Foi um Oscar atrás do outro para "Batalha Atrás de Batalha", de Paul Thomas Anderson, que saiu vitorioso com 6 prémios – enquanto "Pecadores", o filme com mais nomeações para os Óscares na história da Academia, conquistou 4. Eis tudo o que precisa de saber sobre a cerimónia de entrega de prémios.
A 98.ª edição dos Óscares já deu a conhecer o seu veredito e a temporada de prémios termina com "Batalha Atrás de Batalha" a arrecadar o principal prémio da noite.
O filme conquistou um total de seis Óscares (em 13 nomeações) e superou o principal concorrente, "Pecadores", para vencer o Óscar de Melhor Filme.
A comédia dramática com forte carga política de Paul Thomas Anderson, que liderou a nossa lista dos melhores filmes de 2025, junta-se assim a "All About Eve", "O Padrinho: Parte II" e "Estado de Guerra" no clube dos filmes que levam para casa seis Óscares.
Na nossa crítica a "Batalha atrás de Batalha", escrevemos: "Reconforta ver que ainda há estúdios dispostos a dar liberdade criativa e a financiar um cinema tão ousado e divertido – que, no papel, pode soar a autêntica loucura. Por isso, viva la Revolución, abaixo os Christmas Adventurers e venha daí a temporada de prémios. Apostamos que 'Batalha Atrás de Batalha' vai passar por cima de tudo a caminho da glória nos Óscares, com os votantes a reconhecerem que este novo clássico de PTA [Paul Thomas Anderson] merece todos os troféus."
Custa pouco admitir que tínhamos razão.
Paul Thomas Anderson conquistou o primeiro Óscar de Melhor Realização (sim, nunca tinha vencido – nem sequer pela sequência de filmes aclamados pela crítica como "Haverá Sangue", "O Mentor", "Linha Fantasma"...), bem como o de Melhor Argumento Adaptado.
Visivelmente emocionado, Paul Thomas Anderson agradeceu à mulher, Maya Rudolph, e contou que escreveu o filme a pensar nos filhos. "Escrevi este filme para os meus miúdos, para lhes pedir desculpa pela confusão doméstica, pela desarrumação deste mundo que lhes estamos a deixar." Depois, disse esperar que a geração deles consiga redimir os pecados da nossa.
O filme venceu ainda Melhor Ator Secundário (já lá vamos), Melhor Montagem e o novo prémio da Academia para Melhor Casting.
O seu principal rival da noite – e, na verdade, ao longo de toda a temporada de prémios –, o filme de terror de vampiros de Ryan Coogler, "Pecadores", fez história ao ser nomeado em 16 categorias, um recorde absoluto. Apesar de não ter correspondido a esse número histórico de nomeações, saiu com quatro Óscares, incluindo Melhor Ator (Michael B. Jordan), Melhor Banda Sonora Original, e Coogler venceu o prémio de Melhor Argumento Original.
Michael B. Jordan agradeceu aos pais pela vitória, naquela que foi provavelmente a corrida ao prémio de Melhor Ator mais renhida dos últimos anos (Timothée Chalamet, "Marty Supreme"; Leonardo DiCaprio, "Batalha Atrás de Batalha"; Wagner Moura, "O Agente Secreto"; e Ethan Hawke, "Blue Moon").
Talvez ainda mais marcante, Autumn Durald Arkapaw, de "Pecadores", venceu o Óscar de Melhor Fotografia – uma vitória histórica, ao tornar-se a primeira mulher a ser distinguida nesta categoria tradicionalmente dominada por homens. É um inédito em 98 anos de Óscares.
Desça para ver a lista completa dos galardoados deste ano – acertámos em 20 de 24 – não que estivéssemos a contar ou a sentir-nos particularmente orgulhosos desse feito ou algo do género...
Como antecipámos (desculpem, voltamos ao tema), Jessie Buckley venceu o Óscar de Melhor Atriz pelo papel em "Hamnet", enquanto Sean Penn foi distinguido como Melhor Ator Secundário pela interpretação assustadora e ao mesmo tempo pateta do coronel Steven J. Lockjaw em "Batalha Atrás de Batalha" – um dos melhores papéis da sua carreira recente. Torna-se o quarto ator a conquistar três Óscares de interpretação (junta-se a Daniel Day-Lewis, Jack Nicholson e Walter Brennan).
