O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão ripostou que os iranianos “mostraram ser jogadores de xadrez profissionais”, depois de Trump dizer que estava a agir com discrição e comparar as negociações com Teerão a uma partida de xadrez
Irão não reabre o estreito de Ormuz enquanto os Estados Unidos não cumprirem as suas condições, disse Teerão esta segunda-feira, sublinhando que os iranianos mostraram ser jogadores de xadrez profissionais.
“Compete à parte norte-americana parar e reparar as suas ações ilegais e destrutivas”, afirmou esta segunda-feira o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, referindo-se ao bloqueio norte-americano aos portos iranianos.
“Com as luzes apagadas ou acesas, os iranianos mostraram ser jogadores de xadrez profissionais”, acrescentou Baghaei, numa alusão ao facto de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter comparado as negociações a “um jogo de tabuleiro”.
Trump indicou no domingo que estava preparado para deixar aumentar a pressão económica sobre o Irão, aparentemente afastando-se de novos ataques militares depois de Teerão ter apresentado uma lista de exigências para a reabertura do estreito de Ormuz.
Teerão quer que Washington levante o bloqueio, pague indemnizações pelos meses de danos da guerra, retire as sanções económicas e liberte os ativos iranianos congelados.
O encerramento do estreito de Ormuz — uma via marítima crucial que transporta normalmente cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo — tornou-se a consequência mais duradoura da guerra.
O impasse manteve os preços da energia no centro da política norte-americana, numa altura em que se aproximam as eleições intercalares de novembro.
Irão mantém conversações separadas com Omã sobre o trânsito pelo estreito, incluindo a eventual criação de um corredor marítimo temporário. No entanto, Teerão afirma que qualquer reabertura efetiva depende das negociações com os EUA.
Trump já tinha sido citado pelo meio de comunicação Axios como dizendo que estava a “baixar o tom” em relação ao Irão.
“Estamos apenas meio a negociar com eles. Estamos só a observar o Irão, com a sua enorme inflação e o facto de não terem dinheiro”, disse.
“Vai correr bem. Corre sempre bem. É como um jogo de xadrez”, acrescentou Trump.
O responsável iraniano Mohammad Bagher Zolghadr apresentou no sábado as exigências de Teerão, incluindo o fim da “guerra e agressão contra o Irão e os seus aliados no Líbano, Palestina, Iémen e Iraque”.
Exigiu também o levantamento de um contrabloqueio norte-americano aos portos iranianos, o fim das sanções, a libertação dos ativos iranianos congelados e compensações pelos danos de guerra, noticiou a agência Tasnim.
Baghaei reiterou esta segunda-feira que “enquanto continuar o bloqueio naval norte-americano... não existirão as condições necessárias para afirmar que o estreito de Ormuz se tornou uma via marítima segura”.
Teerão tinha mantido negociações com Washington para pôr fim à guerra lançada pelos EUA e por Israel no final de fevereiro, mas um acordo preliminar desmoronou-se e responsáveis iranianos dizem que as conversações se limitam agora à troca de mensagens através de mediadores.
Irão: Khamenei reúne-se com Pezeshkian
Entretanto, Teerão informou que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, se reuniu recentemente com o aiatola Mojtaba Khamenei, que não aparece em público desde que assumiu o cargo no início da guerra.
“O doutor Masoud Pezeshkian encontrou-se com o aiatola Mojtaba Khamenei e falou com ele no início do seu terceiro ano de mandato”, afirmou o gabinete de Khamenei num comunicado divulgado no domingo, sem indicar a data do encontro.
Pezeshkian, que tomou posse em julho de 2024, tinha afirmado no início de maio que se encontrara com Khamenei, também sem especificar a data, mas o gabinete do aiatola não emitiu qualquer declaração na altura.
Pezeshkian disse na quarta-feira que a comunicação com Khamenei era “muito difícil neste momento”, e multiplicaram-se as especulações sobre o estado de saúde do aiatola depois de alegadamente ter sido ferido em ataques que mataram o pai, o aiatola Ali Khamenei.
Não há indicações claras sobre o seu paradeiro e estado reais. Responsáveis norte-americanos afirmaram, mais cedo na guerra, que o mais novo dos Khamenei ficou gravemente ferido e provavelmente “desfigurado” na salva inicial de ataques de 28 de fevereiro, enquanto relatos vindos do interior do Irão indicavam que estaria escondido por precaução, devido a preocupações com a sua segurança.
Pezeshkian, médico de profissão, terá também ficado, pelo menos em parte, responsável pela sua recuperação, embora essas informações nunca tenham sido oficialmente confirmadas.
O gabinete de Mojtaba Khamenei afirmou que o aiatola e Pezeshkian “discutiram em detalhe as questões e problemas do país”, incluindo a “situação militar atual e as perspetivas futuras”.
No domingo, a agência de notícias Tasnim citou um general dos Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) a dizer que imagens de Khamenei entre a população e em reuniões seriam “publicadas no futuro”, sem adiantar qualquer calendário.
Não é claro até que ponto Khamenei está envolvido nas negociações em curso com Washington, mas várias informações indicam que os Guardas da Revolução Islâmica — força paramilitar de elite da República Islâmica, sob comando direto do aiatola — desempenham provavelmente um papel determinante nas posições e exigências de Teerão.
Irão destaca ‘mudança de perceção’ na região
Baghaei afirmou esta segunda-feira que um pacto de defesa assinado na semana passada entre a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão era “um sinal de uma mudança de perceção” dos países da região em relação aos EUA.
“Os países da região perceberam que a segurança não é uma mercadoria que possa ser comprada a falsos intermediários”, declarou Baghaei. Washington é aliado dos três signatários do pacto.
“Os países da região já não podem confiar, como no passado, na segurança que os EUA dizem fornecer”, acrescentou.
Acrescentou que o Irão não está preocupado com a possibilidade de o pacto ser dirigido contra Teerão, tendo em conta os “profundos laços religiosos, históricos e civilizacionais” com a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão.
“Não há razão para recear que este tratado seja contra o Irão”, disse Baghaei.
As três nações assinaram o acordo na sexta-feira, num contexto de uma guerra de cinco meses entre os EUA e o Irão, que envolveu países vizinhos e perturbou as rotas de navegação na região.
O ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão afirmou na sexta-feira que o pacto prevê que um ataque contra qualquer membro seja considerado um ataque contra todos, acrescentando que visa “reforçar a dissuasão coletiva”.