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"Estado da União": O legado "minado" da política externa dos EUA

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"Estado da União": O legado "minado" da política externa dos EUA
Direitos de autor  Alex Brandon/The Associated Press
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A turbulência política nos EUA após o violento ataque ao Capitólio por uma multidão pró-Trump atingiu um novo pico: Donald Trump é o primeiro presidente a ser alvo duas vezes de um processo de destituição.

A maioria na Câmara dos Representantes, com membros dos dois partidos, votou a favor do processo, acusando Trump de incitar uma insurreição violenta a poucos dias de abandonar o cargo.

O comportamento de Trump também causou fortes reações na Europa. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Luxemburgo, Jean Asselborn, apelidou Trump de "criminoso que deve ser levado a tribunal".

Ao dar-se conta do incómodo europeu, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, cancelou a viagem à Bélgica e ao Luxemburgo no último minuto. A política externa, a poucos dias da tomada de posse de Joe Biden (20 de janeiro) é o tema da entrevista com Ishaan Tharoor, analista de política externa do jornal Washington Post.

Stefan Grobe/euronews: Normalmente, um governo norte-americano com apenas alguns dias para terminar o mandato não deveria levar a cabo muita atividade na política externa. Mas não é o caso de Donald Trump e de Mike Pompeo. Num artigo de opinião, o senhor acusou-os de “vandalismo diplomático”. Diga-nos o que se passa.

Ishaan Tharoor/analista no Washington Post: Vimos o secretário de Estado Pompeo levar a cabo um avalanche de atividades, tendo o Departamento de Estado feito uma série de ações significativas: classificaram os Houthis do Iémen de organização terrorista, voltaram a colocar Cuba na lista de estados que patrocinam terrorismo, fizeram algumas declarações e ações bastante provocadoras sobre Taiwan e assim por diante. O que fizeram, essencialmente, foi colocar uma espécie de minas terrestres políticas para o próximo governo de Joe Biden manobrar quando estabelecer a sua própria agenda.

Stefan Grobe/euronews: Mas é algo importante neste momento? Joe Biden não pode reverter tudo isso imediatamente?

Ishaan Tharoor/analista no Washington Post: Não, Biden não pode reverter imediatamente o curso de algumas dessas decisões. As classificações feitas pelo Departamento de Estado podem ser revistas ou anuladas, mas todas exigem um certo grau de ação processual para o efetuar. Por exemplo, no particular no caso dos Houthis no Iémen, a decisão realmente complica os esforços das organizações humanitárias que ajudam esse país devastado pela fome e por doenças. Noutras frentes, essencialmente veremos que os esforços de Biden para voltar atrás nessas decisões terão custos políticos para Washington.

Stefan Grobe/euronews: A maioria dos líderes na Europa e noutras regiões estão aliviados por Biden tomar posse na próxima semana. Mas existe um legado duradouro da política externa de Trump?

Ishaan Tharoor/analista no Washington Post: Essa é uma boa pergunta, porque a política externa de Trump tem sido muito dispersa, perturbadora, muitas vezes revelando falta de efetiva estratégia, -como foi o caso das guerras comerciais e de tweets furiosos -, que por vezes é difícil perceber qual era o objetivo final. Biden promete restaurar a liderança norte-americana no cenário mundial, mas os eventos das últimas semanas, o facto de tantos funcionários e políticos republicanos manterem o apoio a Trump e o facto de muitos milhões de norte-americanos apoiarem uma espécie de subversão das normas democráticas, dá aos líderes europeus bons motivos para desconfiarem de que se vai passar nos EUA, dada a volatilidade existente em Washington.

Stefan Grobe/euronews: Qual será a primeira prioridade da política externa de Biden a partir da próxima quarta-feira?

Ishaan Tharoor/analista no Washington Post: Penso que o grande projeto para Biden terá que ser as alterações climáticas. Nos últimos cinco anos, com a campanha de Trump seguida de quatro anos de mandato, houve um recuo enorme dos EUA na liderança da política de ação climática. E no que diz respeito a um legado, algo com o qual Biden se preocupa, o presidente tentará galvanizar as pessoas novamente sobre a necessidade de ação climática e tornará os EUA uma parte central desse processo.