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Guadiana “oásis de biodiversidade” serve de “trampolim” para atrair turismo

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Pescador no rio Guadiana, junto à vila alentejana de Mértola.  NUNO VEIGA/LUSA
Pescador no rio Guadiana, junto à vila alentejana de Mértola. NUNO VEIGA/LUSA   -   Direitos de autor  © 2020 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.   -   NUNO VEIGA
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Serpenteando desde Espanha até Portugal, o Guadiana espelha séculos de história dos territórios transfronteiriços, vividos ao sabor da corrente de água doce. Hoje, pretende-se preservar e valorizar o rio, um “oásis de biodiversidade”, potenciando o turismo.

Debruçada sobre a margem direita do Guadiana, a vila raiana portuguesa de Mértola, no distrito de Beja, surge como “epicentro” do projeto Valagua - Valorização Ambiental e Gestão Integrada da Água e dos Habitats no Baixo Guadiana Transfronteiriço, em curso desde meados de 2017 e cofinanciado pelo programa de cooperação transfronteiriça Interreg VA Espanha-Portugal (POCTEP).

Num investimento total de cerca de um milhão de euros, a iniciativa envolve cinco municípios de Portugal e 10 de Espanha. A coordenação está a cargo da Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM).

“Esta massa de água é extremamente importante para o desenvolvimento deste território, nos seus diferentes usos”, diz o presidente da ADPM, Jorge Revez, destacando a necessidade de uma constante articulação de quem intervém na bacia hidrográfica em Portugal e em Espanha, inclusive decisores políticos.

Enquanto um rebanho de ovelhas percorre a margem esquerda do rio, um pescador prepara o isco numa pequena embarcação e um jovem pratica canoagem. É com este cenário, no alto da vila, que Jorge Revez explica à Lusa as problemáticas inerentes a este imenso curso de água: a poluição causada por nitratos de origem agrícola e a diminuição do caudal devido ao uso exigente deste recurso em algumas culturas, pouco ajustadas às condições ambientais.

Alertando, assim, para os problemas ambientais “complexos” na conservação da biodiversidade, o presidente da ADPM indica que a resposta passa por consensualizar os dados técnicos das universidades com as decisões de caráter mais político. “Este projeto tem esse efeito de juntar à mesma mesa, de uma forma constante, esses diferentes ‘stakeholders’ que intervêm no rio”, refere.

Com intervenção em oito espaços naturais classificados a nível europeu, no âmbito da Rede Natura 2000, dos quais cinco em Espanha e três em Portugal, inclusive o Parque Natural do Vale do Guadiana, o Valagua pretende que a massa de água entre Mértola e Vila Real de Santo António, que é navegável, possa servir de “trampolim para um processo de desenvolvimento do interior” - no Baixo Alentejo e no Algarve, no caso de Portugal.

A cerca de 25 quilómetros do centro histórico de Mértola, mas ainda no mesmo concelho, na freguesia de Corte do Pinto, o barranco dos Alcaides foi um dos pontos de intervenção do projeto, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, para salvaguarda do saramugo, um dos peixes de água doce mais ameaçados da Europa.

“O saramugo é como uma espécie emblema para a conservação dos ecossistemas ribeirinhos”, avança Ana Cristina Cardoso, bióloga do instituto. Uma das ameaças tem a ver com o acesso do gado à água, porque é parqueado, limitado a uma área, e exerce “uma maior pressão sobre o recurso hídrico que atravessa a zona de parqueamento”, em vez do que acontecia antigamente, quando se fazia exploração de forma mais extensiva.

Antes do Valagua, cerca de 400 cabeças de gado passavam e pastoreavam todos os dias durante a época de estio neste barranco. Hoje, no âmbito de sensibilização com os exploradores agropecuários, houve um pastor que se disponibilizou para alterar o seu comportamento em benefício da conservação da natureza. Foi uma mais-valia, mas o desafio, agora, passa por ultrapassar a resistência à mudança de outras pessoas.

“Não estamos a falar de o gado ir beber e depois voltar. Estamos a falar da presença do gado contínua, que é um problema geral a nível da bacia do Guadiana”, afirma a bióloga.

Com a requalificação fluvial do barranco dos Alcaides tentou-se “demonstrar que é possível compatibilizar as duas coisas, é possível que as pessoas desenvolvam a sua exploração pecuária, mas tendo em conta a preservação da linha de água e do ecossistema ribeirinho, tudo aquilo que está por trás”.

Com o som da água a atravessar este pequeno curso, num dia solarengo de inverno, Ana Cristina Cardoso conta que a atual imagem da água a correr em contínuo é muito diferente do que acontece no verão - a seca reduz o cenário “a uma poça de água, a um pego, e não há escorrência de água”.

Acelerando a recuperação do ecossistema, o Instituto da Conservação da Natureza colocou uma vedação nas duas margens do barranco e fez plantações com espécies de vegetação ribeirinha, com estacas de salgueiros e de freixo. Os resultados já são visíveis, “nota-se já que, em termos arbustivos, há uma cobertura de juncos e de bunho que cobrem agora o solo e a margem, coisa que não acontecia antes”.

