John Malkovich afirma-se como favorito precoce à temporada de prémios ao conquistar o galardão de Melhor Ator no Festival de Cinema de Veneza e adia uma viagem a Israel após declarações falsamente atribuídas
Festival de Cinema de Veneza, que terminou este fim de semana, é habitualmente visto como um dos primeiros barómetros da temporada de prémios, que culmina com os Óscares do próximo ano. Muitas campanhas vencedoras começaram ali e a 83.ª edição deste ano já está a gerar forte expectativa em torno de John Malkovich.
Ator veterano foi distinguido com o prestigiado prémio de Melhor Ator na cerimónia de encerramento de Veneza, no sábado, pela sua interpretação de Chris na comédia negra Wild Horse Nine, de Martin McDonagh (In Bruges, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, The Banshees of Inisherin).
Filme acompanha dois agentes da CIA enviados de Santiago para a Ilha da Páscoa pouco antes do golpe de Estado de 1973 no Chile, que derrubou Salvador Allende. No elenco estão também Sam Rockwell, Steve Buscemi, Parker Posey e Tom Waits.
Malkovich não pôde estar presente na cerimónia devido a compromissos de rodagem em Montreal, mas enviou uma mensagem em vídeo para aceitar o galardão.
“Sinto-me honrado por ter sido escolhido para este prémio, que já foi atribuído a tantos atores extraordinários”, afirmou Malkovich.
Para além de aumentar significativamente as hipóteses de conquistar um Óscar no próximo ano, Malkovich tem sido notícia por cancelar a próxima deslocação a Israel devido a uma citação fabricada, algo que muitos interpretaram como um claro caso de “artwashing”.
Malkovich tinha prevista uma participação na peça de sátira teatral-musical intitulada The Music Critic, composta pelo violinista judeu Aleksey Igudesman, no Auditório Charles Bronfman, em Telavive, em abril.
O ator cancelou essa atuação devido a um comunicado de imprensa não autorizado que lhe atribuía frases falsas. No texto, Malkovich surgia como estando “entusiasmado por regressar a Israel” e a “aguardar com expectativa reencontrar o caloroso público israelita, com quem sinto uma forte proximidade e solidariedade”.
O comunicado foi publicado no jornal The Jerusalem Post e, ao tomar conhecimento das declarações através da The Hollywood Reporter (fonte em inglês), o ator afirmou nunca as ter autorizado.
Numa declaração enviada à publicação, Malkovich explicou que “uma empresa de relações públicas contratada pelo promotor israelita redigiu uma citação para o artigo que me foi atribuída, embora eu nunca tenha proferido as afirmações citadas, nem tenha sido consultado antes de serem impressas”.
E acrescentou: “Não disse estas frases e, certamente, não estão aprovadas por mim, nem refletem o que sinto. O facto de terem sido impressas como citações diretas minhas é inaceitável e insustentável. Por esta razão, decidi que não posso participar na atuação de Telavive”.
Malkovich fez ainda questão de se distanciar de qualquer apoio implícito às ações de Israel. Disse: “Ao longo da minha longa carreira, tive a sorte de atuar numa vasta parte do mundo, em países cujos governos têm valores ou culturas que não partilho e perante públicos de muitas crenças e ideologias diferentes.”
“Viajar para lugares cuja visão do mundo pode não alinhar com a minha deu-me a oportunidade de observar, ouvir e aprender, bem como partilhar a minha ideia sobre o que faz uma boa narrativa e uma música bela, e sobre como podem complementar-se e iluminar a condição humana.”
Acrescentou ainda: “A minha presença em qualquer país, mesmo no meu, não constitui aprovação das políticas ou ações desse país, nem dos seus dirigentes eleitos ou não eleitos. As minhas atuações também não significam que esteja em suposta ‘solidariedade’ com qualquer causa política específica, nem com a morte de inocentes, nem com quaisquer atos de terrorismo ou outras formas de barbaridade.”
Organizações como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e as Nações Unidas já descreveram as ações de Israel como “genocídio”, tal como um relatório publicado em junho por uma comissão independente da ONU (fonte em inglês), que concluiu que “as autoridades e forças de segurança israelitas têm deliberadamente como alvo crianças palestinianas, resultando em genocídio e crimes atrozes na Faixa de Gaza e crimes de guerra na Cisjordânia”.
A empresa israelita de relações públicas responsável pelas citações falsas acabou por apresentar um pedido de desculpas por ter “atribuído incorretamente” as declarações a Malkovich.
“O senhor Malkovich não fez, forneceu, autorizou ou aprovou esta declaração, nem ela foi aprovada pelos seus representantes”, referiu a firma. “Pedimos sinceras desculpas ao senhor Malkovich e aos seus representantes pela atribuição incorreta e lamentamos que tal tenha ocorrido.”
Malkovich visitou Israel pela última vez em 2013, quando subiu ao palco com The Infernal Comedy: Confessions Of A Serial Killer.
Wild Horse Nine é apontado como um dos primeiros favoritos da temporada de prémios deste ano e de 2027, sobretudo pela interpretação de Malkovich, e será exibido no próximo mês no BFI London Film Festival. A estreia nas salas de cinema está marcada para 6 de novembro.