Milhares de candidaturas a apoios continuam por avaliar, especialmente nos concelhos de Leiria e da Marinha Grande, dois dos mais fustigados. Empresas queixam-se de que verbas do Estado significam endividamento futuro. Árvores caídas nas zonas entre pinhal e povoações aumentam risco de incêndio.
A tempestade "Kristin" entrou em Portugal, no final de janeiro, pela calada da noite, mas fez-se notar com uma violência incomum em dezenas de concelhos, em particular na região Centro, figurando já entre as maiores catástrofes naturais deste século no país. Foi a terceira em menos de uma semana, depois da "Ingrid" e da "Joseph", e a mais devastadora.
Assim que o dia rompeu, ficou visível, com toda a crueza, um rasto de destruição que se espraiava das casas e empresas às escolas e às estradas. A população viu-se privada de serviços essenciais - água, eletricidade, comunicações.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), autoridade meteorológica nacional, descreveu o fenómeno como uma "ciclogénese explosiva" em que o principal impacto vem da força do vento.
A rajada mais forte - 208 km/h - foi registada em Soure, no sul do distrito de Coimbra, ainda que três das quatro vítimas mortais confirmadas pela Proteção Civil nas primeiras 24 horas tenham sido encontradas no concelho de Leiria, onde a Euronews esteve no dia seguinte à tragédia. O cenário parecia de guerra, num território que ficou desligado do resto do país e do mundo.
O primeiro-ministro Luís Montenegro foi ao terreno para declarar estado de calamidade, alargado, posteriormente, a 68 municípios. No total, osprejuízos superaram os 5,3 mil milhões de euros.
No início de fevereiro, o governo aprovou um pacote de medidas no valor de até 2,5 mil milhões de euros para acudir a pessoas, empresas, autarquias e infraestruturas. Seis meses volvidos, os apoios estão atrasados e a reconstrução faz-se a conta-gotas: para milhares de pessoas, ainda nem sequer começou a ganhar forma.
Ainda nem foi lançada a primeira pedra
Carlos Alberto e Maria do Rosário, residentes de Carvide, no concelho de Leiria, estavam acordados no início da madrugada de 28 de janeiro. Ouviram o "barulho horrível" das chapas da cobertura a soltarem-se e de um dos pilares da casa a desabar. Em poucas horas, perderam o espaço onde moravam há mais de 30 anos.
O sofrimento sentido nessa noite ainda pesa no espírito e acentua-se à medida que a resolução do problema vai sendo adiada. "Cada dia que passa é como se fosse um ano", desabafa Maria do Rosário à Euronews.
Sem teto, mudaram-se para a casa de um filho. Estão reformados por invalidez - cada um com pensões que não vão além dos 500 euros - e não têm margem para ajudar a cobrir do próprio bolso a reconstrução. O último orçamento solicitado fixou-se nos 84 mil euros.
"Como o seguro está a atuar, deu dinheiro, mas não abrange a despesa toda, ou seja, se for assim, eu não sei se vou conseguir pôr a casa de pé", explica. O casal aguarda ainda a resposta ao pedido submetido à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC).
"Caso o Estado não dê o dinheiro para as janelas e portas, ainda mais difícil fica", nota. Maria do Rosário está cansada de esperar e não acredita que as obras arranquem antes de outubro. "O empreiteiro diz que, primeiro, tem de ter material para poder vir para cá, e eu vou ter de ter dinheiro para poder pagar-lhe", afirma.
Em Leiria, há milhares de candidaturas a apoios que continuam por avaliar.
"Se fosse em Lisboa, as coisas tinham-se movido de outra maneira_._ Quando é na pele dos outros e não na nossa, é totalmente diferente", lamenta.
Apoios estatais? "Um bluff"
A fúria da "Kristin" deixou marcas na fábrica de moldes que João Faustino administra na Marinha Grande há 40 anos. Das cinco unidades de produção, duas ficaram completamente destruídas. Os prejuízos diretos ascendem aos 9 milhões de euros.
Uma das naves começou a ser reconstruída há poucos dias, mas várias das máquinas de alta precisão, apesar de protegidas por lonas, não escaparam à chuva e humidade, sofrendo uma corrosão irreparável. Sem o equipamento necessário para fazer e testar os produtos, a empresa opera a apenas 30% da capacidade.
"A reparação destas máquinas custa muito dinheiro e, além disso, o prazo de entrega é absurdo", refere o administrador da TJ Moldes em entrevista à Euronews. Ainda foi possível salvar uma encomenda para a gigante alemã Porsche, só que, entretanto, outras ficaram pelo caminho.
A seguradora já pagou indemnizações e são essas verbas que estão a sustentar a laboração. João Faustino optou por não recorrer ao apoio financeiro estatal que considera "um bluff".
"Se eu quiser ir às linhas de apoio do Estado, eu vou criar mais dívida. É dívida em cima de dívida. É dinheiro que nós vamos ter de pagar algum dia, não é dado", sublinha o empresário, lembrando que a parte a fundo perdido prevista no regime criado pelo governo depende de "investimento" e de "objetivos" que podem não ser alcançáveis face à "incerteza" do mercado e à "guerra comercial" lançada pela atual administração norte-americana.
Mesmo num contexto de calamidade, a TJ Moldes manteve todos os 112 trabalhadores, que, nos primeiros tempos, ajudaram a remover o entulho e a arrastar e limpar máquinas. João Faustino estima que até novembro será possível retomar em pleno a produção em quatro das cinco unidades, sendo que a quinta, composta por pilares com fissuras, exigirá maior tempo de avaliação e poderá ter de ser reconstruída de raiz.
Bombeiros resgatados por particulares
O quartel dos Bombeiros Voluntários de Leiria tornou-se uma das faces da tragédia. Os fortes ventos arrancaram a cobertura do estabelecimento e os destroços danificaram muitas das viaturas ao dispor da corporação.
"Nós começámos a recuperação logo no dia 28 de janeiro. Às 8.30, tínhamos logo aqui camiões para tirar os destroços. E desde então tem sido uma luta contínua porque não podíamos parar o socorro à população", declarou o comandante Almeida Lopes, presidente desta associação.
Os trabalhos de reconstrução estão praticamente finalizados, num esforço conjunto da sociedade civil. Os donativos usados foram reunidos exclusivamente por particulares.
"Logo nos primeiros três, quatro dias veio aqui ao nosso quartel o senhor Presidente da República, a Sr.ª ministra da Administração Interna, alguns secretários de Estado... disseram-nos que podíamos avançar, que podíamos contar com o apoio deles, mas até ao momento nem um único papel a dizer ou que contávamos ou que não contávamos, ou com um euro ou sem euro nenhum", afirma Almeida Lopes.
Barril de pólvora à entrada das povoações
A intempérie já faz parte do passado, embora tenha espalhado focos de perigo que estão à espreita na floresta e não só.
A Câmara de Leiria estima que a ventania tenha derrubado até oito milhões de árvores. Segundo a autarquia, foram atingidos 10 mil hectares de floresta e o processo de limpeza pode demorar anos.
A maior parte dos caminhos florestais no município está desobstruída, mas as zonas de transição entre o pinhal e as povoações continuam por limpar devido à falta de mão de obra especializada.
Numa freguesia a menos de dois quilómetros do centro da cidade, a Euronews encontrou ruas e estradas junto às quais se concentra um amontoado de troncos caídos, ramos e vegetação densa. Num destes casos, a distância para um centro escolar e uma infraestrutura desportiva é de cerca de 100 metros. Um barril de pólvora em pleno verão, quando o risco de incêndio é maior.