A ideia é ensombrar os pegos, para que se diminua a evaporação, mantendo a massa de água, e para que se estabilize a temperatura da água, que é importante para a qualidade e para os seres vivos presentes nestes habitats, “naquela Arca de Noé, naquele oásis de biodiversidade”, realça a bióloga. A recuperação da vegetação vai criar maior nichos ecológicos e uma maior possibilidade de desenvolvimento de mais macroinvertebrados, que é a alimentação dos peixes.

O barranco dos Alcaides - onde foi instalado um parque de merendas e um painel informativo para facilitar a sensibilização da população para esta intervenção de cerca de dois quilómetros e que abrange três pegos - beneficia “toda a biodiversidade que está nesta poça de água”, desde amêijoas de água doce a libélulas e libelinhas.

“Quer a nível de macroinvertebrados, quer a nível de libélulas, existem mesmo espécies que estão identificadas como bioindicadores da boa qualidade das ribeiras e o facto de elas aparecerem indiciam que estamos a trabalhar num bom sentido”, sublinha Ana Cristina Cardoso.

Deixando o Alentejo para trás, rumo ao sul de Portugal, num trajeto de perto de 40 quilómetros, em que a serra toma o lugar da planície, Alcoutim (distrito de Faro) destaca-se por ter o Guadiana, ternamente apelidado de Grande Rio do Sul, a delimitar a fronteira com Espanha.

Esta barreira administrativa é facilmente ultrapassada em menos de cinco minutos de barco, numa espécie de táxi flutuante em águas doces. De Alcoutim chega-se até Sanlúcar de Guadiana, município raiano espanhol na província de Huelva, comunidade autónoma da Andaluzia. Noutros tempos, esta travessia era usada para contrabando de produtos entre os dois países.

Parceira no projeto Valagua, a Diputación de Huelva desenvolveu diferentes intervenções em toda a área do Baixo Guadiana, inclusive no ponto mais alto de Sanlúcar de Guadiana. Conservando dois antigos moinhos, neste espaço surgiu um miradouro com vista para Alcoutim, permitindo contemplar o rio, assim como observar as estrelas, através de um planisfério celeste, neste que é um dos pontos de certificação Starlight.

Há também um miradouro em San Silvestre de Guzmán. Outras das intervenções na província foram o equipamento de dois centros de visitantes, um em Puebla de Guzmán, com uma exposição sobre água, e outro em Puerto de La Laja.

Para uma gestão integrada do rio, foram realizados estudos pelas universidades de Huelva e do Algarve sobre a qualidade e o estado das águas de todo o Baixo Guadiana, bem como “um inventário de todos os recursos turísticos” e dos habitats naturais mais relevantes.

“Tivemos muito presente o que é a água, porque tem sido o motor e o eixo condutor do projeto, mas também o turismo. Isso explica a criação destes espaços e a dotação desses equipamentos”, refere Rocío García Mora, técnica do Valagua na província de Huelva.

Entre o casario branco, a pequena vila de Sanlúcar de Guadiana, com cerca de 400 habitantes, dos quais metade estrangeiros, quer deixar de ser “uma zona que, muitas vezes, é desconhecida” e transformar-se num refúgio capaz de atrair visitantes sem descurar o ambiente.

No regresso, parte-se até Castro Marim, também no distrito de Faro, num percurso de 40 quilómetros de estrada, para visitar a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, outro local alvo de intervenção.

Em representação da Odiana – Associação para o Desenvolvimento do Baixo Guadiana, Filomena Sintra enaltece a reserva como “maior ativo biológico” do Algarve, onde foi feita a requalificação dos percursos, com novos painéis informativos e nova sinalética.

Com vista para as salinas de Castro Marim, o Sapal de Venta Moinhos é um dos principais percursos, dependente do “grande ouro que é a água”. Entre os trajetos disponíveis, prevê-se a instalação de observatórios de aves – afinal, “isto é uma das reservas do país que tem mais avifauna, em número e em espécie”, com um número crescente de visitas.

“Portugal olhou para o rio, durante séculos, como uma fronteira, só que este rio é aquilo que nos distingue, é aquilo que nos une ao outro lado de Espanha. A natureza não tem estas barreiras administrativas e devíamos ter aprendido, há muito mais tempo, a valorizar e a centrar o nosso desenvolvimento para com o rio”, defende Filomena Sintra.

Rejeitando um turismo de massa, esta reserva natural quer proporcionar uma experiência diferenciada, com o visitante como “guardião” do território.

“Queremos pessoas que apreciem, valorizem e que nos ajudem a contribuir para a manutenção deste ativo, que está aqui há milénios e queremos deixar para outros milénios”, ressalva a representante.

Acompanhando a viagem aos vários pontos intervencionados, Rogério Cangarato, da ADPM, insiste na valorização do binómio água-biodiversidade, valores naturais que podem “contribuir para o desenvolvimento regional, local, a vários níveis”.

“Atualmente, estamos a ter evidências de que o recurso é escasso, portanto, como qualquer recurso escasso tem de ser gerido de forma sustentável, de forma a viabilizar os vários usos: para as populações urbanas, depois nos vários setores da economia, como a agricultura ou o próprio turismo, que é fundamental para o desenvolvimento desta região”, declara.

Com um total de mais de 860 quilómetros, desde as lagoas de Ruidera, em Espanha, o Guadiana começa a avistar a foz a partir de Castro Marim, encaixada entre Vila Real de Santo António e Ayamonte, com o Atlântico já de braços abertos à espera do velho Ouadiana.