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Euronews no coração de protesto do movimento "Extinction Rebellion"

Euronews no coração de protesto do movimento "Extinction Rebellion"
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Oriundos de Colónia, de Bochum, de Dortmund ou de outras cidades, grupos de ativistas climáticos de toda a Alemanha embarcaram no comboio de alta velocidade ICE rumo a Berlim. Ambicionam salvar o mundo porque temem a aproximação do "apocalipse climático." Para isso, elaboraram um plano e um hashtag ( #Berlinblockieren), que deixa implícito um bloqueio na capital alemã. A Euronews juntou-se a um dos grupos principais do movimento "Extinction Rebellion" e acompanhou-o numa ação secreta de desobediência civil com o nome de código "Arca dos Rebeldes.'

Durante a semana intensa de ação climática acompanhámos principalmente Norman Schumann, um matemático e decisor de peso no seio do grupo de protesto. Pediu uma licença de um ano para se dedicar ao movimento "Extinction Rebellion."

"No último verão vi a natureza morrer por causa da vaga de calor. Percebi que o tempo está a esgotar-se. Precisamos de atuar com urgência. Precisamos de agir já", sublinhou Norman Schumann.

O grupo "Extinction Rebellion" não é um conjunto de esquerdistas radicais. Pelo contrário, os elementos fazem parte do centro da sociedade alemã. Alguns votam centro-direita, outros centro-esquerda. Enfermeiros, professores, artistas, carpinteiros, editores e até banqueiros juntaram-se ao movimento.

Tobias faz parte desse grupo e trabalha em desenvolvimento de Tecnologias da Informação. Explicou à Euronews as questões que o movem: "Estou completamente chocado e consternado com a forma como grande parte das pessoas trata o planeta. Ainda nos restam oito anos pela frente antes que seja demasiado tarde para mudar. Acredito que o movimento 'Extinction Rebellion' deve seguir o caminho não-violento, mas radical. Pelo menos devemos tentar salvar alguma coisa."

À chegada à estação central de Berlim, Norman Schumann e o grupo de protesto ficaram na mira da polícia.

Para tornar esta reportagem possível, a Euronews precisou de três meses de troca de mensagens encriptadas. A condição: seguir o grupo de forma secreta, dia e noite.

"Vamos lançar ações de desobediência civil e bloquear Berlim. Vamos bloquear estradas para mostrar o nosso descontentamento com as políticas climáticas. Acusamos o Governo de falta de ação", denunciou Norman Schumann antes do arranque do protesto.

O movimento "Extinction Rebellion" foi fundado no ano passado no Reino Unido e espalhou-se rapidamente pelo mundo inteiro. Na Alemanha, há cerca de cem grupos locais, atualmente.

A semana de protesto em Berlim, que a Euronews acompanhou, também foi apoiada por grupos da Polónia e dos países escandinavos que rumaram à capital alemã para se fazer ouvir.

"Extinction Rebellion": um movimento envolto em secretismo

Fazer parte do círculo interno do movimento "Extinction Rebellion" significa receber primeiro o sinal encriptado para despertar. Norman, Tino, Eva e Bianca, alguns dos ativistas que acompanhámos, escondem-se das patrulhas da polícia.

A Operação "Arca dos Rebeldes" está montada como uma missão secreta. Para evitar a interferência das autoridades, a localização do alvo é revelada às unidades de bloqueio de estradas em cima da hora. Nesta operação a rotunda "Grosser Stern", onde se situa a icónica estátua da Coluna da Vitória, foi o local escolhido.

A Euronews foi o único canal de televisão com acesso garantido para acompanhar um dos principais grupos de ação noturna.

Norman Schumann, uma das figuras de peso do movimento, está entre os elementos prontos para ser detidos, por causa do bloqueio ilegal. Na ação "Arca dos Rebeldes", em Berlim, os ativistas atrasaram a intervenção da polícia para permitir a chegada de estruturas de madeira.

A polícia tentou alcançar o atrelado com as estruturas mas os ativistas protegeram-no. A unidade de bloqueio foi ativada. A cadeia humana alternada com tubos separadores tornou mais difícil para a polícia desbloquear a rotunda. Entre o acorrentados, encontrámos Joergen, que veio da Noruega.

"Esperamos erguer uma arca como símbolo, como uma embarcação que salva as espécies. Tentaremos mas não sei se conseguiremos. Estamos a acorrentar-nos para podermos erguer a estrutura", sublinhou em declarações à Euronews.

Norman Schumann, do movimento "Extinction Rebellion" na Alemanha acrescentou: "O Governo deve declarar imperativamente o estado de emergência climática. Precisamos de uma Assembleia de Cidadãos para ter a mínima possibilidade de gerir as consequências incalculáveis, precipitadas pela crise climática."

No meio do caos, ativistas e polícia cooperam, trocando pontos de vista e fazendo uma análise de risco. Os dois lados ouvem o que cada qual tem a dizer e concordam em estabelecer linhas vermelhas que não devem ser cruzadas.

Enquanto movimentos de protesto como "Fridays for Future" recorrem a cartazes, o movimento "Extinction Rebellion" vai mais longe e apoia-se em ações diretas, contemplando as que não estão a coberto da lei. Mas há um limite: o da não-violência contras as pessoas e coisas. O movimento que cresceu rapidamente baseia-se nas estratégias de resistência pacífica usadas por Mahatma Ghandi, Rosa Parks ou Nelson Mandela.

As ações de protesto podem até parecer divertidas mas não são. O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas alertou que o mundo tem menos de 12 anos para deter o aumento das temperaturas globais para níveis catastróficos, com um milhão de espécies em vias de extinção.

Durante o protesto que acompanhámos, Norman Schumann encontrou a estrela alemã das redes sociais dedicadas à ciência, Volker Quaschning. O professor de energias renováveis fundou o grupo "Cientistas pelo Futuro" e tem um canal no Youtube.

Quaschning insiste que o pacote climático do Governo não responde às necessidades urgentes: "Olhemos para outros países, como por exemplo a Suécia. Têm um imposto sobre as emissões de C02, fixado atualmente nos cem euros por tonelada. É dez vezes superior ao imposto proposto pela Alemanha. E até na Suécia estão atrasados em alcançar as metas de proteção climática."

Uma das principais exigências do movimento "Extinction Rebellion" é a da criação de uma Assembleia de Cidadãos pelo Governo. Esta Assembleia Climática deverá permitir reunir pessoas comuns para fazer recomendações sobre como responder à emergência climática.

A proposta da Assembleia de Cidadãos não é um delírio. Trata-se de uma prática com sucesso em países como a Irlanda, Bélgica ou Polónia. A ideia é atalhar a política partidária e esvaziar a influência do lóbi dos combustíveis fósseis. Na rotunda "Grosser Stern", em Berlim, os manifestantes prepararam uma segunda noite de protestos, acorrentados, ao longo de cinco faixas de rodagem.

Norman Shcumann, um dos rostos do protesto, deixou o emprego como professor de matemática e pediu uma licença. Um ano de uma vida para o movimento é o contributo do ativista, que faz um balanço positivo das atividades: "O dia de hoje foi um sucesso. Continuará a sê-lo. Viemos para ficar. A arca mantém-se de pé. Era esse o nosso plano e a arca continuará. Agora preparamo-nos para a noite. Olhamos para o futuro. Independentemente do que acontecer vamos persistir."

O verdadeiro desafio para o movimento "Extinction Rebellion" é como superar a clivagem política. Apoiantes da esquerda e da direita agem em conjunto quando está em causa a sobrevivência da espécie e do planeta.

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