Os terramotos destruíram dezenas de milhares de edifícios no norte da Venezuela, mataram mais de 2200 pessoas e deixaram o estado de La Guaira como a região mais afetada do país.
São já, pelo menos, 81 as vítimas mortais portugueses e lusodescendentes nos sismos da Venezuela. Destes, 14 são crianças. Estão ainda desaparecidas 66 pessoas.
Os abalos superficiais e violentos danificaram ou destruíram dezenas de milhares de edifícios em todo o norte da Venezuela, causando mais de 2.500 mortos, mais de 11 000 feridos e deixando o estado de La Guaira como a região mais afetada do país.
Mas, no meio da tragédia, a esperança. As equipas de resgate conseguiram resgatar com vida, logo no início da manhã de quinta-feira, um segurança de 43 anos de uma cave que desabou, pondo termo a uma operação extenuante que se tornou um símbolo de esperança depois da devastação provocada pelos dois terramotos que atingiram a Venezuela oito dias antes.
Hernán Alberto Gil Flores foi levado para um local seguro, coberto de pó sobre uma maca e rodeado por socorristas de capacete, depois de ter estado preso desde 24 de junho sob os escombros da cave do centro comercial Galerías Playa Grande, na localidade costeira de La Guaira.
Os socorristas, que fizeram o primeiro contacto com Gil Flores durante o fim de semana, trabalharam mais de 100 horas para o libertar, enfrentando uma estrutura altamente instável, chuva torrencial e réplicas persistentes enquanto escavavam um túnel até ao sobrevivente.
Equipas com bandeiras de vários países festejaram quando os socorristas transportaram Gil Flores, com máscara de oxigénio e coberto por uma lona laranja, através de uma multidão até à ambulância onde lhe foram verificados os sinais vitais.
Um dos socorristas chilenos que segurava a maca ergueu o punho em sinal de alegria. Um grupo de homens com uniformes vermelhos da Cruz Vermelha da Costa Rica abraçou-se e riu de alívio. Outros irromperam em aplausos.
“Quando o encontrámos, pediu-nos que não disséssemos à mulher que estava vivo, para o caso de não sobreviver”, contou a socorrista da Cruz Vermelha da Costa Rica Minyar Collado, acrescentando: “Nunca o iríamos deixar aqui”.
O salvamento foi visto como um pequeno milagre numa semana de tragédia. Ao fornecerem comida e água a Gil Flores enquanto removiam o betão, as equipas de resgate conseguiram mantê-lo vivo muito para além das 48 a 72 horas que a maioria das operações estabelece como limite para encontrar sobreviventes após catástrofes.
Gil Flores, que trabalhava como segurança do turno da noite no complexo, estava dentro da pequena cabine de vigilância quando se sentiu o primeiro violento abalo. Enquanto a estrutura de betão em redor desabava, a cabine manteve-se firme, protegendo-o dos destroços e criando um bolsão de ar vital.
Uma equipa especializada da Cruz Vermelha da Costa Rica foi a primeira a detetar sinais de vida e a estabelecer contacto com ele, no domingo.
A mulher, Gusbimar González, contou à agência noticiosa AP que lutou contra o desespero durante dias antes de saber que os socorristas tinham conseguido contactá-lo.
“Quando soube que estava vivo, vi um raio de luz na escuridão”, disse. O casal tem dois filhos, de oito e dez anos.
A operação foi coordenada por uma equipa de busca e salvamento em ambiente urbano de bombeiros chilenos, que trabalharam sem parar com equipas dos Estados Unidos, Portugal, México, Costa Rica, El Salvador e Venezuela.
A presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, saudou o resgate nas redes sociais numa altura em que o seu governo tem sido criticado pelo que muitos venezuelanos consideram uma resposta inadequada à crise.
“Celebramos a grandeza da humanidade, quando se une por um único propósito: salvar outra pessoa. Obrigada aos nossos socorristas e ao apoio dos socorristas internacionais”, escreveu numa publicação na plataforma X.
As equipas utilizaram uma câmara telescópica para manter contacto permanente com Gil Flores, passando água e nutrientes líquidos através de um estreito poço para o manter hidratado durante os últimos três dias do resgate.
María Paz Campos, bombeira veterana do Chile, acompanhou-o ao longo de toda a operação e manteve-o calmo durante as derradeiras horas dolorosas de quinta-feira.
Num vídeo publicado pelos bombeiros chilenos nas horas que antecederam o resgate, vê-se Gil Flores a desenhar, aparentemente para passar o tempo. Campos pede-lhe então, com suavidade, que olhe para a câmara e coloque uns óculos de proteção.
“Preciso que mantenhas os óculos postos, por causa das pequenas partículas que estão a cair, para evitar que entrem no olho”, disse Campos ao sobrevivente.
O desabamento do edifício foi provocado por dois terramotos sucessivos, em 24 de junho, com magnitudes de 7,2 e 7,5, respetivamente.