Os ataques da Ucrânia a instalações petrolíferas russas, que continuam em resposta à invasão russa, provocaram perturbações no abastecimento de combustível em todo o país. O setor agrícola da Federação Russa poderá sofrer graves prejuízos, segundo um especialista.
A crise de combustíveis sem precedentes na Rússia já está a tornar visíveis para os cidadãos comuns as consequências da invasão em grande escala da Ucrânia.
Os ataques da Ucrânia, que já duram há vários meses, têm provocado incêndios em refinarias, o que tem levado a perturbações no abastecimento de combustível em todo o país. Nos postos de combustível, as filas aumentam, assim como o descontentamento e a ansiedade.
Em muitas regiões foi introduzido racionamento de combustível; ao longo das estradas formam-se filas de automóveis que se prolongam por várias horas. Nas redes sociais circulam vídeos em que condutores manifestam choque perante as filas ou discutem por causa das bombas vazias e da subida dos preços.
Segundo Andrei, residente em Moscovo, a situação não é nada boa. "Na televisão dizem uma coisa e, na realidade, é outra... As pessoas estão em filas por todo o lado", afirma.
Outro habitante da capital russa, Maxim, conta que tem de esperar nas filas porque falta gasolina. "Um país que extrai petróleo e não tem gasolina. Como é isto sequer possível?", indigna-se.
Putin admite escassez de combustível
No final de junho, relatos sobre a introdução de diferentes restrições à venda de combustível chegaram de mais de metade das regiões russas. Em algumas unidades federativas, as autoridades fixaram limites rígidos para todas as estações de serviço; noutras, as próprias redes de postos introduziram limitações aos volumes de combustível vendidos.
Responsáveis explicaram a situação com uma procura exacerbada e apelaram aos automobilistas para abastecerem apenas quando necessário. A exportação de gasolina e combustível de aviação foi limitada; chegou a ser analisada a possibilidade de proibir a exportação de gasóleo.
A escassez alastrou também às regiões remotas da Rússia, onde não foram registados ataques de drones ucranianos contra refinarias.
A situação obrigou o presidente Vladimir Putin a um raro reconhecimento: admitiu que "os ataques contra as nossas instalações, sem dúvida, criam problemas" e que "neste momento observamos uma certa escassez". Putin insiste, porém, que a falta de combustível não é crítica.
Escassez de gasolina e gasóleo afeta setor agrícola
Segundo Chris Weafer, diretor-geral da empresa de consultoria Macro-Advisory Ltd, cerca de um terço da capacidade russa de refinação foi posta fora de serviço. Como o Estado não publica estes dados, a sua estimativa assenta em informação dispersa e em fontes do setor petrolífero.
Chris Weafer sublinha que a crise de combustíveis "ocorre num momento crítico para a economia russa, uma vez que a época agrícola — e sobretudo o período de colheitas — está agora a ganhar ritmo". Nesta altura do ano, o setor agrícola regista de qualquer forma "uma elevada procura de gasóleo".
Recuperar as refinarias danificadas pela guerra é uma tarefa complexa. Os ataques ucranianos inutilizam equipamento especializado, muitas vezes de origem importada, o que torna a reparação num processo longo e dispendioso, já que a procura de soluções alternativas ou de peças sobresselentes tem de contornar as sanções.
Segundo o analista Weafer, a reparação da refinaria de Moscovo, que assegurava 40% das necessidades de combustível da cidade e da região adjacente, vai demorar pelo menos três meses.
Volume de refinação de crude cai
De acordo com a Associated Press, o volume de refinação de crude em combustível na Rússia em junho diminuiu 25% face ao mesmo período do ano passado, para 3,95 milhões de barris por dia, o nível mais baixo em mais de duas décadas.
A produção de gasolina caiu 17%, para 850 mil barris por dia (face a 1,03 milhões de barris um ano antes), valor significativamente abaixo das necessidades do mercado interno. Apesar disso, a Rússia exporta volumes relativamente reduzidos de gasolina.
Ucrânia: "Respostas sancionatórias ao prolongamento da guerra pela Rússia"
Segundo cálculos da AP, desde abril foram registados mais de 40 ataques da Ucrânia contra refinarias, depósitos de combustível, terminais e outros elementos da infraestrutura petrolífera na Rússia e na península da Crimeia anexada.
Responsáveis ucranianos descrevem estes ataques como uma campanha destinada a obrigar Moscovo a pôr fim à guerra, minando a logística militar e as linhas de abastecimento, e enfraquecendo a capacidade das forças russas para conduzirem operações ofensivas na frente.
Na quarta-feira, as Forças de Defesa da Ucrânia voltaram a atingir a refinaria de Ufa. O anúncio foi feito pelo presidente Volodymyr Zelenskyy.
"Já pela segunda vez as nossas respostas sancionatórias ao prolongamento da guerra pela Rússia chegaram à refinaria de Ufa, um dos maiores produtores russos de óleos lubrificantes. A distância é de mais de 1300 quilómetros da linha da frente".
"Todos os dias é cumprido o nosso plano de aplicação das sanções ucranianas de longo alcance. É uma resposta absolutamente justa a tudo o que a Rússia faz contra nós. É preciso paz, e é isso que a liderança russa tem de compreender. A Rússia tem de terminar a sua guerra. E todas as possibilidades para isso estão nas mãos da liderança russa", escreveu Zelenskyy no Telegram.