Fluxos comerciais, investimento, isenções e tarifas: em que ponto está hoje o difícil acordo comercial UE-EUA.
Há um ano, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, firmaram um acordo comercial em Turnberry, na Escócia, apertando as mãos sob os holofotes dos media internacionais após semanas de disputas comerciais.
Defendido pela Comissão como o melhor entendimento possível, o acordo fixou tarifas norte-americanas de 15 por cento sobre as importações provenientes da UE, enquanto a União se comprometeu a eliminar os seus direitos sobre a maioria dos produtos industriais dos EUA.
Os europeus prometeram ainda investir 520 mil milhões de euros nos Estados Unidos e comprar até 2028 700 mil milhões de euros em energia norte-americana, incluindo gás natural liquefeito (GNL), petróleo e produtos ligados à energia nuclear.
O acordo de Turnberry deveria pôr fim à disputa. Acabou, porém, por abrir um novo capítulo.
Ao longo do último ano, Trump ameaçou repetidamente a UE com novas tarifas, atrasando a aplicação do acordo do lado europeu, onde os legisladores congelaram a sua ratificação. Após negociações entre os colegisladores da União, o bloco acabou por suprimir as suas tarifas a 1 de julho.
Do lado norte-americano, o processo não foi mais simples. A Casa Branca teve de adotar novas tarifas depois de o Supremo Tribunal dos Estados Unidos ter decidido, em fevereiro de 2026, que os direitos impostos aos parceiros comerciais em 2025 eram ilegais.
As novas tarifas, introduzidas com outra base jurídica, expiram no fim desta semana, a 24 de julho, salvo decisão do Congresso para as prolongar, cenário considerado pouco provável com as eleições intercalares a aproximarem-se.
No primeiro aniversário do acordo de Turnberry, ficam quatro pontos sobre o estado das relações comerciais transatlânticas.
1. Estados Unidos: comércio com a UE cresce em 2025
Apesar da guerra de tarifas, o comércio transatlântico não encolheu. Pelo contrário: as trocas de bens e serviços entre UE e Estados Unidos aumentaram 4,5 por cento, para 1,8 biliões de euros em 2025, à medida que as empresas anteciparam envios antes das tarifas de Trump, compensando a desaceleração mais tarde nesse ano.
Desde janeiro de 2025, os importadores norte-americanos tiveram de pagar cerca de 31 mil milhões de euros em direitos adicionais, contra 7 mil milhões nos anos anteriores às tarifas.
Na sequência da decisão do Supremo, porém, parte desses montantes já foi reembolsada. Dados norte-americanos divulgados em meados de julho indicam que 81 mil milhões de dólares foram devolvidos por tarifas aplicadas globalmente aos parceiros comerciais do país.
2. Europa cumpre metas de investimento
Segundo a Comissão Europeia, a União Europeia vai cumprir a promessa de investir fortemente nos Estados Unidos. No início de 2025, Bruxelas indicou que empresas da UE tinham anunciado 242 mil milhões de euros em investimentos em vários sectores norte-americanos, incluindo automóvel, tecnologias de informação, químicos e alimentação.
Quanto aos investimentos em energia, um alto responsável da UE afirmou que a meta dos 700 mil milhões de euros será ultrapassada. A Comissão referiu que, só em 2025, compradores europeus importaram produtos energéticos e assinaram contratos no valor de mais de 250 mil milhões de dólares.
Com o rebentar da guerra no Irão e a redução gradual das compras de gás russo pela UE, as aquisições de GNL e petróleo norte-americano atingiram níveis recorde. Novos projetos nucleares serão igualmente desenvolvidos em cooperação com parceiros dos Estados Unidos.
3. Negociações prosseguem sobre isenções, aço e alumínio
A saga comercial entre UE e Estados Unidos está longe de terminar. Bruxelas e Washington iniciaram negociações sobre novas isenções de tarifas para produtos europeus. O acordo de Turnberry previa essas discussões futuras, mas a Casa Branca queria que a UE cumprisse primeiro a sua parte antes de abrir conversações.
No outono passado, a Comissão, em conjunto com empresas europeias, elaborou uma lista de centenas de produtos para os quais espera restaurar os níveis de tarifas anteriormente aplicados. A lista, recentemente enviada ao lado norte-americano, abrange cerca de 150 mil milhões de euros em exportações da UE e inclui produtos emblemáticos como Roquefort, azeite, vinhos e espirituosas.
Os europeus esperam também avançar em matéria de aço e alumínio. Os Estados Unidos continuam a aplicar tarifas de 50 por cento às importações provenientes de parceiros comerciais em todo o mundo. A Comissão antecipa, porém, negociações difíceis, dado que a Casa Branca quer repatriar produção para o país e, ao mesmo tempo, lidar com a enorme sobrecapacidade chinesa.
4. Estados Unidos preparam novas tarifas
Após a decisão do Supremo, a Casa Branca teve de recorrer a uma nova base jurídica para aplicar tarifas que atingem o teto de 15 por cento fixado pelo acordo de Turnberry. Essas tarifas expiram, porém, na sexta-feira, e os Estados Unidos já procuram novas formas de impor direitos adicionais.
Responsáveis europeus esperam, por isso, que a Casa Branca venha a introduzir novas tarifas dirigidas ao trabalho forçado e à sobrecapacidade, na sequência de investigações abertas ao abrigo da Secção 301 da Lei do Comércio de 1974. As tarifas relacionadas com trabalho forçado já foram anunciadas e deverão ser as primeiras, apesar de a UE argumentar que já dispõe de legislação que proíbe o trabalho forçado.
“Claro que não concordamos com as conclusões sobre trabalho forçado e isso foi claramente transmitido aos nossos homólogos norte-americanos”, afirmou um alto responsável da UE. “Mas o objetivo principal é garantir que o acordo é respeitado e que as nossas empresas podem beneficiar da estabilidade e previsibilidade que ali foram definidas.”
Assim, desde que essas futuras tarifas não ultrapassem o limite de 15 por cento, a UE não irá contestá-las.
A Comissão acompanha igualmente de perto uma investigação norte-americana aos preços dos medicamentos na Alemanha ao abrigo da Secção 301, que poderá também resultar em tarifas punitivas se o Departamento de Comércio dos EUA concluir que “o subpagamento persistente pela Alemanha de produtos farmacêuticos inovadores é injustificado ou discriminatório e constitui um entrave ou restrição ao comércio dos Estados Unidos”.