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Fast Fashion: 69% da nossa roupa contém químicos tóxicos

Uma pilha de roupa
Uma pilha de roupa Direitos de autor  Canva
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De Leticia Batista Cabanas
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A União Europeia aplica um novo imposto às importações, para travar compras em plataformas de fast fashion como a SHEIN e a Temu. Testes revelam que muitas destas peças baratas escondem riscos tóxicos para a saúde humana.

A UE compra cerca de 4,5 milhões de toneladas de têxteis de fast fashion por ano. Todos os dias entram no bloco mais de 5,8 milhões de encomendas de baixo valor de comércio eletrónico, com marcas como a Shein, a Temu e a AliExpress a atraírem mais de 400 milhões de clientes por mês.

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Mais de 90% destas peças de vestuário vendidas online são feitas de polímeros sintéticos baratos, como poliéster, elastano e nylon. Na prática, são plásticos flexíveis que não são biodegradáveis e acabam por se transformar em microplásticos.

Até agora, estes produtos eram enviados diretamente das fábricas no estrangeiro para os consumidores, contornando os controlos da UE sobre substâncias e componentes perigosos. A nova diretiva aduaneira europeia vai exigir dados de rastreio eletrónico para todas as encomendas que entrem no espaço comunitário. As autoridades fronteiriças passam a poder avaliar os envios quanto a níveis ilegais de químicos e violações de segurança antes de chegarem à Europa.

Segundo Pelle Moos, especialista em substâncias químicas e responsável de políticas no grupo de consumidores BEUC, "a cada segundo entram cerca de 200 produtos na UE. Enquanto estamos a ter esta conversa, quase mil produtos terão entrado na Europa e apenas uma fração terá sido inspecionada".

As autoridades e as organizações de consumidores encontram repetidamente aquilo que Moos descreve como níveis «astronómicos» de incumprimento quando analisam produtos vendidos através de canais de moda ultrarrápida.

"Estamos a falar de valores entre 70% e 80%", afirmou.

As notificações sobre substâncias químicas em têxteis e moda aumentaram de forma acentuada, com dezenas de alertas internacionais enviados todos os anos para o Sistema de Alerta Rápida da UE. Mais de 72% destes alertas oficiais relativos a têxteis apontam para riscos diretos para a saúde humana, incluindo reações alérgicas graves, queimaduras químicas causadas por excesso de formaldeído e possíveis danos em órgãos provocados por metais pesados.

A organização de consumidores Testachats também analisou brinquedos da Shein e encontrou resultados preocupantes.

"Só um estava totalmente em conformidade. É importante sublinhar que não selecionámos especificamente produtos que parecessem perigosos no site. Escolhemos aleatoriamente 45 brinquedos. Cerca de 60% apresentavam um risco real para a segurança, incluindo peças pequenas que podiam ser engolidas ou componentes eletrónicos que não estavam devidamente protegidos", afirmou a porta-voz Laura Clays.

Têxteis tóxicos

"É mesmo do pior que estamos a ver", disse Moos. "São substâncias químicas que há décadas sabemos ser prejudiciais. Compostos que podem causar cancro, infertilidade, problemas de desenvolvimento em crianças e que permanecem no ambiente".

Um relatório laboratorial de 2025, publicado pela Greenpeace, concluiu que 32% dos produtos da Shein testados ultrapassavam os limites do regulamento europeu REACH (Registo, Avaliação, Autorização e Restrição de Substâncias Químicas).

Uma investigação da BEUC de junho de 2025 alertou para «bombas químicas» em muitos produtos para crianças. Dez dos 25 artigos testados continham substâncias perigosas, incluindo aquilo que os investigadores descrevem como uma «bomba»: um par de chinelos infantis.

O calor corporal e a transpiração funcionam como solventes naturais, permitindo que substâncias restritas migrem das roupas para a pele. As pessoas também inalam fibras têxteis e químicos libertados pelos tecidos, enquanto as crianças pequenas costumam morder a roupa. Calor, suor, uso prolongado e pele danificada podem aumentar a absorção.

Entre 56 peças de vestuário analisadas, a Greenpeace encontrou concentrações de ftalatos até 200 vezes superiores ao limite da UE. PFAS, os chamados "químicos eternos", foram detetados em sete casacos, alguns a exceder os limites europeus em mais de 3000 vezes. Os investigadores também identificaram chumbo e cádmio em calçado, formaldeído num disfarce infantil e etoxilatos de nonilfenol num impermeável. A BEUC relatou resultados semelhantes, enquanto o grupo dinamarquês de consumidores Forbrugerrådet Tænk encontrou PFAS restritos em vários casacos de exterior.

Que efeitos têm estes químicos

Os nomes são complexos, mas os efeitos potenciais são claros:

  • Ftalatos (incluindo DEHP e DBP): substâncias que tornam os plásticos mais flexíveis, associadas a perturbações hormonais, redução da fertilidade e problemas de desenvolvimento em crianças.
  • PFAS («químicos eternos»): compostos persistentes que se acumulam no organismo e têm sido associados à supressão do sistema imunitário, danos em órgãos e alguns tipos de cancro.
  • Formaldeído: usado para tornar as roupas resistentes aos vincos; a exposição pode causar irritação, reações alérgicas e aumentar o risco de cancro em caso de exposição prolongada.
  • Etoxilatos de nonilfenol (NPE/APEOs): substâncias que interferem com o sistema endocrino e estão ligadas a problemas reprodutivos e de desenvolvimento.
  • Aminas aromáticas: subprodutos de alguns corantes que incluem carcinogéneos conhecidos e suspeitos.
  • Dimetilformamida (DMF) e compostos orgânicos voláteis relacionados: solventes industriais associados a toxicidade hepática, efeitos nocivos na reprodução e irritação respiratória.

"Os ftalatos são usados para tornar os plásticos e materiais sintéticos mais maleáveis, os PFAS são acrescentados para impermeabilizar os tecidos, o formaldeído serve para manter a roupa sem vincos e protegê-la durante o transporte, e o cádmio pode ser adicionado a bijuteria barata para lhe dar mais peso. Outras substâncias, como o chumbo, muitas vezes não são usadas de forma intencional, mas podem surgir devido a fracos controlos de fabrico e à contaminação", explicou Moos.

Metais pesados

O membro polaco da BEUC, a Federacja Konsumentów, testou roupa, roupa interior e bijuteria da Shein. Mais de 50% dos produtos analisados continham níveis inseguros de metais pesados.

Um deles, o chumbo, é uma neurotoxina que se pode acumular no organismo e tem sido associado a défices no desenvolvimento cerebral, dificuldades de aprendizagem, problemas de comportamento, danos nos rins e efeitos negativos na reprodução, sobretudo em crianças.

O cádmio é classificado como carcinogéneo e tem sido associado a danos nos rins, fígado, pulmões, sistema cardiovascular e sistema nervoso, bem como a redução da fertilidade e efeitos adversos no desenvolvimento fetal.

"O chumbo é uma neurotoxina e não existe um nível seguro de exposição», afirmou Moos. «A Europa passou décadas a tentar retirar o chumbo do quotidiano, e mesmo assim continuamos a encontrá-lo em produtos de consumo".

O panorama geral da segurança continua a ser preocupante. As auditorias da BEUC a mercados transfronteiriços concluíram que 69% dos produtos avaliados, incluindo vestuário, acessórios e brinquedos que entram na UE através de plataformas como a Shein e a Temu, não cumprem a legislação e falham normas europeias básicas de segurança e de saúde.

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