Residentes de Rwampara, incendiaram um centro de tratamento temporário de Ébola depois de lhes ter sido recusado o acesso ao corpo de um familiar, que terá morrido devido ao vírus.
Várias pessoas incendiaram um centro de controlo do Ébola localizado em Rwampara, na parte oriental da República Democrática do Congo, a região mais afetada pela epidemia de Ébola em África, contra o protocolo hospitalar em vigor.
Uma família quis reaver o corpo de um parente falecido para organizar as cerimónias fúnebres, mas o hospital recusou, devido ao facto de o cadáver ser altamente contagioso e ter de ser enterrado segundo um protocolo específico.
Os familiares não aceitaram a decisão, incendiaram o hospital de campanha e apedrejaram a equipa médica. Quando a polícia chegou ao local, um colaborador de uma organização humanitária já tinha ficado ferido.
O corpo que a família queria levar acabou por arder numa das tendas incendiadas.
Família diz que jovem não tinha Ébola
O jovem cuja família veio reclamar o corpo era uma figura muito popular na comunidade. Tratava-se de um futebolista talentoso que jogava em várias equipas da região. Segundo os pais, não foi o vírus do Ébola que o matou, mas sim a febre tifóide, pelo que consideravam não existir risco na realização do funeral.
Mas os médicos garantiram que o jovem estava infetado com Ébola e, como os rituais tradicionais de enterro implicam contacto físico, o risco de contágio é extremamente elevado, pelo que não podiam entregar o corpo à família.
População não acredita no Ébola
Segundo um político local, citado pela imprensa britânica, os habitantes das aldeias não acreditam na existência do vírus do Ébola e consideram a doença uma invenção de estrangeiros. Acham que foi criada pelas organizações humanitárias para obterem dinheiro e outros apoios.
O responsável político considera muito difícil informar a população nas zonas pouco povoadas da República Democrática do Congo. As crenças tradicionais são fortes e os costumes continuam a ter um papel central no quotidiano das pessoas.
O hospital que foi atacado fica perto de Bunia, na província de Ituri, a região mais afetada do país africano atingido pelo Ébola.
As autoridades congolesas anunciaram na quinta-feira que se registaram 160 mortes suspeitas e 671 casos suspeitos em duas províncias do Congo. No início da semana, a ONU informou que se registaram dois casos, incluindo uma morte, no vizinho Uganda.
A OMS afirmou que o surto é, quase de certeza, muito mais vasto e já manifestou também a sua preocupação com a rapidez da propagação.
Pandemia global não está em causa
Especialistas em saúde pública sublinham que, embora o atual surto de Ébola esteja a alargar-se rapidamente em África e já tenham sido identificados casos, e até mortes, fora do continente, não se prevê uma pandemia semelhante à provocada pela covid-19.
Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde declarou uma emergência de saúde pública de âmbito internacional.
A OMS dispõe de um protocolo eficaz para travar a propagação do vírus do Ébola e, desde 2019, existe tratamento para a maioria das estirpes do vírus, o que fez cair para cerca de 6 por cento a taxa de mortalidade na maior parte dos casos.
Apesar disso, o Ébola continua a ser considerado um potencial agente de guerra biológica, por estar entre os agentes patogénicos mais rápidos a disseminar-se entre humanos.