A plataforma cidadã "Desaparecidos Terramoto Venezuela" recebeu mais de 31 mil relatos de pessoas com quem familiares não conseguiram contactar, enquanto o Governo mantém por atualizar o número oficial de desaparecidos desde 25 de junho.
Quase duas semanas após o devastador duplo terramoto que atingiu a Venezuela a 24 de junho, a emergência continua longe de terminar. Com as hipóteses de encontrar sobreviventes sob os escombros já praticamente nulas, milhares de famílias continuam à procura dos seus entes queridos entre os edifícios desabados.
Com boa parte das equipas internacionais de resgate de regresso aos respetivos países, os trabalhos concentram-se agora na recuperação dos corpos e na assistência aos milhares de sinistrados.
O último balanço oficial aponta para 3 535 mortos e 16 740 feridos. Além disso, 6 462 pessoas foram resgatadas com vida, número que se mantém inalterado desde quinta-feira passada, segundo meios de comunicação venezuelanos, enquanto mais de 17 300 cidadãos perderam as suas casas e tiveram de ser transferidos para alojamentos temporários criados pelas autoridades.
A dimensão da catástrofe reflete-se também nos danos materiais. No total, 190 edifícios ruíram por completo e outros 856 apresentam danos de diversa gravidade, sobretudo no estado costeiro de La Guaira, a zona mais atingida pelos sismos.
Apesar de o Governo garantir ter destacado cerca de 30 mil militares e agentes de segurança, bem como milhares de voluntários, muitos moradores denunciam que a falta de maquinaria pesada está a atrasar a remoção de escombros e a recuperação das vítimas que continuam presas sob os imóveis destruídos.
Em paralelo, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) confirmou que a direção das operações de busca passou para as mãos da Proteção Civil da Venezuela, após o recuo progressivo das equipas internacionais. A organização alerta também que cada vez mais famílias abandonam La Guaira para procurar refúgio noutras regiões do país, perante a destruição das habitações e a escassez de recursos.
Cresce a incerteza sobre os desaparecidos
Um dos principais motivos de preocupação continua a ser o número real de desaparecidos. Embora o Executivo tenha criado uma linha telefónica e uma plataforma digital para receber comunicações de familiares, a cifra oficial permanece congelada desde 25 de junho, quando as autoridades informaram de 157 pessoas em paradeiro desconhecido.
Face a estes números, a plataforma cidadã "Desaparecidos Terremoto Venezuela", criada para facilitar a localização de vítimas, já registou mais de 31 000 comunicações sobre pessoas com quem familiares garantem não ter conseguido contactar desde os terramotos. A diferença entre ambos os registos alimenta a incerteza entre quem continua à procura de notícias dos seus entes queridos.
Agravaram-se as críticas à resposta do Governo
À medida que os dias passam, também aumenta o mal-estar entre os afetados. Moradores das zonas mais devastadas questionam a lentidão dos trabalhos de resgate e denunciam que a ajuda humanitária é insuficiente para responder à dimensão da tragédia.
Em resposta a estas críticas, a presidente interina, Delcy Rodríguez, anunciou um pacote de medidas para apoiar as famílias sinistradas. Entre estas está uma prestação económica mensal durante seis meses para quem perdeu a habitação e um programa de financiamento hipotecário, com apoios públicos que cobrirão até 80% do custo dos novos créditos.
A presidente adiantou igualmente que o Executivo prepara um plano para reconstruir o Aeroporto Internacional de Maiquetía, principal infraestrutura aérea do país, através de acordos de cooperação com parceiros internacionais, embora não tenha precisado nem o calendário nem os países envolvidos.
Entretanto, a tensão continua a aumentar no terreno. Em Caraballeda, uma das localidades mais afetadas pelo duplo terramoto, um grupo de moradores bloqueou a principal via de acesso para exigir a sua transferência para o complexo hoteleiro de Las Caracas, onde, garantem, o governo prometeu realojá-los.
Outros residentes denunciam uma redução na distribuição de alimentos e lamentam que a saída de parte das equipas internacionais esteja a atrasar a recuperação dos corpos que permanecem sob os escombros.
Com milhares de pessoas sem casa, um número de desaparecidos que continua por esclarecer e trabalhos de recuperação que avançam lentamente, a Venezuela enfrenta agora uma nova fase da emergência, marcada pela reconstrução do país e pelo desafio de responder às necessidades de dezenas de milhares de afetados.