Algumas das principais empresas europeias reuniram-se em Paris para assinalar o 25.º aniversário do CDP e mostraram como a divulgação da sustentabilidade não beneficia apenas o planeta, mas também os resultados.
Pode-se dizer que o estado de espírito em torno da ação climática e da perda da natureza está um pouco abalado neste momento, sobretudo tendo em conta o cenário turbulento da geopolítica e da economia.
Mas num encontro recente em Paris, no qual se assinalou o 25.º aniversário do CDP, a maior plataforma de divulgação de informação ambiental do mundo, algumas das maiores empresas europeias apresentaram uma visão muito mais positiva, uma que mostra que as empresas europeias que optam por ser líderes da sustentabilidade e da transparência ambiental estão a obter ganhos financeiros avultados.
Transformar a transparência em oportunidade
Mais de 22 mil empresas, e mais de mil cidades a nível mundial, comunicam atualmente os dados que obtêm sobre o impacto ambiental através do CDP, uma ONG criada para colmatar a lacuna da existência de dados sobre o clima e sobre a natureza. De acordo com o estudo mais recente, publicado no "Corporate Health Check" anual, as empresas que transformam a ambição ambiental em ação estão a ganhar uma verdadeira vantagem competitiva.
Os líderes, ou seja, as empresas que obtiveram a pontuação mais elevada entre as organizações sem fins lucrativos a nível global, reduziram as emissões 60 % mais depressa do que os seus pares nos últimos 12 meses, uma mudança que ajudou a desbloquear 67 mil milhões de euros em oportunidades financeiras.
Esther Finidori, diretora de Sustentabilidade da Schneider Electric, afirma que a estratégia de sustentabilidade da empresa e a divulgação ao CDP ajudaram a transformar a empresa.
"Os quadros de divulgação de relatórios como o CDP são, de facto, extremamente valiosos para as empresas e ajudam-nas a avaliar a sua posição. Todos os anos, as perguntas novas ajudam-nos a ambicionar cada vez mais, desafiam-nos e ajudam-nos a melhorar."
Krishna Manda, do Grupo Lenzing, que partilha da mesma opinião, salienta que uma divulgação ambiental melhor atrai mais clientes e investidores e ajuda a abrir novos mercados.
"Porque é que as empresas divulgam informações ambientais", pergunta Sherry Madera, CEO do CDP, acrescentando que "as empresas não fazem esta divulgação para visualizar os dados, mas porque precisam de os utilizar para poderem convencer os clientes de que são as empresas certas para estes clientes, para os manterem no seu ecossistema de investimento. Portanto, não é um fardo, é um benefício e é absolutamente essencial no mundo dos negócios."
Europa em primeiro lugar
O último "Corporate Health Check" do CDP coloca a Europa no primeiro lugar a nível mundial, com 16 % das empresas a atingir o nível de "Líder" no que diz respeito ao clima, logo à frente das empresas da região Ásia-Pacífico, com 15 %, e muito à frente da América Latina e da América do Norte, com 6 % e 5 %, respetivamente.
"Na Europa, temos um número crescente de fundos de pensões cada vez mais exigentes, que nos desafiam a tornarmo-nos mais eficientes na forma como monitorizamos as empresas e a responsabilizá-las pelas estratégias climáticas que seguem. E isto é uma evolução positiva", afirma Stéphane Cadieu, presidente do Conselho de Administração da Arkéa Asset Management.
Atenção ao fosso…
No entanto, a investigação do CDP também destacou um fosso cada vez maior no desempenho ambiental na Europa.
Dos países avaliados, a Espanha (25 %) e a França (24 %) foram os que registaram a maior percentagem de empresas no nível de "Líder" no que diz respeito ao clima, seguidos da Irlanda (22 %), Reino Unido (17 %), Itália (17 %), Países Baixos (17 %) e Alemanha (10 %).
As conclusões do CDP mostram que as empresas líderes da Europa têm várias caraterísticas em comum, incluindo uma governação forte, um planeamento de transição credível alinhado com os 1,5º C e uma ligação direta da remuneração dos executivos aos resultados ambientais.
"As alterações climáticas e a perda de natureza estão a remodelar as estruturas de custos e as cadeias de abastecimento em todos os setores. As empresas que agirem cedo, investirem em estratégias sustentáveis e persistirem apesar da ambiguidade serão as que definirão a próxima fase de resiliência e crescimento económico da Europa", explica Ariane Coulombe, diretora de Mercado do CDP para a região EMEA.
Risco de inação
Muitos dos que se reuniram em Paris deixaram claro que consideram que as alterações climáticas e a perda de natureza estão a alterar rapidamente a forma como as empresas funcionam.
"Todas as empresas que existem dependem da natureza de uma forma ou de outra. Dependem da água, do ar fresco, do ar puro, de um solo saudável, de um solo bom", afirma David Craig, copresidente do Grupo de Trabalho para a Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas com a Natureza (TNFD).
Para muitas empresas, argumenta Craig, o caminho da sustentabilidade começa frequentemente com uma simples pergunta: De que dependemos realmente?
Um controlo mais rigoroso da sustentabilidade implica também uma maior atenção aos potenciais riscos financeiros e operacionais para as empresas, insiste Cadieu. Este facto, por si só, está a obrigar muitas delas a reavaliarem as suas estratégias.
Recompensar as empresas líderes da Europa
Mais de um quarto de século depois, o CDP continua a desempenhar um papel fundamental na condução do progresso para um futuro mais sustentável e o marco de 25 anos foi uma oportunidade para celebrar as empresas mais transparentes do continente através dos "Prémios Europeus", entregues anualmente.
"Se pensarmos nos últimos 25 anos, a divulgação de dados ambientais era algo que não existia de todo", afirmou Sherry Madera, CEO do CDP, ao Euronews. "Nos últimos 25 anos, o CDP tem trabalhado não só com aqueles que estão no ecossistema ambiental, mas também com aqueles que estão no ecossistema financeiro, no ecossistema económico e no ecossistema de decisão política. É algo de que devíamos orgulhar-nos."