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França depois dos atentados de 2015

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De  Valérie Gauriat
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França depois dos atentados de 2015
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No início de setembro, começou o julgamento dos ataques terroristas que mataram 130 pessoas, em Paris, no dia 13 de Novembro de 2015. Centenas de pessoas vão testemunhar. As experiências das vítimas e dos familiares já ajudaram a reformular a resposta de ajuda e socorro do governo francês em caso de ataques em massa.

"Ainda não curámos esta ferida"

Estelle morreu no ataque à sala de concertos do Bataclan. Tinha 25 anos. A mãe, Marie Bolzer, soube da morte da filha pelo namorado de Estelle. Viajou para a capital com o marido, mas só depois de vários dias de interrogatório é que o casal foi finalmente chamado para identificar o corpo no Instituto Forense de Paris.

Este mês, veio da Bretanha para assistir ao julgamento. Vai testemunhar em outubro e diz que quer contar “o que aconteceu no dia 13 de novembro, mas também o que aconteceu depois, os dias que se seguiram, e os meses, e mesmo os anos”. Diz que esses dias mudaram muitas vidas e que “ainda não curou as feridas”.

A história de Marie é apenas um exemplo das muitas dificuldades que passaram as vítimas dos ataques de 2015. A começar pelos erros de identificação, que levaram algumas famílias para junto de corpos que não eram os dos seus familiares.

Aprender com os erros

Passaram seis anos. Os mecanismos de ajuda e apoio às vítimas de ataques terroristas foram reformulados, desde os cuidados imediatos até ao acompanhamento a longo prazo. O hospital Pitié-Salpétrière retirou lições dos erros do passado.

Mathieu Raux, o chefe dos Cuidados Intensivos do hospital, coordenou a entrada de dezenas de feridos na noite de 13 de Novembro de 2015. A formação do pessoal médico em medicina de guerra e gestão de crises, novos sistemas informáticos, e uma unidade dedicada à identificação de vítimas são algumas das formas através das quais o hospital reforçou a preparação para potenciais ataques em massa.

Mathieu Raux garante que hospital tem, agora, uma melhor capacidade de identificar vítimas e de cuidar delas, principalmente no que diz respeito ao apoio psicológico. Existe também uma melhor capacidade de acompanhar os familiares das vítimas, quer dentro do hospital, quer nos seus esforços para os encontrar. “E também aprendemos a apoiar melhor o nosso pessoal, porque eles também foram vítimas de uma forma de trauma”, sublinha o médico.

Resposta do governo

Uma Delegação Interministerial, com a supervisão do Ministério da Justiça, foi criada para coordenar as políticas públicas na área do Apoio à Vítima. O objetivo é melhorar o apoio e o acompanhamento a longo prazo, particularmente em relação ao apoio psicológico, compensações e regresso ao trabalho. Foram também implementadas novas ferramentas, geridas pelo Ministério do Interior, serviços de emergência e hospitais.

Frédérique Calandra coordena esta delegação e conta que em 2018 foram criados o Sinus e o Sivic, dois dispositivos informáticos digitais de identificação de vítimas que limitarão erros, duplicações e alertas falsos. Recentemente, foi publicado um decreto sobre a criação do SIVAC, o sistema de informação interministerial para vítimas de terrorismo e catástrofes. “Existem 11 administrações diferentes e pelo menos sete ministérios que podem estar envolvidos na gestão destes ataques em massa, ou desastres naturais, ou qualquer acontecimento extremamente grave que envolva muitas vítimas", destaca Frédérique Calandra.

Outra novidade é uma unidade de crise que pode ser ativada pelo primeiro-ministro ou pelo Ministério do Interior em caso de ataque, catástrofe natural ou acidente grave de qualquer tipo. Yves Hocde, o vice-diretor para a preparação e gestão de crises do Ministério do Interior francês, destaca a equipa que atende chamadas telefónicas para responder às várias pessoas que podem ser familiares de vítimas ou vítimas. “Temos um sistema que nos permite ter mais de 50 pessoas que respondem imediatamente, e se o número de chamadas o justificar, aumentamos o número com a Cruz Vermelha”, explica.

"Virar a página"

Arthur Dénouveaux é um dos sobreviventes do ataque ao Bataclan e presidente da “Life for Paris”, uma associação de vítimas dos ataques de 13 de novembro. Associação luta por "um melhor reconhecimento do estatuto das vítimas dos ataques terroristas, para facilitar os procedimentos em termos de indemnização, reembolso das despesas médicas e de cuidados psicológicos". Arthur vai testemunhar no julgamento e diz que com essa escolha pode virar uma página e deixar de lado o “rótulo de vítima“.

Para Jean Pierre Albertini, pai de Stéphane, morto no Bataclan, as verdadeiras questões residem noutro lugar. No livro "Mourir au Bataclan", que escreveu em homenagem ao filho, questiona as ações escolhidas para combater o "Islão radical". Diz que "há uma medalha para as vítimas do terrorismo e que o Estado admite ter chegado a um impasse”.

Desde 2017, várias dezenas de ataques jihadistas foram travados em França e em toda a Europa. Os analistas dizem que é o resultado dos esforços feitos depois do fracasso nos atentados de 2015, levados a cabo por indivíduos conhecidos dos serviços de inteligência europeus.

Jean-Charles Brisard, presidente do Centro de Análise do Terrorismo, diz que há uma melhor cooperação entre Estados e que "isso é muito importante para o futuro". Defende que as organizações terroristas têm sido consideravelmente enfraquecidas pelas ofensivas militares e que "o risco é hoje muito menor do que o risco da ameaça endógena".

Esta ameaça coloca os serviços de inteligência nacionais na linha da frente. Em França, duplicaram em número desde 2015.