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Por que razão Moscovo continua a ter um papel no projeto europeu de fusão ITER, apesar das sanções da UE

Técnicos trabalham na linha de montagem da bobina de campo poloidal no ITER, em Saint-Paul-lez-Durance, sul de França, a 28 de julho de 2020
Técnicos trabalham na linha de montagem da bobina de campo poloidal no ITER, em Saint-Paul-lez-Durance, sul de França, 28 de julho de 2020. Direitos de autor  AP Photo / Daniel Cole
Direitos de autor AP Photo / Daniel Cole
De Marta Pacheco & Maïa de la Baume
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Tensões UE-Rússia chocam com décadas de cooperação científica no ITER, o maior projeto de fusão nuclear. Fusão torna-se prioridade estratégica e Bruxelas questiona a dependência de tecnologia e conhecimento russos.

União Europeia e Rússia são adversários geopolíticos, com a Rússia sujeita a amplas sanções da UE e com os seus laços com o bloco severamente reduzidos.

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Mas, no seio de uma das maiores colaborações científicas internacionais da história – e da maior experiência de fusão nuclear do mundo –, os dois continuam ligados por uma parceria forjada há décadas e concebida para durar gerações.

Num momento em que Bruxelas aumenta a pressão sobre Moscovo pela sua guerra na Ucrânia e pelos ataques híbridos, engenheiros russos e europeus continuam a trabalhar lado a lado num projeto internacional denominado “International Thermonuclear Experimental Reactor” (ITER), uma máquina experimental de fusão nuclear que procura aproveitar a fusão de núcleos de hidrogénio para gerar grandes quantidades de energia.

Na segunda‑feira passada, o comissário europeu da Energia, Dan Jørgensen, visitou o ITER, em Cadarache, França, e classificou o dispositivo de fusão como “fundamental para os nossos objetivos de descarbonização e independência energética”.

Bobina de campo poloidal PF1 e giotrões

Lançado em 2007, o ITER é uma máquina de fusão atualmente em construção e resulta de uma colaboração entre 33 países, incluindo Rússia, China, Estados Unidos e União Europeia.

O projeto procura demonstrar o potencial da fusão como fonte de energia de baixas emissões, capaz de contribuir para a meta da UE de alcançar a neutralidade climática até 2050. Segundo o site do ITER, a Europa suporta “a maior parte dos custos de construção”, cerca de 45,6%.

Contudo, apesar de Bruxelas ter vindo a reduzir de forma gradual a sua dependência da energia russa, de ter reduzido a dependência do gás russo, de ter excluído instituições públicas russas da cooperação e do financiamento à investigação da UE e de ter proibido o financiamento russo a organizações europeias de investigação em resposta à invasão da Ucrânia, a Rússia nunca foi expulsa do ITER, cujas regras estabelecem que nenhum membro pode ser removido.

Assim, a Rússia continua a deter uma participação de 9,1% no projeto e o país continua a fornecer cientistas e tecnologia essenciais.

“A Federação Russa é membro do ITER e participa através da sua agência nacional, o Project Center ITER”, declarou ao Euronews um porta‑voz do ITER. “Todas as atividades relacionadas com o ITER são realizadas em conformidade com os requisitos legais e regulamentares aplicáveis.”

Para lá do financiamento, a Rússia desempenha um papel crucial no fornecimento de diversos componentes altamente especializados, incluindo a bobina de campo poloidal PF1, utilizada para moldar e controlar o plasma de fusão.

Também fornece giotrões, dispositivos de grande potência que geram ondas eletromagnéticas de alta frequência usadas para aquecer o plasma nos reatores de fusão. Outros componentes incluem “material de apoio à proteção do fornecimento de energia dos ímanes supercondutores” e “portas superiores da cuba de vácuo”, de acordo com o porta‑voz.

Operários fixam um íman solenóide central para o projeto ITER antes da sua partida de Berre‑l’Etang, no sul de França, 6 de setembro de 2021.
Operários fixam um íman solenóide central para o projeto ITER antes da sua partida de Berre‑l’Etang, no sul de França, 6 de setembro de 2021. AP Photo / Daniel Cole

Grande investimento da UE

Ganham maior relevo as contribuições da Rússia numa altura em que a fusão nuclear se tornou uma prioridade de investimento da UE. Bruxelas prepara‑se para apresentar a sua própria estratégia para a fusão, depois de anunciar recentemente 330 milhões de euros para acelerar o setor e apoiar tecnologias e competências nucleares.

