O Dia Mundial do Cancro do Pulmão chama a atenção para a doença oncológica com mais incidência na União Europeia. Mas a probabilidade de adoecer e de sobreviver varia conforme o país e a região.
“A primeira coisa que eu pensei foi que não me dava jeito nenhum morrer agora”. Foi assim que José Manuel Guedes reagiu à notícia de que uma pequena mancha num pulmão poderia ser cancro.
Este empresário do Porto não tinha qualquer dor, nem sintoma, para além do risco de ser fumador. A doença foi diagnosticada depois de uns exames de rotina, que fez depois das férias de verão.
“Vi aquilo como um problema que podia implicar, digamos, uma morte mais cedo do que poderia pensar”, diz, acrescentando que, no seu espírito prático de empresário, encarou o diagnóstico como mais um problema inesperado que tinha de ser resolvido rapidamente.
Cinco dias depois estava a ser operado.
Mais casos no leste e no sul da Europa
Este sábado é o Dia Mundial do Cancro do Pulmão, uma data que mostra que a doença de José não é uma exceção. É uma das doenças oncológicas mais comuns na população portuguesa e também a mais mortal. Em 2024, foram diagnosticados mais de seis mil casos no país e morreram mais de 5.500 doentes.
É também o cancro com maior incidência na União Europeia, quando se consideram os dois sexos. Dos 2,7 milhões de novos casos de cancro diagnosticados em 2024, 20% eram cancros do pulmão nos homens e 12% nas mulheres.
Mas a incidência não é igual em todos os países europeus, sendo mais prevalente no leste e no sul do continente.
“São os países onde habitualmente o consumo de tabaco era mais elevado”, explica Ana Varges Gomes, médica cardiologista e líder da comunicação da Rede Europeia de Centros Oncológicos Integrados (EUnetCCC).
“Os hábitos de tabaco dos nórdicos há muito que são muito mais reduzidos do que os nossos”, acrescenta.
O tabaco é o principal fator de risco e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é responsável por 60% a 70% dos casos.
Mas há outros fatores que explicam estas diferenças entre países. É o caso do setor da mineração, que tem grande importância no leste da Europa, e também a prevalência de amianto nos edifícios.
“Apesar de haver uma diretiva comunitária, há países que começaram agora a substituir os amiantos um bocadinho mais tarde, nomeadamente na zona dos países do leste e alguns países também do sul da Europa, entre os quais Portugal”, explica Ana Varges Gomes.
Cigarros eletrónicos com restrições diferentes
Os cigarros eletrónicos também são considerados um fator de risco, mas cuja restrição está a acontecer a diferentes velocidades.
“A nível europeu, há outros países um bocadinho menos restritivos”, diz Ana Varges Gomes, sublinhando que o caminho é a proibição da publicidade destes novos produtos, o que já existe em alguns países. Neste momento, a Comissão Europeia está a rever as diretivas sobre o tabaco.
“Os cigarros eletrónicos não têm assim tanto tempo. E a realidade é que não nos parece que o facto de as pessoas passarem a fumar cigarros eletrónicos tenha diminuído drasticamente o número de cancros no pulmão”, diz Ana Varges Gomes.
O grande problema é que ainda não se sabe exatamente os efeitos deste tabaco. Quando surgirem os primeiros estudos mais fiáveis, em 2040, já pode ser demasiado tarde para alguns utilizadores.
“Acho que devemos ter dados mais seguros em 2040”, explica Ana Varges Gomes. “Então está a ver o tempo que nós já temos de consumo deste tipo de tabaco.”
Também José Manuel Guedes começou a fumar jovem, antes dos 20 anos. Gastava um maço de tabaco por dia. Foi preciso esperar mais de 30 anos para a doença surgir.
“Era informado, sabia uma das potenciais causas do cancro do pulmão, que é o tabaco, etc.”, diz o empresário. “Mas, infelizmente, eu, como muitos, não é isso que nos faz parar.”
A operação, em que foi retirada uma parte do pulmão, foi feita numa clínica privada. Seguiu-se a quimioterapia no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto. Esta última fase foi “uma coisa pesada” com “um impacto muito grande”.
Hoje, cinco anos depois do diagnóstico, o cancro não voltou a aparecer. Mesmo assim, de três em três meses, José volta ao IPO do Porto para exames de despistagem.
Mais mortes na Polónia do que na Alemanha
Para quem tem a doença, as taxas de sobrevivência também variam entre países, sobretudo entre os homens. Em 2024, na Polónia, houve mais 4.745 mortes do que o esperado entre os doentes homens. Na Alemanha, registou-se o fenómeno contrário: menos 4.490 mortes do que se esperava.
Ana Varges Gomes explica que nem todos os países têm acesso aos melhores cuidados de saúde. Essas diferenças começam pelo rastreio, numa doença em que a deteção precoce faz muita diferença, e estendem-se ao acesso a consultas e a exames.
“Temos, por exemplo, países em que há programas de rastreio do cancro do pulmão já implementados. Temos países que estão a começar agora”, diz a médica oncologista.
“Por exemplo, Portugal está a dar os primeiros passos agora. E logo aqui temos uma diferença ao nível do rastreio, vamos identificar os casos mais tarde.”
A Rede Europeia de Centros Oncológicos Integrados (EUnetCCC), de que Ana Varges Gomes é líder da Comunicação, está a tentar contirbuir para resolver estas assimetrias entre países, mas também entre regiões. O projeto certifica centros integrados que trabalham em rede e encaminham os doentes.
“Para que o doente - entre ele no Algarve, num Alentejo ou em Lisboa - tenha o mesmo tratamento, o mesmo tempo de diagnóstico, o mesmo tempo até começar a fazer o seu tratamento do que teria em qualquer outro sítio”, diz a médica, dando o exemplo português.
“Já não é uma sentença de morte”
No caso de José, o diagnóstico precoce foi essencial. Até porque se tratava de cancro de pulmão de pequenas células, um tipo de cancro mais raro (10 a 15% dos casos) e mais agressivo do que os comuns.
“O que me disseram foi: isto está aqui há um mês, um mês e tal, se tivesse mais de três ou quatro meses, provavelmente já não haveria muito a fazer”, diz o empresário, lembrando a sorte de ter marcado os exames para a data correta.
“Dentro do azar, não é, ter um cancro não é uma coisa boa, eu considero que tive muita sorte. Primeiro por descobrir muito cedo e depois pela rapidez e a forma com que me mexi, ter solução.”
Neste dia Mundial do Cancro do Pulmão, a Liga Portuguesa Contra o Cancro sublinha que apesar de este ser a doença oncológica mais comum, também é a mais evitável. Uma perspetiva que mostra a importância da prevenção e do acompanhamento médico.
Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostra que em Portugal 46% das mortes por cancro consideradas evitáveis correspondem ao cancro do pulmão, seguidas pelo cancro do estômago.
“Nos cancros, não foi o caso do meu, as coisas têm sido muito dinâmicas nos últimos anos já há mais soluções”, remata José, sublinhando a importância de manter uma atitude positiva.
“O cancro já não é uma sentença de morte tão grande como era há alguns anos."