Quatro pontos na cidade portuária que alberga a única central nuclear do Irão foram atingidos por projéteis norte-americanos na terça-feira, ao mesmo tempo que o parlamento iraniano apresentou formalmente um projeto de lei que reivindica o controlo permanente de Teerão sobre o Estreito de Ormuz.
O Irão atingiu dois navios no Estreito de Ormuz na terça-feira, matando um tripulante e ferindo outros oito, numa altura em que os EUA repuseram o bloqueio aos portos iranianos e Trump afirmou que Washington estava a "assumir o controlo" da via marítima, na mais forte escalada desde o acordo-quadro assinado no mês passado.
Por sua vez, os ataques dos EUA também atingiram a cidade portuária de Bushehr, onde se situa a única central nuclear civil do Irão, e o vice-governador provincial Ehsan Jahanian disse que "quatro pontos na cidade de Bushehr foram atingidos por projéteis inimigos ao meio-dia", segundo a agência estatal IRNA.
Não houve informações imediatas sobre danos na própria instalação nuclear.
Outros ataques atingiram Abadan, onde se situa a refinaria de petróleo mais antiga do Médio Oriente, e a cidade portuária de Mahshahr, segundo Valiollah Hayati, vice-governador da província de Khuzestan.
Ouviram-se também cinco explosões a oeste de Bandar Abbas, perto do Estreito de Ormuz, informou a televisão estatal iraniana.
Bahrein sob ataque e navios atingidos
Os Emirados Árabes Unidos, alvo de repetidos ataques de Teerão desde o início da guerra, disseram que dois navios foram atingidos por mísseis iranianos.
A agência britânica de Operações de Comércio Marítimo (UKMTO) informou, por sua vez, que um petroleiro a 13 milhas náuticas a sudeste de Limah, na costa de Omã, foi atingido por um míssil enquanto fazia a travessia de saída pela rota sul. As autoridades estavam a investigar o caso, informou a UKMTO.
Outro petroleiro foi atingido a 40 milhas náuticas a nordeste de Qalhat na segunda-feira, segundo a UKMTO.
O petróleo Brent subiu para mais de 85 dólares por barril — o primeiro aumento desde que os preços baixaram após o cessar-fogo de junho —, com os futuros do Brent e do West Texas Intermediate a registarem uma subida de cerca de 2,5%.
O Comando Central dos EUA (CENCOM) anunciou que o bloqueio aos portos iranianos seria reimposto a partir das 21h00 CET de terça-feira, na sequência de uma ordem de Trump. Washington tinha aliviado o bloqueio depois de as partes terem chegado a um acordo provisório em junho.
Trump afirmou, na plataforma Truth Social, que os EUA estavam a "assumir o controlo" do Estreito e propôs uma taxa de 20% sobre o valor de todas as cargas que por ele passassem, referindo que quaisquer custos incorridos pelos EUA para garantir a passagem seriam "compensados pela cobrança de uma taxa de 20% sobre o valor total de todas as remessas".
O Irão anunciou, no domingo, que tinha voltado a fechar o Estreito, revertendo a reabertura que tinha acordado no âmbito do acordo provisório.
Na segunda-feira, ataques norte-americanos na província de Hormozgan mataram membros da família de um guarda florestal, incluindo os seus dois filhos e a nora, segundo a comunicação social iraniana.
Um responsável da província de Khuzestan confirmou, separadamente, duas mortes e três feridos resultantes da mesma vaga de ataques.
O Bahrein afirmou que os seus sistemas de defesa aérea intercetaram e destruíram "vários ataques aéreos traiçoeiros lançados pelo Irão" na terça-feira de manhã, acusando Teerão de ter como alvo civis.
Ouviram-se explosões na capital do Bahrein, Manama, depois de as sirenes de alarme terem soado pela terceira vez desde o amanhecer. A Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) confirmou ter levado a cabo ataques com mísseis e drones contra o país vizinho.
Irão adverte Estados do Golfo ao avançar com lei sobre o Estreito de Ormuz
O brigadeiro-general Akraminia, porta-voz do quartel-general militar de Khatam al-Anbiya, indicou que o Irão "em circunstância alguma" permitiria que os EUA interferissem na gestão do Estreito e advertiu os Estados do Golfo de que qualquer cooperação com Washington seria considerada "um ato de guerra".
O parlamento iraniano, que se encontrava suspenso desde o início da guerra em fevereiro e retomou as sessões na segunda-feira, começou a trabalhar num projeto de lei intitulado "Ação estratégica para a segurança e o desenvolvimento sustentável do Estreito de Ormuz e do Golfo Pérsico".
O presidente da Comissão de Segurança Nacional do parlamento, Ebrahim Azizi, confirmado no cargo na terça-feira, afirmou que o projeto de lei tinha sido formalmente apresentado enquanto drones norte-americanos estavam a ser abatidos sobre a região. Referiu ainda que estavam a ser elaboradas medidas adicionais.
Vários deputados opuseram-se às negociações com os Estados Unidos e contestaram o facto de não terem tido qualquer participação no memorando de junho. O parlamento é presidido por Mohammad Bagher Ghalibaf, que também desempenha as funções de negociador-chefe do Irão nas conversações com Washington.
O porta-voz do exército iraniano disse que a reabertura do estreito dependia do "respeito pelos direitos da nação iraniana" e que qualquer tentativa de o reabrir através de pressão militar estava "condenada ao fracasso".
A China apelou a ambas as partes para que restabelecessem a passagem segura. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lin Jian, referiu numa conferência de imprensa que "o rápido restabelecimento do trânsito normal e seguro através deste estreito é uma exigência comum da comunidade internacional" e que Pequim "envidaria esforços incansáveis para ajudar a atenuar" a crise.
A República Islâmica afirmou ter exportado cerca de 80 milhões de barris de petróleo nos últimos 26 dias, apesar da revogação das isenções às sanções dos EUA.
O ministro do Petróleo, Mohsen Paknejad, indicou no Telegram que, nos últimos anos, foram implementados mecanismos para neutralizar o impacto das sanções dos EUA e que as exportações não enfrentariam dificuldades.