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Soberania da IA não significa agir sozinho, diz responsável da Microsoft

ILE - Logótipo da Microsoft exibido nas instalações da empresa em Sydney, Austrália, na quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
ILE - Logótipo da Microsoft exposto na sede da empresa em Sydney, Austrália, na quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021. Direitos de autor  AP Photo/Rick Rycroft, File
Direitos de autor AP Photo/Rick Rycroft, File
De Pascale Davies
Publicado a Últimas notícias
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Responsável máxima pela ética da IA na Microsoft, Natasha Crampton, explica à Euronews centros de dados, inclusão digital e soberania da IA.

O fosso digital na adoção da inteligência artificial entre o Norte Global e o Sul Global está a agravar-se, afirmou a diretora de IA responsável da Microsoft à Euronews Next.

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“Não podemos deixar que o fosso digital se transforme num fosso ainda maior em matéria de IA”, alertou Natasha Crampton, que integrou o Grupo Consultivo de Alto Nível sobre IA das Nações Unidas.

À margem da cimeira da ONU AI for Good, realizada em Genebra na semana passada, traçou uma visão para reduzir esse fosso.

Os apelos à soberania em IA têm dominado as conferências tecnológicas, sobretudo desde que a administração Trump obrigou a Anthropic a impedir cidadãos não estadounidenses de utilizarem os seus modelos de IA mais avançados, Mythos e Fable, há um mês. A proibição foi entretanto parcialmente revertida.

Mas, para Crampton, soberania em IA não significa apenas “soluções locais em oposição a tecnologias fornecidas globalmente”.

Natasha Crampton, diretora de IA responsável da Microsoft
Natasha Crampton, diretora de IA responsável da Microsoft Microsoft

Pelo contrário, explicou, trata-se de garantir que o impacto, as culturas, os valores e as normas locais são priorizados nestes sistemas, tirando partido da tecnologia global sempre que possível.

Para reduzir o fosso digital, apontou iniciativas multilingues, como o projeto Lingua na Europa, que entretanto se expandiu a África em parceria com a Fundação Gates. O LINGUA Africa resulta de uma colaboração entre o laboratório AI for Good da Microsoft, a Fundação Gates, a Google.org e o Masakhane African Languages Hub.

O projeto visa recolher dados em línguas locais para que os modelos fundamentais de IA possam compreender expressões idiomáticas e nuances culturais, garantindo que as comunidades tenham autonomia e competências técnicas para controlarem o seu próprio futuro impulsionado pela IA.

Crampton sublinhou também a importância da ligação ao setor privado e aos governos para garantir uma IA mais segura que chegue a todos. A ONU realizou, no início de julho, o seu primeiro Diálogo Global sobre Governação da IA, que procura assegurar que a governação reflete as prioridades de todos os países e que os benefícios da IA são partilhados por todos.

“Uma das coisas mais importantes a consolidar ao longo do próximo ano é precisamente o tecido de ligação entre estes diferentes mecanismos”, afirmou, referindo-se aos novos instrumentos da ONU, ao diálogo sobre IA e ao painel.

“Criar essa ligação entre as diferentes peças desta infraestrutura e perceber qual é o papel específico de cada um, para que possamos avançar mais depressa sem duplicações nem redundâncias, é, creio, um objetivo central para o próximo ano”, acrescentou.

Um dos principais exemplos dessa ligação é o “emblema digital”, uma parceria entre a Microsoft, o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e a União Internacional das Telecomunicações, uma agência da ONU.

O emblema pretende funcionar como um escudo jurídico para proteger hospitais e trabalhadores humanitários contra ciberataques, numa altura em que ferramentas de comunicação, plataformas de logística, sistemas de cuidados a doentes e infraestruturas de cloud e centros de dados estão cada vez mais sob ataque.

A Microsoft apela aos governos para que apoiem o emblema nas políticas públicas, às organizações humanitárias e médicas para que contribuam para moldar a sua implementação face à realidade operacional, e às restantes empresas tecnológicas para que o integrem nas ferramentas e nos fluxos de trabalho que os defensores já utilizam.

Ser um bom vizinho

Perante a crescente contestação pública à pegada ambiental e económica da infraestrutura de IA, Crampton salientou que a Microsoft está a convergir para uma abordagem “community-first”, centrada na comunidade.

“Queremos ser bons vizinhos. Queremos ser bons membros da comunidade quando construímos esta infraestrutura e, por isso, temos vindo a tomar medidas, à frente de muitas outras empresas, para oferecer um conjunto de compromissos centrados na comunidade”, afirmou.

Em vez de exigir os tradicionais benefícios fiscais para construir grandes centros de dados, a Microsoft está a trabalhar ativamente para alargar as bases tributárias locais e financiar serviços públicos como escolas e infraestruturas.

Crampton adiantou ainda que a empresa está a gerir de forma rigorosa o consumo de recursos, para impedir que as suas exigências de computação elevem as tarifas de eletricidade das famílias locais ou esgotem reservas de água na região, recorrendo a tecnologia avançada como sistemas de arrefecimento em circuito fechado.

Europa: o que está a fazer bem?

No caso da Europa, destacou os esforços do Gabinete Europeu da IA para se ligar a homólogos no estrangeiro, incluindo os institutos de segurança e avaliação da IA nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Canadá.

Esse tipo de coordenação transfronteiriça, sublinhou, é essencial, tendo em conta a rapidez com que evolui a ciência da avaliação e teste da IA.

Apelou ainda à humildade dos reguladores em todo o lado, lembrando que regras redigidas há alguns anos com base na melhor informação disponível podem ter de ser ajustadas à medida que a tecnologia e a compreensão dos riscos evoluem.

Reduzir o desfasamento entre o que a sociedade espera, o estado da tecnologia e o nível da regulamentação deve ser, disse, uma prioridade comum.

“Considero que esse tipo de ligação internacional, na qual vejo o Gabinete da IA a investir de forma consistente, é realmente importante, porque, à medida que a ciência de teste e avaliação amadurece rapidamente, ter esse sinal internacional e estar preparado para aperfeiçoar abordagens à luz de novas informações e de novas técnicas é fundamental”, afirmou.

Defendeu também flexibilidade por parte dos reguladores, sublinhando que regras elaboradas há alguns anos com base na melhor informação disponível podem ter de ser adaptadas à medida que a tecnologia e a perceção dos seus riscos se altera.

“Precisamos que os regimes de regulação acompanhem essa mudança e se adaptem, reduzindo idealmente o desfasamento que por vezes vemos entre aquilo que a sociedade espera dos reguladores, o nível em que a tecnologia se encontra e o ponto em que está a regulamentação”, concluiu.

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