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Haiti: Guterres visita país com violência de gangues a crescer e 1,5 milhões de deslocados

Tendas improvisadas enchem um acampamento erguido por pessoas deslocadas das suas casas devido à violência de gangues em Port-au-Prince, 14 de abril de 2025
Tendas improvisadas ocupam um campo montado por pessoas deslocadas das suas casas devido à violência de gangues em Port-au-Prince, 14 de abril de 2025 Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Gavin Blackburn
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A primeira paragem de Guterres foi o quartel-general da nova força de combate aos gangues, aprovada em setembro pelo Conselho de Segurança da ONU.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, esteve esta terça-feira no Haiti, onde a escalada da violência de gangues deixou sem casa mais de uma em cada dez pessoas.

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Novas estatísticas divulgadas pela ONU revelam que, desde o início do ano, 2.300 pessoas foram mortas em todo o Haiti, cerca de 100 foram raptadas e 1,5 milhões encontram-se deslocadas.

A visita de um dia de Guterres a Port-au-Prince ocorre depois de, no fim de semana passado, mais de 30 pessoas terem sido mortas, ficado feridas ou terem desaparecido em Cité Soleil, um bairro de lata à beira-mar, segundo a Cooperative for Peace and Development, uma organização local de direitos humanos.

“A violência dos gangues está a paralisar o Haiti, a sua economia, o sistema de ensino e a distribuição de ajuda. Mas é possível inverter a situação”, escreveu Guterres numa publicação na rede social X.

O seu cortejo passou a alta velocidade por um bairro antes totalmente controlado por gangues, que deixaram para trás stands de automóveis devastados, casas abandonadas e dezenas de edifícios de betão crivados de balas.

Num muro de betão em ruínas lia-se, escrito em graffiti: “Abaixo Viv Ansanm, viva a polícia”.

Viv Ansanm é uma poderosa federação de gangues que o governo dos Estados Unidos classificou como organização terrorista estrangeira e que se estima controlar 70% de Port-au-Prince.

Guterres passou por dezenas de haitianos que fugiram dos confrontos e vivem agora em abrigos improvisados sob grandes lonas esticadas com cordas gastas.

Fazem parte das mais de 300 000 pessoas deslocadas pela violência das gangues em toda Port-au-Prince. Entre elas contam‑se mais de 18.000 que fugiram do bairro de lata de Cité Soleil em maio, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

“A crise de deslocação no Haiti está a entrar numa fase ainda mais alarmante”, afirmou Gregoire Goodstein, chefe de missão da OIM no Haiti, num comunicado recente.

A primeira paragem de Guterres foi o quartel-general da nova força de combate às gangues, aprovada em setembro pelo Conselho de Segurança da ONU.

Vem substituir uma missão apoiada pela ONU e liderada pela polícia queniana, que pretendia ajudar a Polícia Nacional do Haiti no combate às gangues, mas que nunca teve financiamento nem efetivos suficientes.

Secretário-geral da ONU, António Guterres, cumprimenta soldados do Chade numa base em Port-au-Prince, 16 de junho de 2026
Secretário-geral da ONU, António Guterres, cumprimenta soldados do Chade numa base em Port-au-Prince, 16 de junho de 2026 AP Photo

Até agora, a Jamaica, o Chade, El Salvador e a Guatemala enviaram menos de mil militares para integrarem a força em expansão, que deverá iniciar operações nas próximas semanas.

Prevê-se que trabalhem em conjunto com a Polícia Nacional do Haiti e com as Forças Armadas, em crescimento, enquanto centenas de homens haitianos e algumas mulheres se alinham numa estrada poeirenta à espera de serem entrevistados para entrar.

Guterres reuniu depois à porta fechada com o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, sob pressão para organizar eleições num país com quase 12 milhões de habitantes que está sem presidente desde o assassínio de Jovenel Moïse na sua casa, em julho de 2021.

“Tivemos uma conversa franca sobre o que se passa no Haiti, a visão que o governo tem para o futuro”, disse Fils-Aimé após o encontro.

Indicou que a segurança é a prioridade para que o governo de transição possa organizar eleições e “retomar a normalidade republicana”. Fils-Aimé acrescentou que Guterres pode ajudar nesse esforço, garantindo que os países que apoiam a força de combate às gangues “cumprem os seus compromissos”.

Não temos vida aqui

Guterres passou ainda por um abrigo improvisado numa antiga escola, onde dezenas de pessoas ali alojadas se juntaram à sua volta.

Forçados a abandonar as suas casas depois de gangues terem atacado a tiro a comunidade e lhe terem pegado fogo, alguns vivem ali há quase quatro anos.

“Solino ainda não está pronto”, disse Clifford Lala, de 31 anos, sobre o regresso ao seu bairro. Foi uma das últimas zonas de resistência em Port-au-Prince até ser tomada pelas gangues.

Guterres entrou numa sala de aula abafada e reuniu-se em privado com um grupo de seis mulheres, que denunciaram a falta de privacidade no abrigo, até para tomar banho ou ir à casa de banho, e disseram estar preocupadas com os filhos pequenos.

Pessoas deslocadas das suas casas devido a confrontos entre gangues armadas refugiam‑se numa esquadra de polícia em Port-au-Prince, 11 de maio de 2026
Pessoas deslocadas das suas casas devido a confrontos entre gangues armadas refugiam‑se numa esquadra de polícia em Port-au-Prince, 11 de maio de 2026 AP Photo

“Estamos uns em cima dos outros, corpo com corpo, cara com cara”, disse uma mulher.

No abrigo vivem mais de 1.200 pessoas, que dormem lado a lado, e apenas uma refeição por dia está garantida.

“Vamos fazer tudo o que pudermos”, assegurou Guterres às mulheres.

Lá fora, um homem começou a bater no revestimento metálico do edifício e gritou: “Queremos voltar para casa!” A voz foi ficando mais alta e mais zangada à medida que a equipa de segurança entrava na sala e retirava Guterres do local.

Wendy Cejour, de 26 anos, contou à agência Associated Press que vive com a família na escola há um ano e meio.

“Enquanto estivermos vivos temos esperança, mas... as coisas são difíceis”, disse. “Pedimos... para regressar ao nosso bairro e viver melhor, porque aqui não temos vida”.

Primeiro-ministro do Haiti, Alix Didier Fils-Aimé, assiste à tomada de posse do novo governo em Port-au-Prince, 16 de novembro de 2024
Primeiro-ministro do Haiti, Alix Didier Fils-Aimé, assiste à tomada de posse do novo governo em Port-au-Prince, 16 de novembro de 2024 Copyright 2024 The Associated Press. All rights reserved

Um dia antes da visita de Guterres, a Human Rights Watch publicou uma carta a instá‑lo a proteger a população e a atacar as causas profundas da violência e das violações de direitos humanos. A organização apelou ainda ao envio de uma “missão plena da ONU” para o Haiti.

“Mesmo com pessoal e recursos completos, as medidas de segurança, por si só, não serão suficientes para responder a esta situação”, escreveu o grupo de direitos humanos.

“Qualquer estratégia significativa deve incluir proteção efetiva para as vítimas de violência, vias credíveis de saída dos grupos criminosos, responsabilização pelos abusos e uma resposta humanitária coordenada que ajude a restabelecer o acesso a bens e serviços básicos”.

Outras fontes • AP

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