Euronews is no longer accessible on Internet Explorer. This browser is not updated by Microsoft and does not support the last technical evolutions. We encourage you to use another browser, such as Edge, Safari, Google Chrome or Mozilla Firefox.
Última hora

Imigração/Calais: "É melhor arriscar e morrer"

Imigração/Calais: "É melhor arriscar e morrer"
Euronews logo
Tamanho do texto Aa Aa

Uma cena que se tornou banal: campos de imigrantes, nos arredores de Calais, no norte de França.

A maioria das pessoas que aqui se juntam fugiu da guerra ou de ditaduras no Sudão, Líbia, Etiópia, Afeganistão ou Síria.

Poucos estão dispostos a falar, abertamente, por temerem represálias contra os familiares que continuam nos seus países. Quanto à nova vida, ela não é fácil, como refere um refugiado sudanês:

“Como vê, vivemos aqui nesta selva. A nossa vida tornou-se numa morte lenta. Tudo o que queremos é proteção.”

Esta reportagem foi filmada dias antes de uma nova onda de deportações. Hoje, neste local, não há quase nada ainda que tenha sido criado um outro acampamento a alguns quilómetros da cidade.

Aqui viviam mais de um milhar de imigrantes com a ajuda de organizações humanitárias:

“Gostávamos de ter um campo como os que o Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas tem em países como a Jordânia ou nos países pobres. Os refugiados de guerra são melhor acolhidos lá que nos países ricos”, adianta Christian Salomé do Auberge des Migrants.

Alguns destes refugiados pediram asilo a França mas a maior parte sonha partir para o Reino Unido, do outro lado do Canal da Mancha. A maioria fala inglês e tem lá familiares. Apesar dos perigos eles chegaram até aqui e estão prontos para tudo, como conclui um destes homens:

“No meu país eu estava na prisão, uma situação muito má. Estive 3, 4 meses à espera de julgamento, sem ter cometido qualquer crime, apenas por questões de ideologia política. Se tivesse ficado lá teria permanecido na prisão, teria sido torturado, fariam coisas más com o meu corpo, seria violado. Escolhi continuar a viver e por isso saí do país. Foi por isso que deixei a minha Pátria. Tenho família, tinha trabalho, mas isso não interessa. Preciso de liberdade.”

Uma sede de liberdade que tem um preço duro a pagar: a travessia do deserto do Saara, os abusos sofridos na Líbia. Eles defrontam a morte para chegar à Europa:

“Muitas pessoas chegam ao mar Mediterrâneo e morrem em frente às equipas de resgate. Eu vi isso acontecer. Perdi muitos amigos e irmãos. Quando chegámos aqui tínhamos uma boa imagem dos europeus e dos países da Europa. As expectativas eram grandes: boa política, justiça e humanidade. Mas depois, para algumas pessoas, quando chegam aqui… A nossa vida não é sequer uma vida de cão”, desabafa um refugiado.

Atravessar uma movimentada estrada faz parte do caminho para a liberdade, um percurso de esperança, muitas vezes perigoso e inatingível, mas sempre o caminho a experimentar. Tentam apanhar “boleia”, ainda que não da forma tradicional, num camião que parta para o Reino Unido, mas a polícia já conhece as suas manhas.

Longe das câmaras, muitos mostram as marcas deixadas, nos seus corpos, pela polícia, uma situação denunciada, este ano, pela Human Rights Watch e pelo Conselho da Europa.

Apesar disso, eles não desistem do sonho de chegar ao Reino Unido:

“Vamos para o mercado negro, lá ele está disponível para nós. Temos documentos italianos mas não há trabalho ali. Se estivesse autorizado a trabalhar no espaço Schengen não quereria ir para o Reino Unido”, diz um imigrante.

A política de migração na União Europeia é vista, por muitos, como ineficaz e prejudicial, pelo menos para quem foge de uma guerra ou de uma ditadura. Por exemplo, com a Convenção de Dublin, cada Estado-membro da UE pode reenviar emigrantes clandestinos para o país que os acolheu, em primeiro lugar, mas isso não é solução como explica Philippe Wannesson, que trabalha para a associação Passeurs d’hospitalité:

“O primeiro país não acolhe as pessoas, tira as suas impressões digitais. E elas andam num círculo vicioso. São levadas para um lugar, são devolvidas ao país de entrada, que as repatria porque não há condições de acolhimento e não são consideradas como refugiadas. Por isso ficam em situação irregular e alimentam o mercado negro, um pouco por todo o lado.”

De volta a Calais, a Presidente da Câmara diz que a União Europeia não assume as suas responsabilidades. É preciso, segundo ela, impor quotas de migração a todos os Estados-membros e rever, completamente, o Acordo de Schengen e ela quer, acima de tudo, que o Reino Unido assine o documento:

“Ou estamos na Europa ou estamos fora da Europa. O governo britânico não pode olhar para o que lhe interessa e não olhar, na sua globalidade, para a problemática da Europa”, refere Natacha Bouchart.

Em Calais, as expulsões continuam mas, no novo acampamento, criado pelas autoridades, as condições são melhores. Aqui são distribuídas, diariamente, refeições. Há água e instalações sanitárias e também alojamento, em edifícios prefabricados, para mulheres e crianças. Os homens permanecem em tendas no exterior, uma solução que várias instituições humanitárias consideram inaceitável.

Como muitos outros, este homem está cansado. Ele fugiu ao regime Bashar al-Assad, na Síria. Há dois anos que anda de país em país, na Europa, à medida que vai sendo expulso. Chegou a França há poucos dias. Também ele quer ir para o Reino Unido:

“Não tenho escolha. Desde que estou na Europa, depois de me tirarem as impressões digitais, põem-me na rua. Onde está o lado humano? A lei? Onde estão os Direitos Humanos de que se fala tanto?”

Mas todas as histórias têm vários lados. Para os habitantes de Calais albergar estes imigrantes não é uma questão consensual e, para alguns, a criação do novo campo, para recebê-los, não acaba com o problema nem com os perigos que se colocam, como as tentativas de intrusão:

“Vimos movimento na vedação da nossa casa, eles estavam a cortar a sebe. Entraram pelo jardim do vizinho, cortaram a cerca, e estavam a cortar a madeira. Eles não só estragaram a vedação do vizinho como usaram o jardim como casa de banho”, explica Didier Fosseux, residente de Calais.

A paciência de residentes e comerciantes tem vindo a diminuir desde a destruição do acampamento de Sangatte em 2002:

“As histórias que contam dos seus países são trágicas e não foi por acaso que fugiram. Mas o que é certo é que não podemos carregar toda a miséria do mundo nas nossas costas… a solução, para essas pessoas, é deixá-las partir para Inglaterra”, adianta Fosseux.

Aqui, no ano passado, dezassete pessoas morreram a tentar passar esta fronteira cada vez mais segura. Ainda assim, foi para isso que vieram até aqui e, como acreditam não ter nada a perder, continuam a arriscar:

“Quando ia da Líbia para Itália o nosso barco afundou-se. Morreram cerca de 140 pessoas, mesmo à minha frente. Eu vi-as morrer”, diz um imigrante, outro desabafa:

“Cheguei vivo aqui… mas viver assim… Isto não é vida… É melhor arriscar e morrer.”