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Israel e Estados Unidos: 78 anos de uma aliança em risco

Dois líderes em Mar-a-Lago, dezembro de 2025
Dois líderes em Mar-a-Lago, dezembro de 2025 Direitos de autor  Copyright 2025 The Associated Press. All rights reserved.
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De Ferenc Szekely
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Nos últimos anos, têm-se verificado cada vez com maior frequência fissuras nas relações entre Israel e os Estados Unidos. A guerra em Gaza, a crise iraniana, os colonatos e a evolução da política interna americana têm provocado conflitos recorrentes entre Washington e Jerusalém.

As discussões do dia-a-dia podem facilmente obscurecer o panorama geral: a relação entre os dois países não se limita à habitual cooperação diplomática, tendo-se tornado uma das alianças estratégicas mais singulares e duradouras do período pós-Segunda Guerra Mundial, que nem mesmo inúmeras crises, guerras e reviravoltas políticas conseguiram quebrar, embora tenham conseguido perturbá-la. No entanto, mesmo nos momentos mais difíceis, encontrava-se sempre alguma solução, embora cada vez com maior dificuldade.

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Quase 80 anos de história comum

Visto de fora, a relação entre Israel e os Estados Unidos é muitas vezes descrita como uma simples aliança, mas a história é bem mais complexa. Este vínculo sobreviveu à crise de Suez, à guerra do Yom Kippur, ao embargo petrolífero, às guerras do Líbano, às intifadas, à guerra do Iraque, à disputa em torno do programa nuclear iraniano e a todas as mudanças de governo em Washington e em Jerusalém.

As atuais tensões e disputas – ligadas ao Irão e ao Líbano – são reais e de facto intensas. Mas, numa perspetiva histórica, estão longe de ser inéditas.

Os últimos 78 anos mostram que a relação entre Washington e Jerusalém evolui em ciclos: por vezes aproximam-se, por vezes entram em confronto, por vezes desentendem-se abertamente, mas a teia de laços estratégicos, militares, tecnológicos e sociais assenta em bases tão sólidas que nenhuma crise ou geração política conseguiu desfazê-la com facilidade.

A questão hoje não é, por isso, saber se a aliança se vai romper. É antes perceber de que forma os novos desafios do século XXI – a ascensão da China, a polarização da política interna norte-americana, o papel regional do Irão e a transformação do Médio Oriente – vão remodelar uma relação que se tornou um dos principais eixos geopolíticos do pós-Segunda Guerra Mundial.

Não foi amor à primeira vista

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a relação entre Israel e os Estados Unidos não começou como uma aliança natural e óbvia. Quando, em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou a independência de Israel, Washington foi de facto dos primeiros a reconhecer o novo Estado, mas o consenso na capital norte-americana estava longe de ser total.

O presidente Harry S. Truman apoiou pessoalmente a criação de Israel, mas grande parte do Departamento de Estado e do Pentágono opôs-se. Os estrategas norte-americanos temiam que o apoio ao novo Estado judeu alienasse os países árabes e pusesse em risco o abastecimento de petróleo, abrindo espaço à influência soviética. Em boa medida foi isso que aconteceu e, por isso, na primeira fase da Guerra Fria Israel estava longe de ser o parceiro prioritário de Washington no Médio Oriente.

Na década de 1950, os Estados Unidos apoiavam-se sobretudo em países como a Arábia Saudita, o Irão ou a Turquia. Grande parte da ajuda militar a Israel vinha então de França e foi Paris, mais do que Washington, a ajudar nos primeiros passos do programa nuclear militar israelita.

Centro nuclear israelita
Centro nuclear israelita Militarnyi

Primeira rutura: a crise de Suez

Em 1956, durante a crise de Suez, Israel atacou o Egito em coordenação com França e o Reino Unido. Visto hoje, causa surpresa o facto de Washington não se ter colocado então ao lado de Israel.

