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Antivacinas. O contágio de opiniões contra o sistema de saúde pública

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De  Julian GOMEZ  & Euronews
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Antivacinas. O contágio de opiniões contra o sistema de saúde pública
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As campanhas de vacinação contra a covid-19 estão em marcha na Europa. Mas, à medida que cada vez mais pessoas são inoculadas, também as campanhas antivacinas proliferam. A desconfiança, ou mesmo a oposição às vacinas surgem um pouco por toda a parte; dentro da União Europeia, o fenómeno é sobretudo evidente na Polónia e em França.

Quando, em junho de 2020, foi perguntado em vários países se os cidadãos tomariam a vacina contra a covid-19, assim que estivesse disponível, 41,11% dos franceses manifestaram ter pouca confiança na eficácia e segurança das vacinas.

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Confiança numa vacina contra a covid-19Unreported Europe/EURONEWS

A desconfiança é histórica e, de acordo com a fundação Wellcome Global Monitor, partilhada por todos os géneros, origens e estatuto sociofamiliar.

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Perceção da segurança das vacinas em FrançaUnreported Europe/EURONEWS

A dúvida latente na sociedade está a ser capitalizada por campanhas antivacinação. Entre os participantes, há quem tente ganhar influência política ou social, outros procuram formas de lucrar com ligações a lóbis da medicina, gurus da saúde ou mesmo ao mercado vegano.

Teorias da conspiração e radicalização de opiniões

Numa sala escura, em frente ao computador, ouvimos o testemunho de alguém contra as vacinas e com cerca de 125 mil seguidores em plataformas de redes sociais. Só aceita falar sob a condição de anonimato, porque diz ter recebido ameaças de morte. Acredita estar a ser seguido pela indústria farmacêutica, por causa das opiniões que partilha.

"Algumas vacinas do Bill Gates criaram grandes pandemias em certos países, como a Índia, para onde ele levou a vacina, penso eu, da poliomielite. 450 mil crianças foram lá vacinadas contra a poliomielite. E isso levou, mesmo em outros países, como o Quénia, à esterilização de vários milhares de jovens mulheres", afirma.

Quando questionado sobre a existência de provas do que diz, responde que "o próprio Bill Gates disse numa conferência TEDEX e noutros sítios que a vacinação em África estava a fazer um trabalho muito bom no despovoamento".

Uma pessoa contra as vacinas é tradicionalmente alguém preocupado com a própria saúde, a saúde dos filhos. (...) Não se trata de inventar histórias sobre vírus ou vacinas criadas em Marte para exterminar metade da população
Laurent-Henri Vignaud
Historiador

Os pontos de vista sem fundamento científico deste professor de dança de 62 anos são amplamente partilhados pelos extremistas antivacinas. Nas conversas, são recorrentes frases antissemitas, conspirações sobre a francomaçonaria, satanismo, a cabala, o grande capital e as farmacêuticas.

"Existe uma empresa, chamada Moderna, que recebeu investimentos da Merck; há cinco anos já tinham feito investigação sobre uma vacina contra a covid, isto já em 2015. São cartomantes? Será que conhecem o futuro? Acabo de descobrir a covid, tal como vocês. O mesmo acontece com o coronavírus. Mas outras pessoas já tinham feito investigação sobre esta vacina. Até o Pasteur já tinha registado patentes sobre o coronavírus e sobre a covid", diz o professor de dança.

Louis Pasteur, pioneiro francês da vacinação, não registou qualquer patente para uma vacina contra a covid-19.

A radicalização de opiniões, sobretudo durante a atual pandemia, está a aumentar. O fenómeno é confirmado por Laurent-Henri Vignaud , historiador e coautor de "Antivax : la résistance aux vaccins du XVIIIe siècle à nos jours", um livro sobre a história dos movimentos antivacinas.

"Vimos que os teóricos da conspiração assimilaram completamente a mensagem anti-vacinas. Uma pessoa contra as vacinas é tradicionalmente alguém preocupado com a própria saúde, a saúde dos filhos; que não quer nenhum produto químico injetado nos seus filhos. Não se trata de inventar histórias sobre vírus ou vacinas criadas em Marte para exterminar metade da população", afirma.

