“Não quero mais conferências fracassadas”, afirmou o secretário-geral da ONU, sublinhando que o formato 5+1 exige avanços nas medidas de confiança, metodologia e na substância da questão cipriota
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, vai convocar uma nova reunião informal alargada sobre a questão cipriota, em formato 5+1 (ou seja, com a participação das duas partes de Chipre, das três potências garantes, Grécia, Turquia e Reino Unido, e das Nações Unidas), sem contudo indicar quando vai decorrer.
Guterres estabeleceu como condição uma preparação adequada em três áreas: Medidas de Fomento da Confiança, metodologia do processo e na substância da questão cipriota. Sublinhou ainda que devem ser tidas em conta as convergências já alcançadas.
O anúncio foi feito após a reunião conjunta, na quarta-feira, no aeroporto de Nicósia, com o presidente da República de Chipre, Nikos Christodoulides, e o líder turco-cipriota, Tufan Erhürman.
“Com base nas nossas discussões sobre o caminho a seguir, decidi convocar mais uma reunião 5+1, após uma preparação adequada das Medidas de Fomento da Confiança, na metodologia e na substância, tendo em conta as convergências já alcançadas”, declarou o secretário-geral.
Acrescentou que as Nações Unidas vão trabalhar em coordenação com as duas partes e com as três potências garantes, de modo a criar as condições para o sucesso da reunião.
Guterres: “Não quero mais reuniões sem resultados”
Questionado sobre o calendário da nova reunião alargada, António Guterres disse que assegurou o consenso tanto das duas partes como das potências garantes, mas insistiu na necessidade de uma preparação substancial.
“Tenho o consenso de ambas as partes e das potências garantes para avançarmos para uma reunião 5+1, mas com preparação suficiente. Preparação das Medidas de Fomento da Confiança, na metodologia e na substância, porque não quero que haja mais reuniões 5+1 sem resultados”, disse.
“Quero uma reunião 5+1 bem-sucedida, que abra caminho à obtenção de uma solução”, acrescentou.
O secretário-geral precisou que não foi definido qualquer prazo para a sua realização. “Não foi fixado um calendário. Trabalharemos em conjunto o mais rápida e eficazmente possível”, referiu.
Excluiu também a hipótese de se realizar uma reunião sobre a questão cipriota durante a Semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU, em setembro.
“Não está prevista qualquer reunião sobre a questão cipriota durante a Semana de Alto Nível. Concentramos agora os nossos esforços no trabalho conjunto com as duas partes em Chipre e com as potências garantes”, afirmou.
Contactos antes da reunião a três
A reunião conjunta de quarta-feira constituiu o ponto alto de uma série de contactos de António Guterres durante a primeira visita a Chipre enquanto secretário-geral da ONU.
Na terça-feira, manteve encontros separados sucessivos com Nikos Christodoulides e Tufan Erhürman. Mais tarde, depositou uma coroa de flores no memorial dos capacetes azuis mortos em serviço, junto ao hotel Ledra Palace, e visitou o Laboratório Antropológico do Comité para as Pessoas Desaparecidas.
No âmbito da visita, reuniu-se também com os negociadores das duas partes, com os responsáveis das Comissões Técnicas bicomunitárias e com representantes da sociedade civil.
Os contactos de terça-feira terminaram com um jantar conjunto do secretário-geral com os dois líderes.
Após o jantar, Nikos Christodoulides descreveu a conversa como “abrangente”, cobrindo a substância da questão cipriota, a metodologia que poderia ser seguida, as convergências alcançadas até agora, a possibilidade de uma nova reunião alargada e as Medidas de Fomento da Confiança.
O presidente da República de Chipre reconheceu que continuam a existir divergências entre as duas partes, mas qualificou a discussão como “sincera e aberta” e expressou a expectativa de que a visita do secretário-geral possa conduzir a anúncios concretos.
Referiu ainda que o objetivo da parte greco-cipriota continua a ser a retoma de negociações substanciais e anunciou uma próxima visita a Chipre do enviado especial da União Europeia para a questão cipriota, Raffaele Fitto.
Apelo a Medidas de Fomento da Confiança
Nas declarações finais, António Guterres apelou aos dois líderes para que intensifiquem os esforços de definição e aplicação de Medidas de Fomento da Confiança com impacto prático no quotidiano dos cipriotas.
“Este é o momento em que devem ser feitos todos os esforços para restaurar a confiança”, afirmou.
Acrescentou que tanto Nikos Christodoulides como Tufan Erhürman o asseguraram da sua determinação em continuar a colaborar de forma substancial com a sua enviada pessoal, María Ángela Holguín.
O secretário-geral qualificou como “sinceras e construtivas” as conversas separadas e conjuntas com os dois líderes e referiu que, nos contactos com cidadãos de ambas as comunidades, recebeu um pedido claro de progresso, compromissos e conclusão do esforço para resolver a questão cipriota.
Respeitar o mandato da UNFICYP
António Guterres sublinhou a necessidade de respeitar o mandato e a autoridade da Força das Nações Unidas em Chipre (UNFICYP), tanto dentro da zona-tampão como ao longo das linhas de cessar-fogo estabelecidas pela ONU.
Indicou que a UNFICYP contribui há mais de seis décadas para a manutenção da calma e da estabilidade e que a sua eficácia depende da cooperação de todas as partes.
Referiu-se também ao trabalho do Comité para as Pessoas Desaparecidas e das comissões técnicas bicomunitárias, salientando que oferecem soluções práticas e ligam o processo político ao dia a dia dos cidadãos.
No encerramento, o secretário-geral destacou que uma solução para a questão cipriota não diz respeito apenas à paz e aos interesses dos cipriotas, podendo igualmente funcionar como fator de estabilidade numa região confrontada com conflitos persistentes e riscos geopolíticos crescentes.
“As Nações Unidas não podem impor a paz”, afirmou. “Mantêm-se, no entanto, totalmente empenhadas em apoiar o povo de Chipre neste momento crucial para a ilha e para a região em geral”.