Ataques de migrantes à enclave norte-africana de Espanha desencadeiam críticas da direita à regularização maciça do governo Sánchez, enquanto a esquerda as acusa de propaganda oportunista.
Figuras da direita europeia atribuem a escalada no enclave de Ceuta à política de naturalização de Espanha, numas críticas que os partidos de esquerda classificam como ataques oportunistas.
Na quinta-feira, milhares de migrantes invadiram o enclave espanhol de Ceuta, levando o Ministério do Interior de Espanha a declarar o estado de emergência nacional e a mobilizar tropas para repor a ordem na cidade autónoma.
Figuras de destaque da direita e da centro-direita em toda a Europa aproveitaram a escalada para acusar Madrid de perder o controlo da sua fronteira e responsabilizar a regularização extraordinária, por Espanha, de centenas de milhares de migrantes pelas passagens ilegais em massa.
“Situação chocante na fronteira espanhola. As imagens devastadoras são a consequência direta do efeito de atração de uma regularização massiva, combinado com a instrumentalização da migração ilegal”, escreveu Manfred Weber, líder do Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, na rede X.
Ataques da direita
O “efeito de atração” é a ideia de que condições generosas de acolhimento e outras políticas migratórias tornam um país de destino mais atrativo, incentivando mais chegadas. Neste caso, sugere-se que Espanha alimentou expectativas de futuras regularizações.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, do partido de extrema-direita Fratelli d'Italia, chegou a propor a suspensão do espaço Schengen com Espanha e anunciou medidas extraordinárias para defender a fronteira italiana.
“Na imigração ilegal, não cederemos um milímetro: defender as fronteiras, travar os traficantes de pessoas e garantir repatriamentos eficazes continuará a ser a linha deste Governo”, escreveu Meloni na rede X.
O chamado efeito de atração não é um fenómeno cientificamente comprovado. O consenso académico indica que as migrações são impulsionadas sobretudo por fatores de “expulsão”, como a guerra e a repressão política, enquanto os fatores de atração tendem a resultar de perspetivas de emprego e de proteção social.
Com a maioria dos países da UE a desviar-se para a direita, Espanha contrariou a tendência com um programa de regularização em larga escala, que atraiu mais de 1 milhão de candidatos — e a ira dos políticos de direita.
“As imagens que chegam de Ceuta mostram como a decisão do Governo de Madrid de conceder cidadania espanhola — e, portanto, europeia — a mais de 500 000 imigrantes irregulares é profundamente errada e incentiva o tráfico de seres humanos”, escreveu na rede X o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani.
Políticos de direita noutros Estados-membros defendem que Espanha tem a responsabilidade de proteger as fronteiras externas da Europa, já que os fluxos migratórios resultantes acabam por se repercutir nos países de destino.
“As autoridades espanholas registaram até agora 50 000 passagens ilegais de fronteira em Ceuta, sendo a Alemanha provavelmente o destino da maioria destes migrantes”, escreveu na rede X Alice Weidel, líder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha. “A Alemanha deve preparar-se: as fronteiras têm de ser protegidas e as rejeições rigorosamente aplicadas.”
Jordan Bardella, líder da direita radical francesa e presidente do grupo Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu, enviou na sexta-feira uma carta, a que a Euronews teve acesso, pedindo à presidente Roberta Metsola “a realização de um debate urgente sobre a evolução da situação em Ceuta e sobre o fracasso das políticas migratórias da União Europeia”.
Esquerda reage
Para políticos de esquerda em Espanha e noutros países, estes ataques são oportunistas. A crise de Ceuta, afirmam, limitou-se a dar aos críticos um pretexto para atacar a única alternativa ainda existente na Europa às políticas migratórias da direita.
“Na Europa, prevaleceram posições de direita que retratam os migrantes como uma ameaça”, afirmou o eurodeputado Juan Fernando López Aguilar (Espanha/S&D), antigo ministro da Justiça no governo de Zapatero.
“O que significa que a abordagem humanitária, característica dos governos liderados pela esquerda, como é o caso do executivo espanhol chefiado por Pedro Sánchez, não está apenas a ser marginalizada, está cada vez mais isolada”, acrescentou López Aguilar.
Especialistas como Haizam Amirah Fernández, diretor do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos, sublinham que o atual afluxo de migrantes irregulares a Ceuta dificilmente teria ocorrido sem a aprovação tácita das autoridades marroquinas.
Outra explicação aponta para traficantes de seres humanos que aproveitam um acórdão do Supremo Tribunal espanhol, segundo o qual as devoluções sumárias não podem ser aplicadas a migrantes intercetados no mar enquanto nadam para Ceuta ou Melilla, ao contrário do que sucede com os que trepam a vedação fronteiriça.
As autoridades espanholas afirmam que a recente regularização se aplicou apenas a pessoas que já se encontravam em território espanhol seis meses antes da abertura das candidaturas, pelo que as novas chegadas não beneficiam da medida.
Para a eurodeputada Cecilia Strada (Itália/S&D), os ataques que vão do centro à extrema-direita revelam uma intenção clara de visar Espanha, já que o governo de Sánchez demonstrou ser possível ter uma liderança progressista credível, capaz de gerir os fluxos migratórios atacando as suas causas e não apenas os seus efeitos.
“Isto é propaganda da direita no seu pior. Face a uma emergência humanitária com dezenas de mortos e um número desconhecido de desaparecidos, seria de esperar solidariedade europeia e não ataques instrumentais com vista ao proveito político”, afirmou Strada à Euronews.
Vincenzo Genovese colaborou neste artigo.