Enquanto os Estados Unidos reforçam as medidas em resposta ao mais recente surto de Ébola, o que se passa na Europa? Também vai controlar passageiros nos aeroportos ou mesmo cancelar voos? E quão eficazes são estas medidas?
O mais recente surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC) e no Uganda levou os Estados Unidos a inverterem a sua abordagem habitualmente mais branda às medidas de saúde pública.
Na segunda-feira, foram anunciadas medidas para travar a propagação do vírus, incluindo o rastreio de passageiros aéreos provenientes das regiões afetadas e, nalguns casos, restrições à entrada.
No dia seguinte, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou estar «profundamente preocupado com a dimensão e a rapidez da epidemia». Até que ponto deverão os europeus estar preocupados? E os cidadãos de países com ligações aéreas diretas e regulares a Kinshasa, como a Bélgica?
«A situação na RDC é grave e tem de ser combatida de forma decisiva no terreno. Bruxelas tem, de facto, ligações diretas a Kinshasa, o que justifica vigilância», disse à Euronews um dos principais virologistas belgas, Steven Van Gucht.
Situado no centro da Bélgica, o Aeroporto de Bruxelas é a principal porta de entrada e saída europeia para viagens de e para a RDC.
A Brussels Airlines assegura voos diários (sete por semana) para Kinshasa e a partir da capital congolesa. A companhia não dispõe de números exatos sobre o número de passageiros, mas o Airbus A330 utilizado nesta rota pode transportar cerca de 290 pessoas.
«Ao mesmo tempo, a experiência de surtos anteriores mostra que o risco para a Bélgica e para a Europa é reduzido», acrescentou Van Gucht.
A Brussels Airlines partilha desta avaliação. «Estamos a acompanhar a situação de perto, em linha com os nossos procedimentos habituais. Estamos em contacto com todas as autoridades relevantes e ajustaremos as nossas operações caso tal se revele necessário», disse à Euronews Joëlle Neeb, responsável sénior de Relações com os Media.
«Neste momento, todos os voos decorrem conforme previsto e não estão em vigor medidas de proteção adicionais.» Ainda assim, as tripulações da Brussels Airlines seguem orientações específicas em matéria de saúde e segurança, nomeadamente em situações de doenças infecciosas.
«As nossas tripulações recebem formação neste domínio. Entre outras tarefas, vigiam eventuais sintomas, aplicam medidas de higiene, como a desinfeção regular das mãos, e limitam contactos sempre que necessário. Se for preciso, colaboram também com os serviços médicos e as autoridades de saúde.»
O mais recente surto de Ébola foi declarado emergência de saúde pública de âmbito internacional e já provocou pelo menos 131 mortes e 500 casos.
Eficácia das medidas em causa
O Ébola transmite-se exclusivamente por contacto direto com fluidos corporais de um doente sintomático, e não pelo ar, explicou Van Gucht, o que significa que pode ser relativamente fácil de conter. «É também importante salientar que as pessoas só são contagiosas quando apresentam sintomas, e não antes.»
O período de incubação pode variar entre 2 e 21 dias. Este fator em concreto — o período de incubação — é precisamente o que limita a eficácia da medição da temperatura à chegada, como será feita nos Estados Unidos.
«Um viajante em período de incubação ainda não tem febre e, por isso, não será detetado», referiu Van Gucht.
A mesma ideia é partilhada por Celine Gossner, especialista do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, que disse à Euronews que, nesta fase, o organismo não recomenda medidas de rastreio à entrada na Europa. «O rastreio em aeroportos exige recursos significativos, mas tem eficácia limitada.»
Tanto Gossner como Van Gucht sublinham que o rastreio à saída, nos países afetados, é uma medida mais eficaz. Ainda assim, argumenta Van Gucht, o controlo à entrada pode «funcionar como sistema de alerta precoce e ajudar a manter a confiança do público».
Os Centros Africanos para o Controlo e Prevenção de Doenças (África CDC) afirmaram que «tomam nota» das restrições dos EUA e reconhecem a «responsabilidade de cada governo de proteger a saúde e a segurança da sua população». No entanto, consideram que as restrições às viagens não devem ser usadas como principal instrumento de saúde pública durante surtos.
«A posição da África CDC é clara: restrições generalizadas às viagens e encerramentos de fronteiras não são a solução para os surtos», indicou a agência em comunicado de imprensa.
O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) também não propõe restrições às viagens, ao contrário dos Estados Unidos, que impuseram limitações à entrada de cidadãos sem passaporte norte-americano que tenham viajado para o Uganda, para a República Democrática do Congo (RDC) ou para o Sudão do Sul nos últimos 21 dias.
Van Gucht rejeita igualmente a ideia de proibir voos provenientes dos países afetados em resposta ao surto. «Medidas desse tipo têm pouco benefício do ponto de vista epidemiológico, perturbam a ajuda humanitária e as cadeias de abastecimento e podem levar a que os surtos sejam comunicados com menos rapidez», afirmou.
O mais recente aviso de viagem do Serviço de Segurança do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Bélgica indica que, devido a casos confirmados de Ébola nas províncias de Ituri e Kivu do Norte, todas as deslocações a estas províncias são «fortemente desaconselhadas». O ministério não pode, contudo, proibir oficialmente viagens para um determinado país.
Que está a ser feito?
Van Gucht sublinhou que é fundamental existirem procedimentos claros para lidar com passageiros doentes a bordo e para o rastreio de contactos de outros viajantes caso seja identificado um caso.
Um porta-voz do Aeroporto de Bruxelas garantiu que o aeroporto dispõe desses protocolos. «Se chegar um passageiro infetado com uma doença contagiosa, essa pessoa é evacuada por uma ambulância especializada do hospital militar.»
«Em situações deste tipo, o Aeroporto de Bruxelas toma as medidas necessárias com base nas recomendações do Ministério da Saúde Pública. Até à data, não recebemos quaisquer instruções ou orientações sobre este assunto», acrescentou.
O 'Risk Management Group' do Ministério da Saúde belga não respondeu, até ao fecho desta edição, às perguntas da Euronews sobre que medidas adicionais poderiam ser consideradas para controlar a propagação do vírus para a Bélgica.
Celine Gossner, do ECDC, salientou que, em qualquer caso, os viajantes que regressem de zonas afetadas e desenvolvam sintomas como febre, dor de cabeça ou mal-estar geral nos 21 dias seguintes ao regresso devem procurar rapidamente assistência médica e informar os profissionais de saúde sobre o seu historial de viagens recente.
«Este sistema de alerta precoce é mais importante do que a medição generalizada da temperatura de todos os passageiros à chegada», afirmou Van Gucht.
«A prioridade deve ser manter a vigilância nos nossos sistemas de saúde e apoiar a resposta no terreno», concluiu.
O ECDC está a enviar peritos para a RDC para apoiar a coordenação e o planeamento operacional. A Comissão Europeia ainda não recebeu qualquer pedido de assistência através de nenhum dos seus mecanismos de ajuda internacional, adiantou na terça-feira um porta-voz da Comissão.