Penn, no entanto, não marcou presença (ou escolheu não ir à cerimónia, já que tem faltado a várias entregas de prémios nos últimos tempos)... Ficamos felizes por ele, mas foi uma pena que não tenha aparecido.
Bem menos desapontante foi a vitória na categoria de Melhor Atriz Secundária, que foi para Amy Madigan pelo seu papel de vilã (e instantaneamente icónico) da Tia Gladys em "Hora do Desaparecimento". Foi uma espécie de papel de regresso para Madigan, de 75 anos, que bate o recorde do maior intervalo entre uma primeira nomeação e uma primeira vitória: 40 anos desde a nomeação em 1986 por "Twice in a Lifetime".
A atriz recebeu o prémio com uma gargalhada nervosa e um discurso delicioso, durante o qual admitiu estar "um pouco baralhada [...] Ui, as minhas pernas estão a tremer" e agradeceu ao marido, Ed Harris, por estar ao seu lado "há uma data de anos".
Outro grande vencedor da noite foi "Frankenstein", de Guillermo del Toro, que saiu com três Óscares: Melhor Guarda-Roupa, Melhor Maquilhagem e Cabelos e Melhor Direção Artística.
Noutros resultados, "Marty Supreme", com nove nomeações, saiu de mãos a abanar, tal como o impressionante "O Agente Secreto" e um dos nossos filmes favoritos de 2025, "Sirāt", que infelizmente não levaram qualquer Óscar para o Brasil e para Espanha, respetivamente.
No panorama europeu, Joachim Trier somou impressionantes nove nomeações para "Valor Sentimental" e saiu apenas com um troféu (Melhor Filme Internacional) – falhando o objetivo de se tornar a produção internacional mais premiada de sempre nos Óscares. Ainda assim, "Valor Sentimental" dá a primeira vitória à Noruega nesta categoria.
No discurso de aceitação, Trier citou de forma contundente o escritor e ativista dos direitos civis James Baldwin, lembrando que "nos faz recordar que todos os adultos são responsáveis por todas as crianças – não votemos em políticos que não levem isto verdadeiramente a sério".
Momentos marcantes: o monólogo de Conan e as provocações a Timmy
O hilariante monólogo de abertura de Conan foi precedido por uma paródia em que o apresentador aparecia coberto com a maquilhagem da Tia Gladys, de "Hora do Desaparecimento".
"Pareço a Bette Davis com lúpus", atirou, antes de ser perseguido por crianças ao som de "Sabotage", dos Beastie Boys. Percorreu depois uma montagem de cenas dos filmes nomeados para Melhor Filme (e das Guerreiras do K-Pop) e foi particularmente brilhante.
"Sinto-me honrado por ser o último apresentador humano dos Óscares", disse – uma das muitas piadas sobre a ascensão da IA.
Não faltaram também piadas sobre Donald Trump; o pesadelo que é o sistema de saúde norte-americano; o facto de, pelo menos, os britânicos "prenderem os pedófilos" (mas não terem este ano qualquer ator nas categorias de interpretação); e como a segurança tinha sido especialmente reforçada devido a ameaças das “comunidades do ballet e da ópera” – referência direta à polémica em torno do candidato a Melhor Ator Timothée Chalamet e dos comentários sobre como "já ninguém quer saber" do ballet ou da ópera.
"Esta noite pode tornar-se política — há uma cerimónia alternativa dos Óscares apresentada por Kid Rock", acrescentou, numa alusão ao espetáculo alternativo do movimento MAGA ao Super Bowl.
Terminou com uma nota de esperança sobre a necessidade de abraçar a criação artística global e "a mais rara das qualidades em tempos caóticos e assustadores: o otimismo" – antes de ser apresentado outro sketch sobre como seria se alguma vez ganhasse um Óscar. Incluía Josh Groban a cantar enquanto Conan recebia um Óscar das mãos de uma águia...
