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França: burros trabalham em hospital como animais de terapia

ARQUIVO - Um doente com perturbações mentais limpa os olhos de um burro durante uma sessão de terapia com animais. Paris, 29 de maio de 2026.
ARQUIVO – Paciente com perturbações mentais limpa os olhos de um burro durante sessão de terapia com animais. Paris, 29 de maio de 2026. Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Una Hajdari com AP
Publicado a Últimas notícias
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Da depressão à esquizofrenia, única unidade hospitalar de terapia animal em França mostra que quatro patas chegam onde a medicina não chega.

Quando a vida se torna difícil, experimente fazer festas a um burro, pelo menos essa é uma das “receitas” no complexo hospitalar de Ville-Evrard, a leste de Paris.

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Escondidos no recinto, entre edifícios agrícolas do século XIX e zonas de bosque, cinco burros assumem parte do trabalho pesado da saúde mental entre pausas para mastigar feno.

A unidade de terapia com burros do hospital, única em França, funciona desde 2016, quando Ermelinda Hadey, enfermeira de psiquiatria, e o marido, François, lançaram o programa partindo da intuição de que os burros, conhecidos pelo seu caráter calmo e sociável, poderiam criar uma ligação com os doentes de uma forma que os tratamentos convencionais nem sempre conseguem.

"Medicina animal"

Na sexta-feira, os doentes conduziram os burros — Nono, Pitou, Oscar, Manolo e Malraux — pelos terrenos do hospital, limparam‑lhes os cascos e, no final da sessão, abraçaram‑nos. Cada doente é associado, ao longo do tempo, a um companheiro habitual, já que a familiaridade, ao que parece, funciona nos dois sentidos.

Para Nathalie, de 60 anos, a experiência vai direta ao essencial. "Quando tomamos medicação que ajuda a relaxar… é exatamente a mesma coisa", disse. "Eu chamaria a isto medicina animal. Traz alívio. Deixamos de pensar em tudo o resto."

Os doentes são identificados apenas pelo primeiro nome para proteger a sua privacidade.

A enfermeira Audrey Seffar apontou os progressos de Nathalie como exemplo do que os animais podem desbloquear. No início, recusava sair do carro usado pelos doentes com dificuldades físicas.

"Mas, pouco a pouco, com encorajamento, conseguiu", afirmou Seffar. "O animal serve de mediador. É tão extraordinário que hoje ela conseguiu sair do carro e ficar de pé ao lado do seu burro."

Outro doente, Jérôme, de 52 anos, disse que o programa ajuda a reduzir a solidão.

"Falar com pessoas, participar em atividades que normalmente não faria, ajuda‑me no dia a dia", contou. "Ajuda a quebrar a rotina dos tratamentos e da medicação. Ficar em casa não é bom para mim."

ARQUIVO - Doentes com perturbações de saúde mental participam numa sessão de terapia com burros num hospital psiquiátrico em Neuilly-sur-Marne, Paris. 29 de maio de 2026.
ARQUIVO - Doentes com perturbações de saúde mental participam numa sessão de terapia com burros num hospital psiquiátrico em Neuilly-sur-Marne, Paris. 29 de maio de 2026. AP Photo

"Esponjas emocionais"

Alguns dos burros chegaram a Ville-Evrard depois de terem sido eles próprios vítimas de negligência ou maus‑tratos, adotados através de associações antes de François Hadey os treinar para o trabalho terapêutico. Ele descreve a aptidão dos animais para o papel com algo próximo de respeito profissional.

"Um burro é muito inteligente. Percebe as coisas muito depressa, mas é preciso explicar devagar", disse. "Os burros são animais calmos, serenos, que geralmente gostam de estar perto das pessoas. Uma vez envolvidos nestas interações, ligam‑se muito bem aos doentes. São esponjas emocionais."

O programa obteve estatuto oficial de unidade de saúde em 2022, um reconhecimento burocrático que permitiu contratar três enfermeiros a tempo inteiro, com voluntários de uma organização sem fins lucrativos a ajudarem nos cuidados aos animais.

Desde então, foi alargado para incluir cobaias, galinhas, pombas, cabras, tartarugas e coelhos, sendo os animais mais pequenos levados diretamente aos quartos para os doentes que não conseguem sair ao exterior.

As sessões são gratuitas para os doentes e financiadas pelo sistema público de saúde francês. São pensadas como intervenções terapêuticas para pessoas com ansiedade, depressão, autismo, esquizofrenia e outras perturbações, e a equipa refere melhorias na regulação emocional, na comunicação e na autoestima.

Ermelinda Hadey descreve o trabalho como funcionando através de uma espécie de lógica de espelho: cuidar de um animal, defende, cria as condições para que os doentes possam cuidar de si próprios.

"Trabalhamos a alimentação do animal, o que nos permite abordar os hábitos alimentares do próprio doente. Trabalhamos a higiene do animal e, por efeito de espelho, trabalhamos também a higiene do doente", explicou.

Muitos doentes tomam antipsicóticos ou sedativos que podem anular por completo a motivação. É aí, diz, que os burros mostram o seu valor.

"Isto não substitui um médico ou uma prescrição médica, mas pode ajudar os doentes a recuperar a confiança e o sentido de valor próprio", afirmou Hadey.

Em busca de reconhecimento

Apesar do aparente sucesso, a terapia com animais continua na periferia da prática psiquiátrica formal, e a equipa de Ville-Evrard quer mudar isso.

"Para que tal aconteça, precisamos de investigação. Temos muitos testemunhos dos doentes… Os profissionais que os acompanham veem também todos os dias os benefícios. Mas os médicos têm tantas outras responsabilidades que nem sempre os conseguem observar em primeira mão", disse Hadey.

A estudante de enfermagem Alicia Fabi, de 18 anos, afirmou que os doentes regressam das sessões visivelmente diferentes. "Sempre que voltamos da atividade, dizem que se sentem bem, calmos e relaxados, e que gostaram do passeio. Isso é realmente positivo", sublinhou.

No final da sessão de sexta‑feira, enquanto os doentes conversavam à luz da tarde, uma enfermeira resumiu o que poderá ser o lema oficioso da unidade: "Os burros são os meus melhores colegas."

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