Portugal acolhe durante três semanas 15 mães e 18 crianças, familiares de soldados ucranianos falecidos ou desaparecidos em combate, para dar-lhes "uma experiência de normalidade". Iniciativa foi coordenada pela associação de apoio à Ucrânia HelpUA.PT e contou com o apoio do Governo português.
Um grupo de 15 mães e 18 crianças ucranianas, familiares de soldados falecidos ou desaparecidos em combate, aterraram no aeroporto de Lisboa pouco depois das 16h00 de sábado. Chegaram a solo português de malas e bagagens para três semanas de paz.
A iniciativa é da associação de apoio à Ucrânia HelpUA.PT - Ukrainian Refugees UAPT, no âmbito do Programa Europeu de Apoio Psicológico e Cultural a Famílias em Guerra, para um "programa intensivo de reabilitação psicológica, integração cultural e formação pessoal" e sob o "acompanhamento permanente de psicólogos, terapeutas e voluntários portugueses e ucranianos".
A aventura começou em solo ucraniano. O grupo, que inclui crianças entre os cinco e os 14 anos, chega da região de Chernihivska, no norte da Ucrânia, perto da fronteira com a Rússia, onde o conflito se adensa.
Viajaram por terra até à Polónia e, de Varsóvia, apanharam o voo para Lisboa.
"Foram 20 horas de autocarro. Só conseguimos chegar à fronteira porque a polícia militar ucraniana escoltou o autocarro e limpou as estradas que estavam fechadas", explicou Ângelo Neto, vice-presidente da HelpUA.PT.
O grupo chega para passar três semanas de tranquilidade, entre atividades de reabilitação, cívicas e culturais. "Queremos muito que estas crianças possam ter, durante este período em que aqui estão, a paz", explica Rita Júdice, ministra da Justiça, que esteve no aeroporto em representação do Governo.
"Ter uma experiência de normalidade, porque muitos deles, entre os seis e os quatorze anos, não têm outra memória senão a da guerra. E, por isso, poder dar-lhes a experiência de uma normalidade, em que eles possam ser crianças, em que eles possam ser mães e avó — há uma avó também —, será o que Portugal poderá, nesta fase, fazer por este grupo que aqui está", explicou a ministra aos jornalistas.
"Enquanto ministra da Justiça, não posso deixar de sublinhar que este acolhimento também é uma afirmação de valores, pois a justiça não se esgota nos tribunais. A justiça também se vive na defesa dos direitos humanos, na proteção dos mais vulneráveis e na não normalização da violência sobre qualquer pessoa, principalmente sobre as crianças."
Rita Júdice reforçou que se trata de uma iniciativa da sociedade civil "notável," lembrando, no entanto, que "o Governo português mantém um apoio firme e contínuo à Ucrânia, quer no plano humanitário, quer no plano político e também no plano internacional".
"A bravura corre-lhes no sangue"
Teresa Leal Coelho, embaixadora da associação responsável e antiga deputada social-democrata, que viajou com o grupo deste a Ucrânia, explica que estas famílias são oriundas de cidades fortemente atingidas pela guerra, mas que querem manter os laços com os locais onde vivem.
"A bravura corre-lhes no sangue. É impressionante como eles vivem com resiliência. Neste momento, muitas destas cidades têm recolher obrigatório", explica aos jornalistas.
"São pessoas que não querem sair da região onde vivem, querem manter os laços na região em que vivem, continuam com uma vida normal, apesar da guerra, apesar de passarem muitas noites em bunkers. A verdade é que, de manhã, as escolas e as empresas abrem e as pessoas saem para a rua, apanham o transporte público e vão à igreja."
O grupo de mães e crianças que chega agora a Portugal foi meticulosamente selecionado pelo Ministério da Defesa da Ucrânia. "Naturalmente, não podemos ser nós a escolher. Não conhecemos todas as realidades, mas, neste caso, o pedido do Ministério da Defesa da Ucrânia foi optar por famílias de uma região mais fustigada pela guerra", explicou Teresa Leal Coelho.
Durante três semanas, estas crianças vão ficar hospedadas no centro Fénix, em Ourém, que, em 2024, recebeu um grupo de combatentes e feridos de guerra para reabilitação. Depois, regressarão à sua vida normal, como é, aliás, a sua vontade.
"Vão regressar às suas terras e cidades natais e continuar as suas vidas", indica a embaixadora da organização. "Devo dizer que outras iniciativas que tivemos, por exemplo, um centro de refugiadas que foi criado inicialmente para receber crianças e mães, onde estiveram integrados durante oito meses e meio, ao fim de algum tempo, todas diziam: 'não, nós queremos voltar, queremos estar com os nossos maridos, com os nossos pais, queremos saber o que se passa'. E, portanto, é o que eu digo: a bravura corre-lhes no sangue e estão a defender a nossa liberdade e a nossa Europa."
Ângelo Neto, vice-presidente da HelpUA.PT e responsável pelo centro Fénix, salienta a importância do projeto para a reabilitação destas pessoas que chegam agora a Portugal, sendo que o objetivo é continuar.
"Estamos a falar de quase um milhão de mães em situação de vulnerabilidade na Ucrânia. Este projeto iniciou-se no Reino Unido, que recebeu 400 famílias durante 2025, e eu espero, em nome de Portugal, superarmos as 500", afirmou.