Comprar casa em Portugal abaixo dos 400 mil euros começa a tornar-se uma tarefa difícil, em alguns casos, impossível. Segundo dados mais recentes do Barómetro do Imovirtual, site especializado em imobiliário, o preço médio nacional fixou-se nos 430.500 euros.
O estudo mais recente do Barómetro do Imovirtual, plataforma especialista em mercado imobiliário, de maio de 2026, fixou o preço médio nacional de compra de casa nos 430.500 euros. Um valor que abrange todo o tipo de imóveis, novos e usados, e que parece impossível suportar para grande parte da população.
Basta uma breve pesquisa num portal imobiliário ou um passeio pelas montras das imobiliárias para perceber até onde chegaram os preços das casas em Portugal. Mas já não se conseguem comprar casas mais baratas? A resposta depende de vários fatores: o primeiro é a falta de casas disponíveis.
“Sem casas novas no mercado e com uma procura extremamente dinâmica, torna-se muito difícil para os jovens, para as famílias portuguesas, conseguirem comprar a sua casa”, explicou, em entrevista à Euronews, Patrícia Barão, presidente da Associação Profissional Representativa dos Mediadores Imobiliários de Portugal (APEMIP).
A juntar a isso, “temos o custo do terreno, o custo da construção, o valor da mão de obra, os custos de projetos, das especialidades, as taxas e os encargos urbanísticos”, descreve Patrícia Barão, que contribuem, e muito, para os valores altos da habitação.
Ricardo Vagarinho, CEO da empresa de construção MomentVM, apontou outro fator que veio contribuir para o aumento do preço de mercado. “Parece que se definiu agora um novo patamar em função daquilo que foi permitido pelo Governo aos jovens de terem possibilidade de adquirir um imóvel com garantia do Estado, com um valor limite de 450 mil euros", o que levou o mercado a "subir tudo, quer usados quer novos, porque as pessoas têm essa disponibilidade de financiamento”, explica à Euronews.
O regime de apoio ao crédito à habitação jovem consiste no financiamento a 100 %, com isenção de impostos e garantia pessoal do Estado, a jovens entre os 18 e os 35 anos, com rendimentos que não ultrapassem o 8.º escalão do IRS, para casas que não excedam os 450 mil euros.
Num relatório recente, de junho, no capítulo dedicado à análise da economia portuguesa, o Fundo Monetário Internacional (FMI) recomendou a suspensão de algumas medidas do Governo no setor, entre as quais esta garantia pública para os jovens, alegando que ampliaram “os desequilíbrios do mercado”. Ou seja? Há mais pessoas à procura de casas, que antes não existiam, mas o número de casas disponíveis mantém-se igual.
Patrícia Barão defende que é preciso ir mais além e ter uma “visão holística” do mercado. “Não existe uma bala de prata para o tema da habitação. Não há aquilo a que se chama uma medida que resolva e, por isso, temos de agir em várias frentes”, defende.
Déficit de mão de obra encareceu casas
A crise da habitação não se define apenas pela falta de casas, mas também pela falta de pessoas para as construir. E a história repete-se: se há falta de oferta e a procura é grande, os valores aumentam.
Faltam profissionais especializados como “pedreiros, eletricistas, canalizadores, cofradores ou subempreiteiros”, enumera Ricardo Vagarinho.
Com a entrada da Troika em Portugal, o Estado reduziu o investimento em infraestruturas e grandes projetos e os bancos deixaram de conceder crédito à habitação e à atividade empresarial, levando muitas construtoras à falência e à “fuga de talentos” na área.
“Os que eram bons e se mantiveram cá não chegam para o volume que nós queremos construir”, refere.
“Estima-se que faltam 80 mil pessoas para a construção e, se toda a gente quer gente para trabalhar, claro que depois vai oferecer um bocadinho mais. Por isso, o preço da mão de obra sobe”, esclarece.
O empresário relembra ainda que o mercado da construção de habitação compete também com projetos do Estado e privados de alguma dimensão. “Os aeroportos, linhas ferroviárias, estradas e todos esses projetos maiores consomem também muita mão de obra”, acrescenta Ricardo Vagarinho.
Este ano, em Portugal, as tempestades que devastaram o centro do país também contribuíram para um aumento na procura de mão de obra no setor da construção, o que levou à aceleração da chamada “via verde” para imigrantes do setor.
O protocolo assinado entre o Estado e a Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI) foi celebrado para responder à necessidade urgente de mão de obra para as obras públicas previstas no âmbito do PRR 2030. Contudo, depois da tragédia no centro do país, o Governo indicou que algumas obras públicas em curso poderiam ter de ser temporariamente suspensas ou atrasadas para dar resposta a intervenções consideradas mais prioritárias.
Materiais de construção também aumentaram
A inflação dos materiais de construção desde 2021, com o início da guerra na Ucrânia, também é uma das variáveis para o aumento do valor final de uma casa.