No centro da crise estava o canal de Suez, nacionalizado no verão de 1956 por Gamal Abdel Nasser. Londres e Paris receavam perder a influência sobre esta via marítima estratégica, enquanto Israel se preparava para uma operação militar devido aos ataques armados lançados a partir da fronteira egípcia. Os três países concluíram um acordo secreto: Israel atacaria o Egito e, em seguida, o Reino Unido e França interviriam, invocando a necessidade de pôr termo aos combates, para assumirem o controlo do canal.

O plano resultou do ponto de vista militar, mas fracassou politicamente, porque tanto os Estados Unidos como a União Soviética se opuseram à operação. O governo de Dwight D. Eisenhower exerceu forte pressão sobre os atacantes e acabou por forçá-los a recuar.

Foi o primeiro grande lembrete de que a relação entre os Estados Unidos e Israel sempre teve uma assimetria de fundo: para Israel, os Estados Unidos eram um parceiro vital; para Washington, Israel era apenas um dos vários fatores a ponderar no Médio Oriente, ainda que entre os mais importantes.

A guerra dos Seis Dias mudou tudo

O verdadeiro ponto de viragem chegou com a guerra de 1967, durante a qual Israel derrotou o Egito, a Jordânia e a Síria em seis dias, ocupando a península do Sinai, a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as colinas de Golã.

Foi então que, em Washington, se tornou claro que Israel já não era apenas um pequeno Estado vulnerável, mas uma potência militar de grande eficácia.

Nessa fase da Guerra Fria isso era particularmente relevante. A União Soviética apoiava o Egito, a Síria e, em geral, os regimes árabes, enquanto Israel surgia como um país de orientação ocidental capaz de derrotar exércitos equipados com armamento soviético. Por isso, na Casa Branca, começou-se a encarar Israel cada vez mais como um ativo estratégico.

Kissinger e Golda Meir: os bastidores da guerra do Yom Kippur

Um dos capítulos mais interessantes da história das relações entre os Estados Unidos e Israel foi a interação entre Henry Kissinger e Golda Meir durante a guerra do Yom Kippur, em 1973. As personalidades dos dois não podiam ser mais diferentes. Kissinger era o estratega obcecado pelo equilíbrio de forças da Guerra Fria, a mover peças num tabuleiro global; Golda Meir, marcada pela memória do Holocausto e pela vulnerabilidade de Israel, interpretava todas as questões à luz da sobrevivência do país.

Golda Meir, primeira-ministra de Israel, e Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA, 1973
Golda Meir, primeira-ministra de Israel, e Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA, 1973 Begin - Sadat Center

Nos primeiros dias da guerra, a situação de Israel foi muito mais grave do que muitos imaginam hoje. O ataque egípcio e sírio apanhou a liderança israelita de surpresa, os combates nas frentes causaram pesadas baixas e vários membros do governo de Golda Meir receavam que o país pudesse sofrer a pior derrota militar da sua história. Mais tarde vieram a público relatos segundo os quais a liderança israelita chegou a discutir, como último recurso, a eventual utilização da opção nuclear.

Golda Meir pediu desesperadamente ajuda a Washington, mas Kissinger hesitou numa primeira fase. Não porque não quisesse apoiar Israel, mas por recear que uma intervenção norte-americana demasiado rápida e visível desencadeasse uma reação direta de Moscovo. Seguiram-se vários dias de braço de ferro diplomático, enquanto as reservas de munições e peças sobresselentes do exército israelita se esgotavam perigosamente.

A viragem chegou com a ponte aérea norte-americana, a Operation Nickel Grass. Aviões de carga dos EUA transportaram para Israel milhares de toneladas de armamento, contribuindo de forma decisiva para que o exército israelita recuperasse a iniciativa. Golda Meir viria a dizer várias vezes que se tratou de uma das decisões norte-americanas mais importantes da história de Israel.

