta para a Península Ibérica. “Não há movimentos migratórios em direção ao continente europeu”, declarou na sexta-feira um alto responsável da UE.
Novo motivo de discórdia
Este novo desencontro entre ambos os governos surge depois de, no passado dia 19 de julho, por ocasião da final do Mundial de Futebol em Nova Jérsia, Trump e Sánchez terem encenado uma aproximação após mais de dois anos de críticas mútuas.
As principais razões do confronto entre Washington e Madrid centram-se na despesa militar. Espanha continua longe do objetivo de 5% do PIB acordado em Haia, uma exigência da Casa Branca que Sánchez já rejeitou no ano passado, por a considerar “irracional e contraproducente”. Washington insiste em que os seus aliados devem assumir uma maior responsabilidade financeira e ameaçou abandonar a Aliança.
Musk ironiza com a situação
Por sua vez, Elon Musk reagiu no X à crise migratória de Ceuta com uma série de publicações. Numa primeira mensagem, comparou a situação na cidade autónoma com cenas do filme ‘Guerra Mundial Z’, em que uma multidão escala um muro, e escreveu: “Caramba, a situação em Espanha parece uma loucura!”.
Horas mais tarde, o magnata assegurou que essa primeira publicação era “uma brincadeira”, juntamente com um vídeo que mostrava a chegada de milhares de migrantes à costa de Ceuta e, em seguida, partilhou outro com imagens semelhantes dos Estados Unidos durante a presidência de Joe Biden. “Eram assim os Estados Unidos com Biden”, afirmou.
Posteriormente, Musk redobrou as críticas à política migratória do governo de Sánchez. O empresário advertiu, sem apresentar provas, que a imigração irregular “destruirá” o orçamento de Espanha e defendeu essa afirmação com o que qualificou de “raciocínio matemático básico”, em linha com as mensagens que tem dirigido recentemente contra o Executivo.
Por contraste, desde La Moncloa, assegura-se que a imigração continua a ser uma oportunidade económica, tanto para Espanha como para a União Europeia. Uma investigação do Banco de Espanha, publicada no ano passado, concluía que a população nascida no estrangeiro que trabalhava em Espanha tinha acrescentado entre 0,4 e 0,7 pontos percentuais ao PIB per capita espanhol, com uma média de 2,9% entre 2022 e 2024.