Façam dele o apresentador permanente de uma vez por todas.
Boa música e mais um provocação a Timmy
"Pecadores" arrasou com a interpretação de "I Lied To You", interpretada pela estrela do filme, Miles Caton, que atuou ao lado dos cantores Shaboozey e Brittany Howard.
A bailarina Misty Copeland dançou em palco durante a atuação, depois de ter criticado Timothée Chalamet pelas declarações de que já "ninguém quer saber" de ballet e ópera.
Copeland respondeu que Chalamet "não seria ator" sem essas artes, lembrando que tinha sido convidada para integrar a grande campanha promocional do seu filme, "Marty Supreme".
Um raro empate
É uma ocorrência extremamente rara: houve apenas seis empates na votação da Academia na história dos Óscares, e este ano ocorreu o sétimo.
O Óscar de Melhor Curta-Metragem de Ficção foi para "Os Cantores" (Sam A. Davis e Jack Piatt) e para "Two People Exchanging Saliva" (Alexandre Singh e Natalie Musteata). Ambos são fantásticos – não deixe de os ver.
Houve outra menção ao ballet durante o segundo discurso de agradecimento... O Timmy não se safou assim tão facilmente – e, claramente, não se vai safar tão cedo.
E, para quem tiver curiosidade, o último empate tinha acontecido em 2012, em Melhor Edição de Som, para "Skyfall" e "00:30 Hora Negra".
Homenagens comoventes a Rob Reiner, Catherine O’Hara, Diane Keaton e Robert Redford
Num segmento In Memoriam particularmente emotivo, Billy Crystal subiu ao palco para um discurso sentido sobre o realizador Rob Reiner; Rachel McAdams recordou a grande Catherine O’Hara e a muito saudosa Diane Keaton; Barbra Streisand fez uma aparição surpresa e falou da falta que lhe faz o seu "cowboy intelectual" Robert Redford. Cantou depois "The Way We Were" em sua memória.
Jimmy Kimmel vs Trump
Jimmy Kimmel subiu ao palco para entregar os prémios de documentários. Elogiou os nomeados pelo seu trabalho jornalístico destemido, referindo que há locais onde a liberdade de expressão é reprimida.
"Não posso dizer quais", começou por dizer, antes de citar a Coreia do Norte e a rede de televisão norte-americana CBS – que cancelou o programa noturno de Stephen Colbert no ano passado, ao chegar a acordo num processo judicial com Donald Trump.
Ao apresentar o Óscar de Melhor Documentário, Kimmel disse que "ele" ia ficar chateado pelo facto de a mulher não ter sido nomeada – uma alusão óbvia ao fraco documentário da Amazon sobre Melania Trump, "Melania".
Javier Bardem apela à "Palestina livre"
O ator espanhol Javier Bardem coapresentou o Óscar de Melhor Filme Internacional, dizendo: "Não à guerra e liberdade para a Palestina."
Bardem tem sido especialmente vocal em defesa da Palestina nos últimos anos, no contexto da guerra em Gaza.
Do tapete vermelho dos Óscares... para a prisão?
O realizador iraniano Jafar Panahi poderá ter saído de mãos vazias com o impressionante _"_Foi Só Um Acidente", mas a sua presença nos Óscares foi um lembrete duro de que a cerimónia decorria num contexto de turbulência política e guerra.
O filme é um thriller envolvente sobre as consequências da tortura, o preço da vingança e a possibilidade (ou não) de misericórdia. Panahi injeta com mestria humor negro e até elementos de slapstick para criar uma viagem satírica que critica a repressão da República Islâmica e funciona como um comentário intemporal sobre os pecados do despotismo estatal.
O realizador já disse que tenciona regressar ao Irão depois da temporada de prémios e é muito provável que venha a cumprir pena de prisão, uma vez que o cineasta dissidente foi condenado à revelia a um ano de prisão por "atividades de propaganda" contra o governo iraniano, no ano passado, por ter realizado _"_Foi Só Um Acidente".