Bolton diz à Euronews que os EUA sacrificaram a sua margem estratégica ao dar prioridade à descida do preço do petróleo, enquanto o Irão sai com o acordo que pretendia.
O Irão ultrapassou o presidente dos EUA, Donald Trump nas negociações, conseguindo condições muito mais favoráveis depois de perceber a sua vontade desesperada de alcançar um acordo para pôr fim à guerra, afirmou o antigo conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, à Euronews.
Em declarações ao programa Special Report da Euronews, à margem do G7, Bolton — que aconselhou Trump em questões sensíveis de segurança no primeiro mandato — defendeu que o acordo de princípio favorece o Irão e afirmou que o presidente dos EUA deu prioridade às preocupações económicas em detrimento das considerações estratégicas.
"Têm-no tocado como se fosse um violino", disse Bolton. "É por isso que conseguiram o acordo que queriam".
Bolton disse à Euronews que a principal preocupação de Trump eram os preços da energia e não as implicações geopolíticas do acordo.
"Trump não está a pensar nas implicações geoestratégicas do acordo. Está a pensar numa coisa. Quer o estreito aberto. Quer o petróleo do Golfo nos mercados internacionais. Quer o preço da gasolina nas bombas em baixo. É com isso que se preocupa", afirmou.
Confrontado com a ideia de que isso equivale a trocar a segurança nacional dos Estados Unidos por combustíveis mais baratos, Bolton respondeu: "Julgo que, no essencial, é disso que se trata".
Bolton afirmou que a ausência de um texto publicado do acordo de princípio é motivo de preocupação, defendendo que, em qualquer entendimento, os detalhes contam mais do que os grandes anúncios. Segundo disse, continuam por esclarecer questões-chave sobre o programa de enriquecimento de urânio do Irão, a extensão do levantamento de sanções e a reabertura efetiva do estreito de Ormuz.
"Se fosse um grande acordo, já estaria a ser apresentado publicamente. E penso que isso diz praticamente tudo o que é preciso saber", afirmou.
Rejeitou ainda a afirmação da Casa Branca de que a liderança iraniana mudou de forma fundamental após os ataques norte-americanos e israelitas.
"A mudança de liderança só aconteceu porque matámos as quatro ou cinco centenas de pessoas que estavam no topo do regime e agora ficaram os segundos e adjuntos. Portanto, sim, são pessoas diferentes, mas é o mesmo regime fanático", afirmou Bolton.
Bolton desvalorizou também as garantias iranianas de que não procurará obter armas nucleares.
"O Irão está comprometido a não adquirir armas nucleares há 56 anos, desde que aderiu ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, em 1970. Simplesmente, não leva esse compromisso a sério", afirmou.
Bolton acrescentou que Trump enfraqueceu a margem de manobra de Washington ao aceitar um acordo com um Irão fragilizado, dando a entender que os Estados Unidos não lançarão novos ataques antes das eleições intercalares. Segundo o antigo conselheiro, essa abordagem reflete a prioridade do presidente em manter baixos os preços da energia antes da votação de novembro.
"Isso retira-nos a principal arma, o maior instrumento de pressão que temos sobre o Irão. É a única linguagem que compreenderão", disse Bolton.
Acrescentou que Teerão avaliou com precisão a posição de Trump.
"Ele está desesperado por um acordo. E eles manobraram-no", declarou.
Questionado sobre a possibilidade de uma força naval europeia para ajudar a manter aberto o estreito de Ormuz, Bolton mostrou-se cético.
"Vai ser como uma força de manutenção de paz da ONU que se limita a acenar quando o cessar-fogo é violado? Ninguém respondeu ainda a essa pergunta", afirmou.
Falando na cimeira do G7 em Évian, na segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que os países europeus irão fazer a sua parte para garantir a liberdade de navegação no estreito de Ormuz, embora Trump tenha dado a entender que os EUA não precisarão de "muita ajuda" depois do acordo.
No início da Operação Fúria Épica, Trump criticou os aliados europeus por não contribuírem para aquilo que descreveu como o "pequeno esforço" de reabrir o estreito e manifestou frustração com a falta de apoio da NATO.