Pescadores apelam à criação imediata de um regime de subsídios para o abate de peixes-balão tóxicos, enquanto os cientistas procuram formas de neutralizar a sua toxina letal.
Os pescadores profissionais de Creta estão desesperados, uma vez que o peixe-balão, uma espécie invasora que entrou no Mediterrâneo através do Canal do Suez, continua a causar graves danos à biodiversidade marinha e aos seus rendimentos.
O problema afeta muitos países mediterrânicos, sendo Chipre e a Grécia algumas das zonas mais afetadas. Este peixe venenoso e omnívoro passou a dominar a região nos últimos anos e possui mandíbulas extremamente poderosas, capazes de destruir redes, cordas e equipamento de pesca.
O pescador Alexis Charalampakis descreve a extensão dos danos causados pela espécie: "Eles comeram o peixe e cortaram a corda. Veja os danos – o equipamento está inutilizado. Após apenas cinco dias de utilização, tenho de o deitar fora e comprar redes novas."
Um quadro semelhante é descrito pelo pescador Giannis Giankakis, que salienta que se trata de uma espécie especialmente resistente. "Come tudo o que encontra pelo caminho e não parece estar ameaçada por nada, uma vez que não tem predadores naturais entre os outros peixes", afirma.
Lambis Atzarakis afirma que as populações de peixes comerciais entraram em queda livre. "O mar está cheio de peixe-leão, peixe-balão e peixe-trompete – todas espécies exóticas. Não passou pelo Canal do Suez um único peixe de qualidade, apenas problemas", observa.
Os pescadores gregos apelam ao Estado para que introduza imediatamente um regime de subsídios para a captura e remoção de peixes-balão, com o objetivo de reduzir o seu número e limitar as perdas financeiras significativas que causam ao setor.
Segundo a bióloga marinha Nota Peristeraki, do Centro Helénico de Investigação Marinha (HCMR), o impacto já é mensurável. "Os nossos estudos mostram que a espécie Lagocephalus sceleratus tem um efeito significativo nos pescadores, particularmente naqueles que se dedicam à pesca costeira. Estimamos que as perdas ascendam, em média, a cerca de 8 500 euros por ano por cada embarcação de pesca", explica.
Peixes-balão contêm uma toxina mortal
Os peixes-balão foram registados pela primeira vez na Grécia em 2005, em Creta e nas ilhas do Dodecaneso. Vinte anos depois, espalharam-se por todo o país, tendo os cientistas alertado que o seu consumo pode ser fatal.
A bióloga marinha Thekla Anastasiou explica que a tetrodotoxina, presente nos órgãos do peixe, é extremamente perigosa para os seres humanos. "A sua ingestão pode causar insuficiência cardíaca e paralisia do sistema respiratório. É necessário ter um cuidado especial no seu manuseamento e consumo", salienta.
Ao mesmo tempo, os investigadores estão a estudar formas de neutralizar a toxina, para que a espécie possa adquirir algum valor económico. O químico Manolis Mandalakis afirma que já foram realizados estudos sobre a remoção da tetrodotoxina do peixe-balão, permitindo que a sua biomassa seja utilizada com segurança em aplicações de baixo risco, como a produção de fertilizantes e composto.
Cientistas e pescadores concordam que são necessárias medidas urgentes para proteger os ecossistemas marinhos e as pessoas cujo sustento depende deles.