As vacinas são uma fraude
Marie Werbrègue
Coordenadora de campanha antivacinação

À parte os teóricos da conspiração, Vignaud diferencia claramente os hesitantes dos verdadeiros antivacinas, com perfis profundamente enraizados na História.

"Primeiro há o argumento fatalista e religioso, em que as pessoas dizem 'não queremos uma vacina, porque Deus decidiu que devemos estar doentes, e não se pode ir contra a vontade divina'. Depois temos os argumentos altercientíficos; pessoas que acham que o vírus não é perigoso. Há também argumentos naturalistas: 'temos de deixar a Natureza agir'. E depois há um quarto argumento, que é político; pessoas que são totalmente contra o facto de o Estado as obrigar a tomar um medicamento".

Efeitos secundários

Um dos movimentos antivacinas mais ativos em França é coordenado a partir de uma pequena aldeia com uma população de 120 habitantes.

Marie Werbrègue lidera uma campanha antivacinação por estar convencida de que a filha, assim como muitas outras crianças, desenvolveu traços de autismo, após ter sido inoculada com um cocktail de algumas das 11 vacinas atualmente obrigatórias no país.

A ciência nega esta associação, mas Marie mantém-se convicta de que "as vacinas são uma fraude" e de que "as pessoas se estão lentamente a aperceber de que foram apanhadas numa armadilha".

A gravidade da acusação não a demove. "É um produto que não funciona, com efeitos secundários. Mesmo que se leve uma vacina, é possível desenvolver a doença. Não há ninguém para ajudar no serviço pós-venda".

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Marie Werbrègue alega, sem provas, que a filha desenvolveu autismo devido a vacinasUnreported Europe/EURONEWS

Marie diz ter cerca de 12 mil seguidores nas redes sociais e mostra-se otimista em relação à campanha antivacinação, diz que "é semelhante a outros escândalos no passado, como o do amianto, em que se demorou muito tempo a admitir que havia um problema. O mesmo [aconteceu com] o tabaco, [em que] durante muito tempo ninguém viu qualquer problema. Vai acontecer exatamente o mesmo com a vacinação", acredita.

Ouvir para esclarecer

As linhas que separam os antivacinas convictos de cidadãos hesitantes estão por vezes diluídas.

O sociólogo Jeremy Ward trabalha no campo da hesitação vacínica em França. Para o especialista, a atual situação é em parte explicada pela desconfiança nas autoridades de saúde pública francesas.

"A razão pela qual talvez exista mais hesitação em França do que noutros países é que aqui em França tivemos muito mais debates públicos sobre a segurança das vacinas. Tivemos o debate sobre a segurança da vacina contra a Hepatite B, no final dos anos 90. Depois, em 2009, tivemos o debate sobre a gripe A, depois o HPV (Papilomavírus Humano), os adjuvantes de alumínio, as vacinas polivalentes. Tivemos um debate muito complicado nos últimos dez anos".

Há que ouvir as pessoas e levar a sério as dúvidas que têm. (...) É preciso facultar o acesso aos relatórios sobre os efeitos secundários, ou menos desejáveis".
Jeremy Ward
Sociólogo

Para as autoridades sanitárias francesas reconquistarem a credibilidade e poderem persuadir quem é contra ou tem dúvidas sobra as vacinas, o sociólogo defende que "primeiro há que ouvir as pessoas e levar a sério as dúvidas que têm". A medida pode parecer simples, mas o investigador reconhece que "o primeiro impulso a evitar é ignorar abertamente estas alegações, dizer que isto são ideias de mães histéricas, com todas as implicações sexistas que isso tem".

Ward alerta ainda para "não deixar circular informações falsas sem resposta, mesmo que a resposta seja dizer que o assunto está a ser investigado. E finalmente, [que] é preciso haver comunicação, mas também transparência. É preciso facultar o acesso aos relatórios sobre os efeitos secundários, ou menos desejáveis".

Os especialistas dizem estarem a ser tomadas medidas para haver mais transparência em relação à covid-19. O esforço que pode explicar, em parte, o resultado de sondagens recentes: mais franceses estão agora dispostos a obter a vacina contra a covid-19.