A estratégia, adiada por um ano, deverá abordar questões de governação, clareza regulatória e cooperação internacional, tendo o papel central da Europa no ITER como eixo principal. Questionada sobre se a participação da Rússia no programa de fusão nuclear ITER provocou atrasos diplomáticos entre Estados‑membros na obtenção de acordo sobre o futuro da estratégia, a Comissão Europeia ainda não respondeu.

Mas um documento do Conselho sobre a energia nuclear, incluindo o ITER, datado de 9 de julho e consultado pelo Euronews, evitou cuidadosamente qualquer referência à Rússia.

Pelo contrário, deixou claro que a UE deverá “prosseguir a colaboração com a Organização ITER e os parceiros nas atividades relacionadas com o ITER”.

Ministro russo da Ciência visita o ITER

Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, a UE suspendeu a participação russa em programas emblemáticos de investigação como o Horizonte Europa, o Horizonte 2020, bem como o Euratom e o Erasmus Plus.

Outras grandes instituições científicas europeias, como o reputado centro de investigação em física CERN, suspenderam, em 2022, o estatuto de Observador da Rússia e deixaram claro que “não estabeleceriam novas colaborações com a Federação Russa”.

Mas, apesar do congelamento mais amplo dos laços científicos, o ITER assinou em junho um acordo de cooperação com o Instituto Kurchatov, da Rússia, que abrange a troca de informação científica, programas de investigação e formação.

Responsáveis russos e europeus também mantiveram contactos de alto nível em torno do projeto. Em julho, o ministro russo da Ciência, Valery Falkov, visitou o complexo do ITER em França, acompanhado por uma numerosa delegação.

Defensores da colaboração do ITER com a Rússia sustentam que se trata de um esforço de várias décadas, que exige conhecimento especializado, vastas cadeias de fornecimento industriais e cooperação internacional. Além disso, o projeto foi concebido partindo do princípio de que a cooperação científica poderia sobreviver a mudanças políticas.

“O sistema de bobinas de campo poloidal, por exemplo, integra contribuições da Europa, da Rússia e da China, exigindo que componentes e tecnologias de diferentes cadeias de fornecimento nacionais sejam integrados num único sistema de máquina”, explicou o porta‑voz do ITER.

Paralelamente ao compromisso com o ITER, vários países desenvolvem iniciativas nacionais para criar o conhecimento e as tecnologias necessárias ao funcionamento de sistemas de fusão nuclear nas próximas duas décadas.

Investigação recente do Parlamento Europeu indica que os avanços tecnológicos desde a criação do ITER, em 2007, “podem preparar o caminho para que a tecnologia esteja pronta para utilização industrial na segunda metade deste século”.

Ciência não pode "sobrepor‑se à geopolítica"

Mas a dependência da UE da Rússia no domínio da fusão nuclear e do ITER suscitou preocupações em Bruxelas.

Em 2025, três eurodeputados perguntaram por escrito ao comissário Jørgensen se a UE tenciona “eliminar gradualmente a dependência da participação russa no ITER”.

Numa carta pública, Jørgensen respondeu que as regras fundadoras do ITER não permitem expulsar membros, apenas preveem a retirada voluntária.

Para Andrea Wechsler, uma das signatárias da carta, a resposta da Comissão “não apresentou uma estratégia política convincente para lidar com a participação contínua da Rússia na governação e no ecossistema tecnológico do ITER”.

“Considero que a Comissão deveria reavaliar a questão e explicar de que forma estas novas formas de cooperação institucional são compatíveis com a política mais ampla da UE em relação à Rússia”, disse ao Euronews. “Precisamos de uma análise abrangente, em termos de segurança e estratégia, do envolvimento da Rússia no ITER e de um plano claro para garantir que não são criadas novas dependências tecnológicas.”

Preocupação é partilhada também por algumas ONG. Sehila Gonzalez de Vicente, diretora global de energia de fusão na organização ambiental Clean Air Task Force, considera que a cooperação internacional tem sido central para o avanço da energia de fusão, mas que poderá deixar de ocorrer na mesma escala global.

“A colaboração (científica) tenderá provavelmente a concentrar‑se entre aliados e parceiros de confiança, enquanto países e empresas procuram proteger tecnologias sensíveis do ponto de vista comercial e manter uma vantagem competitiva na indústria emergente da fusão”, afirmou Gonzalez de Vicente ao Euronews.

Embora Wechsler diga que se opõe ao “isolamento de investigadores, estudantes ou cientistas russos”, insiste que a natureza científica da cooperação em tecnologias estratégicas não a torna neutra do ponto de vista geopolítico.

“Não interpretaria a continuação do projeto como prova de um consenso de que a ciência deve simplesmente prevalecer sobre a geopolítica”, acrescentou.

A Comissão Europeia não respondeu a um pedido de comentário do Euronews em tempo útil para publicação deste artigo.

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