Segundo dados do INE de março de 2026, os custos de construção de habitação nova aumentaram 3,7 %.
Entre os materiais que mais influenciaram a subida do preço, estão os vidros e espelhos, o fio de cobre nu e revestido e as lajes de betão e blocos cerâmicos. “Tudo depende da energia”, justifica Ricardo Vagarinho.
“Grande parte dos materiais dependem da energia e, por isso, se há uma guerra que faz aumentar os preços dos combustíveis, sobem os custos da energia e dos materiais que dependem dela e, inevitavelmente, acaba por afetar o custo da construção”, conclui.
Também os preços dos terrenos têm um grande peso no orçamento final de um projeto. “Uma vez que a procura por casas é elevada, os preços dos terrenos também sobem, inevitavelmente”, conta o empresário que considera o terreno 20 % do orçamento de um projeto de construção.
De forma simplificada, Ricardo alerta que “construir custa o mesmo em qualquer lado”; o que pesa é exatamente o valor do terreno e do metro quadrado nas diferentes regiões. “A localização é o grande tema”, remata.
Além disso, o tempo de licenciamento de um terreno para o promotor imobiliário “corresponde a um risco e é também um fator para os preços altos da habitação”, esclarece Patrícia Barão.
O tempo de espera por um licenciamento urbanístico é uma variável muito importante no mercado imobiliário e representa um custo indireto no valor da casa.
“Se nós formos olhar para um processo de Câmara que demora um ano, às vezes, dois anos, é muito tempo para ter um capital significativo, que é o preço de um terreno, parado sem gerar qualquer retorno”, explica Ricardo Vagarinho. “Durante aquele tempo, o dinheiro ali aplicado, que devia gerar pelo menos 6 % ao ano, não está a gerar nada. Então, o que acontece é que os investidores farão contas a contar com isso no produto final”, explica.
“É preciso habitação nova em localizações onde os jovens e as famílias consigam comprar”
Segundo um observatório imobiliário de março de 2026, a 1 de março, o preço médio das casas à venda em Portugal fixou-se nos 3.693 €/m².
“São valores altos que os jovens e as famílias portuguesas não conseguem suportar” e, por isso, é necessário “trazer habitação nova em localizações onde os jovens e as famílias consigam comprar e que consigam chegar aos seus empregos sem demorar uma eternidade”, defende Patrícia Barão.
O distrito de Lisboa é a região onde o metro quadrado é mais elevado, com 5.796 €/m². Faro é o segundo distrito mais caro, onde o metro quadrado custa 4.804 euros; segue-se a Madeira, com 4.333 euros por m², e Setúbal, que ronda os 4.000 euros.
A diferença é abismal quando vamos para o ponto oposto, onde o metro quadrado se fixa em valores abaixo dos 1.000 euros nos distritos da Guarda (739 €/m²), Bragança (943 €/m²) e Castelo Branco (981 €/m²).
“É preciso pensar em regiões que não são o centro da cidade e construir projetos com escala, mas que tenham uma rede de transportes que permita a essas pessoas deslocarem-se para os seus locais de trabalho de uma forma ágil e eficiente”, refere Patrícia Barão.
“Não queremos criar dormitórios, temos de criar uma rede de serviços e de infraestruturas com escolas, bancos, restaurantes, supermercados”, explica.
Contudo, ainda que construir seja importante, não teria um efeito imediato e a presidente da APEMIP defende, como primeira medida e com resultados “mais imediatos”, a criação, por parte do Estado, de “condições para colocar os imóveis devolutos no mercado”, através de parcerias público-privadas.
Patrícia Barão rejeita a ideia de que a mediação imobiliária seja responsável pela escalada dos preços. “Não é a mediação que faz o preço das casas”, começa por dizer.
A presidente da APEMIP considera que a mediação é uma área que pode ajudar a tornar o processo de compra e venda de uma casa mais transparente e democrático e refere ainda que está a ser preparada uma nova lei, na qual a associação participou, com o intuito de reforçar a formação e a profissionalização do setor.
“Um bom mediador imobiliário, que conhece o mercado, que sabe quais são os preços dos imóveis, que tem os valores das transações daquelas casas semelhantes que foram feitas nos últimos tempos, que conhece todo o detalhe de uma operação de compra e venda de um ativo, que sabe qual é toda a documentação que tem de ter, que conhece quais são as tendências do mercado, ajuda a que o valor das casas seja o ajustado e o correto”, explica.
Para Ricardo Vagarinho, também no setor da construção são precisos mais profissionais especializados. O empresário refere também a urgência de apressar os processos de licenciamento por parte do Estado como uma medida importante para facilitar a construção e desenvolver o parque habitacional.
Ambos os setores reconhecem que enquanto a oferta de terrenos, casas e profissionais for insuficiente, e os custos de construção permanecerem elevados, comprar casa continuará a estar fora do alcance de uma parte significativa dos portugueses.