A relação entre ambos esteve, contudo, longe de ser idílica. Kissinger queixava-se com frequência de que os dirigentes israelitas exerciam demasiada pressão sobre Washington, enquanto Golda Meir sentia muitas vezes que os norte-americanos não compreendiam os temores existenciais de Israel. Segundo uma anedota célebre, Kissinger terá gracejado: “Sou primeiro americano, em segundo lugar secretário de Estado e só em terceiro lugar judeu.” Ao que Golda Meir respondeu: “Nós lemos da direita para a esquerda.” A história ilustra bem o tom e a visão mútua que marcavam a relação entre os dois.

Após a guerra, foi o próprio Kissinger quem, através da chamada “diplomacia de vaivém”, passou meses a percorrer o Médio Oriente, negociando acordos de cessar-fogo e de separação de forças que abririam caminho, quatro anos mais tarde, ao tratado de paz entre o Egito e Israel. Muitos historiadores consideram que foi nesses meses que se consolidou de facto a moderna parceria estratégica entre os Estados Unidos e Israel.

A guerra revelou também o lado problemático da relação, quando os países árabes decretaram um embargo petrolífero que desencadeou uma crise económica mundial. A partir daí, Washington passou a tentar apoiar Israel e, ao mesmo tempo, preservar relações equilibradas com o mundo árabe.

O “porta-aviões” israelita

Depois da vitória de 73, ganhou força entre os estrategas norte-americanos a ideia de que Israel funcionava, na prática, como um porta-aviões americano insubmersível no Médio Oriente. A metáfora não era totalmente exata, mas refletia a mudança de perceção.

A base desta visão era o facto de Israel ser uma democracia estável e pró-ocidental numa região extremamente instável, dominada por regimes autoritários e por redes terroristas. As forças armadas israelitas acumulavam experiência de combate de forma contínua. Os seus serviços de informações passaram a ser considerados dos mais eficazes do mundo e o exército e os serviços de segurança dos EUA estudavam regularmente a experiência israelita no combate ao terrorismo, na defesa aérea, nas operações especiais e na guerra urbana.

Nem por isso a relação deixou de ter sobressaltos. Em 1981, Israel bombardeou o reator nuclear iraquiano na operação Opera, apesar da oposição do governo norte-americano. Em 1982, a guerra do Líbano gerou fortes tensões. Em 1991, durante a primeira guerra do Golfo, os Estados Unidos pediram explicitamente a Israel que não respondesse aos ataques de mísseis iraquianos, para não pôr em causa a unidade da coligação árabe. Jerusalém acabou por acatar o pedido, mas para muitos israelitas foi uma decisão extremamente difícil, já que o país estava sob fogo de mísseis enquanto o exército era impedido de reagir.

A idade de ouro da ajuda norte-americana

No final da Guerra Fria, os Estados Unidos tornaram-se o principal parceiro militar de Israel e a ajuda anual norte-americana atingiu valores de vários milhares de milhões de dólares. Dessa cooperação nasceram ou evoluíram sistemas como o Arrow 2, o Arrow 3, a Funda de David ou a Cúpula de Ferro.

O fluxo de apoio não foi, contudo, de sentido único. A indústria de defesa e as forças armadas dos EUA também beneficiaram dos desenvolvimentos, das tecnologias e da experiência de combate israelitas e os sistemas de defesa aérea cada vez mais sofisticados passaram a ser muito procurados também no mercado europeu (Alemanha, Finlândia), em contratos de vários milhares de milhões de euros.

Paralelamente, a aliança entre os EUA e Israel tornou-se excecional não só em termos estratégicos, mas também no plano social e político, e poucos países dispõem de laços tão fortes com o sistema político norte-americano como Israel. Durante décadas, a comunidade judaica nos EUA teve um papel importante no reforço dessa relação e, mais tarde, os influentes movimentos evangélicos norte-americanos passaram também a figurar entre os principais apoiantes de Israel. A relação saiu assim da esfera exclusiva da política externa e tornou-se parte integrante da política interna dos Estados Unidos.

