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"É importante relançar o sonho europeu depois de Donald Trump"

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"É importante relançar o sonho europeu depois de Donald Trump"
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Os Estados Unidos levam a cabo um processo eleitoral bastante polarizado e a União Europeia tem boas razões para esperar que o novo governo norte-americano queira reanimar as problemáticas relações transatlânticas. A euronews falou sobre este tema com Enrico Letta, presidente do Instituto Jacques Delors (IJD) e ex-primeiro-ministro de Itália.

Efi Koutsokosta/euronews: O mundo inteiro está a assistir a este processo eleitoral sem precedentes nos Estados Unidos. O que pensa sobre esse processo a partir de um ponto de vista europeu?

Enrico Letta/presidente do IJD: O primeiro ponto é que o povo norte-americano está muito dividido e essa divisão vai, provavelmente, durar muito tempo. Em simultâneo, o novo presidente terá, penso eu, um papel importante no restabelecimento de uma relação transatlântica diferente. É óbvio que os últimos quatro anos foram muito complicados a nível transatlântico. Se pensarmos apenas na atual crise, uma das piores de sempre com a pandemia e a recessão pós-pandemia, vemos que, pela primeira vez, estamos a lidar com uma crise sem um discurso transatlântico, sem uma resposta ou reação transatlântica.

Efi Koutsokosta/euronews: Muita da imprensa europeia sugere que a democracia norte-americana está à beira do colapso. É verdade que vemos, pela primeira vez, um presidente que alega que houve fraude eleitoral e que diz, claramente, que não vai aceitar o resultado. Pensa que, de facto, a democracia norte-americana falhou? O que significaria isso para as democracias europeias?

Temos que ponderar algumas ideias sobre como reforçar, restaurar a democracia, como criar novas oportunidades para os cidadãos estarem em contato com a democracia representativa
Enrico Letta
Presidente do Instituto Jacques Delors

Enrico Letta/presidente do IJD: Penso que os problemas do sistema democrático afetam em geral o mundo ocidental, existe um problema tanto na América como na Europa. É por isso que temos que ponderar algumas ideias sobre como reforçar, restaurar a democracia, como criar novas oportunidades para os cidadãos estarem em contato com a democracia representativa, com os líderes, com os parlamentos. O que está a acontecer nos EUA tem, principalmente, a ver com a atitude de Donald Trump, que é inaceitável por muitos motivos. A atitude que tem para com os juízes, para com as regras do Estado de direito, para com as competências do poder local neste momento tão particular é inaceitável. Mas é verdade que metade do povo norte-americano votou nele, mesmo que ele tenha esse comportamento inaceitável. Devo dizer que em muitos países europeus existem comportamentos ou atitudes semelhantes. Portanto, no final das contas, penso que há um problema geral com o sistema democrático nas democracias ocidentais. Penso que devemos ponder a necessidade de fazer mudanças, de criar novas ferramentas para reforçar a democracia na atualidade.

Efi Koutsokosta/euronews: O que está sobretudo em jogo para a Europa? É o comércio, a política sobre o meio ambiente? É a segurança ou mesmo a sua própria unidade?

Tanto a eleição de Trump quanto o Brexit foram importantes em termos de desintegração e de promoção do ideal do Estado-Nação, de que é melhor ter soberania nacional
Enrico Letta
Presidente do Instituto Jacques Delors

Enrico Letta/presidente do IJD: Penso que para a Europa é, atualmente, muito importante relançar o sonho europeu depois de Trump e do Brexit. Em 2016, enfrentámos Trump e Brexit ao mesmo tempo e esses dois desafios foram muito duros para o ideal europeu, para a ideia de integração. Tanto a eleição de Trump quanto o Brexit foram importantes em termos de desintegração e de promoção do ideal do Estado-Nação, de que é melhor ter soberania nacional. Espero, sinceramente, que algo mude neste período que segue. Também estamos no final das negociações do Brexit. Por isso, penso que a União Europeia deve analisar o seu próprio futuro partindo dos seus próprios valores, valorizando a sua própria autonomia estratégica. Penso que o novo discurso tem de partir desta nova autonomia estratégica e o futuro da Europa assenta nos nossos valores e não em discursos relacionados com a nossa relação com os outros.