Irão advertiu que reagirá a qualquer ataque dos EUA à infraestrutura com destruição na região, e Teerão terá pedido aos huthis que se preparem para fechar o estreito de Bab el-Mandeb, segundo bloqueio do comércio marítimo mundial.
O Irão afirmou que qualquer ataque dos Estados Unidos contra infraestruturas da República Islâmica desencadearia uma destruição mais ampla na região, prometendo que as suas forças iriam atacar infraestruturas em toda a região que, segundo Teerão, têm sido poupadas graças à sua contenção.
O porta-voz do Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, coronel Ebrahim Zolfaqari, declarou que Teerão não tolerará qualquer interferência norte-americana no estreito de Hormuz, que descreveu como uma “linha vermelha inviolável”.
“Se as recentes ameaças do presidente dos Estados Unidos de atacar as infraestruturas da República Islâmica se concretizarem”, disse Zolfaqari, “todas as infraestruturas da região que até agora permaneceram intactas apenas devido à contenção do Irão serão esmagadas pelos ataques das forças armadas iranianas.”
Acrescentou que a resposta do Irão não seria “proporcional”, mas “superior”, alertando que qualquer retaliação seria “mais severa, mais extensa e mais devastadora do que nunca”.
O aviso surge numa altura em que ambos os lados trocam novos ataques pelo quinto dia consecutivo.
A Guarda Revolucionária afirmou ter lançado duas vagas de mísseis balísticos contra uma base militar dos Estados Unidos na Jordânia, enquanto as forças armadas iranianas disseram ter conduzido ataques com drones contra instalações do exército norte-americano no Kuwait e no Bahrein.
Segundo a Guarda Revolucionária, o ataque na Jordânia foi uma resposta ao que descreveu como uma ofensiva norte-americana perto de um hospital oncológico pediátrico no Irão.
“Este ataque bárbaro ... provocou grande sofrimento e angústia entre as crianças internadas”, escreveu na rede social X o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baghaei Baghaei, classificando-o como “um crime de guerra cobarde contra os seres humanos mais inocentes”.
A Euronews não conseguiu verificar de forma independente esta alegação.
Entretanto, os militares dos Estados Unidos anunciaram ter concluído outra vaga de ataques durante a noite, atingindo centros de comando iranianos, sistemas de defesa aérea, capacidades de mísseis e de drones e, pela primeira vez nesta fase dos combates, alvos em torno de Teerão e mais a norte do país.
Meios de comunicação estatais iranianos relataram ataques perto de Teerão, da ilha de Qeshm, da cidade portuária de Chabahar, no sul, e da província de Semnan, onde se situam importantes instalações de produção de mísseis balísticos e o programa espacial da República Islâmica.
As forças norte-americanas indicaram ainda ter atingido um navio que acusam de tentar romper o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos ao Irão.
Bab el-Mandeb torna-se novo foco de tensão?
Paralelamente, responsáveis iranianos têm apresentado cada vez mais o estreito de Hormuz como questão central de segurança nacional.
O presidente do Parlamento e principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que Teerão não tem “qualquer razão” para aceitar um acordo que não traga benefícios ao Irão, acrescentando que a segurança nacional do país depende da manutenção do que descreveu como “arranjos iranianos” no estreito de Hormuz.
Segundo Ghalibaf, o novo aiatola iraniano, Mojtaba Khamenei, continua a ser “o decisor último sobre guerra ou negociações”.
O responsável acrescentou que, embora Teerão não “acolha” a guerra, “tem de permanecer sempre preparado para o combate” e continuará a recorrer à diplomacia sempre que esta sirva os interesses nacionais.
Dirigentes militares iranianos rejeitaram também a ideia de que a capacidade de Teerão para controlar esta via marítima estratégica depende apenas da sua costa sul.
O general de brigada Mohammad Akraminia, porta-voz do exército iraniano, afirmou que o Irão pode exercer controlo sobre o estreito de Hormuz “a partir de qualquer parte do seu território”.
“Os norte-americanos acreditavam que, ao atacar algumas das nossas bases no sul, poderiam assumir o controlo desta via marítima estratégica”, disse.
“Na realidade, a República Islâmica é capaz de controlar o estreito de Hormuz a partir de todo o seu território, e essa capacidade não depende de forma alguma das costas ou das ilhas.”
Akraminia advertiu que a continuação das operações militares dos Estados Unidos pode alargar a guerra a “novas arenas de confrontação”, sublinhando que o Irão não tem conflitos com os países vizinhos e mantém o compromisso com a cooperação regional.
A embaixada do Irão no Zimbabué, uma das vias diplomáticas encarregadas de difundir a mensagem de Teerão no exterior, reforçou essa posição ao escrever numa mensagem na rede social X: “O estreito de Hormuz tem dono.”
Várias notícias publicadas desde então sugerem que o Irão pediu aos Houthis no Iémen, a sua força aliada que integra a rede de militantes do “Eixo da Resistência” de Teerão, que estejam preparados para encerrar a rota marítima do mar Vermelho através do estreito de Bab el-Mandeb caso os Estados Unidos ataquem infraestruturas e centrais elétricas iranianas.
De acordo com fontes citadas nessas notícias, a proposta foi discutida na liderança iraniana e comunicada aos Houthis, que terão destacado mísseis e drones nas proximidades desta via estratégica do mar Vermelho.
Não seria a primeira vez que o Irão ou a Guarda Revolucionária sinalizam disponibilidade para recorrer a parceiros regionais a fim de ameaçar o acesso através de Bab el-Mandeb, outro potencial ponto de pressão sobre rotas marítimas fundamentais da região.