As primeiras fissuras

Durante décadas, o apoio a Israel foi praticamente um tema bipartidário em Washington, raramente contestado de forma séria no Congresso.

A partir dos anos 2000, porém, surgiram novas dinâmicas à medida que a sociedade norte-americana se tornava mais polarizada. No Partido Democrata foram ganhando terreno correntes mais críticas em relação a Israel, enquanto entre os republicanos se passou a exigir um apoio ainda mais firme a Jerusalém.

Um exemplo marcante foi o conflito político aberto entre Benjamin Netanyahu e Barack Obama em torno do acordo nuclear com o Irão (JCPOA), que o primeiro-ministro israelita acabou por minar, contribuindo para a decisão de Donald Trump de retirar os EUA do entendimento.

Estados Unidos de Joe Biden e guerra de Gaza: entre apoiar e travar

Quando alguém escrever a história das relações entre os Estados Unidos e Israel na década de 2020, é provável que dedique um capítulo específico à política de Joe Biden em relação a Gaza.

Durante décadas, Biden foi conhecido em Washington como um dos políticos mais empenhados na defesa de Israel. Já como senador gostava de repetir que, se Israel não existisse, os Estados Unidos teriam de criar um aliado como ele no Médio Oriente. Após o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, colocou-se ao lado de Israel com uma rapidez quase sem precedentes: enviou grupos de porta-aviões norte-americanos para a região, autorizou entregas de armamento e deslocou-se pessoalmente a Israel.

O problema foi que Biden tentou perseguir em simultâneo dois objetivos em parte contraditórios. Por um lado, queria manter o apoio militar a Israel e dissuadir o Irão, o Hezbollah e outros atores regionais. Por outro, enfrentava uma pressão crescente do lado esquerdo do Partido Democrata, de organizações de direitos humanos e de parte da opinião pública internacional devido às vítimas civis em Gaza.

Daí resultou a imagem de um Washington a carregar ao mesmo tempo no acelerador e no travão. Durante meses, a administração norte-americana continuou a fornecer armas, enquanto endurecia gradualmente o tom público das críticas às operações israelitas.

Em certos momentos, o presidente chegou a bloquear operações específicas ou a utilização de determinados armamentos. Reafirmou o direito de Israel à autodefesa, mas, ao mesmo tempo, insistiu em cessar-fogos, corredores humanitários e limitações às operações militares, deixando em grande medida a mediação prática nas mãos das potências regionais. Opos-se à manutenção do Hamas no poder, mas passou a criticar cada vez mais as decisões do governo israelita quando estas incluíam a eliminação de dirigentes do grupo, por envolverem também pesadas baixas civis.

O dilema era visível também dentro da Casa Branca. Boa parte do aparelho de segurança nacional receava que uma rutura total com Netanyahu tivesse custos estratégicos elevados, enquanto os conselheiros políticos alertavam para a rápida deterioração da imagem de Israel entre os eleitores mais jovens do Partido Democrata.

Biden e Netanyahu após o atentado de 2023
Biden e Netanyahu após o atentado de 2023 Copyright 2023 The Associated Press. All rights reserved

O resultado foi uma política que nem a liderança israelita nem os defensores da causa palestiniana consideraram satisfatória. Em Jerusalém, muitos sentiram que Washington não apoiava suficientemente os objetivos militares, enquanto os críticos de esquerda de Biden o acusavam de ter ficado demasiado tempo, e quase sem condições, ao lado de Israel.

Em termos históricos, Biden foi talvez um dos primeiros presidentes norte-americanos a ter de gerir não apenas o equilíbrio no Médio Oriente, mas também as divisões dentro do seu próprio partido. Isso constitui um elemento novo na história das relações entre os EUA e Israel. O debate decorre hoje cada vez menos entre Washington e Jerusalém e cada vez mais dentro dos próprios Estados Unidos, sobre o que significa apoiar Israel no século XXI e quais devem ser os limites desse compromisso.

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