Doha afirmou ter convidado Teerão a enviar uma equipa para rever a operação, mas não obteve resposta, dizendo que as acusações iranianas são “falsas” e “ilógicas” e visam o público interno. Segundo o ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar, as conversações EUA-Irão estão “longe” de recomeçar.
Qatar afirmou esta terça-feira que uma delegação iraniana viajou a Doha e recolheu os restos mortais de um dos seus pilotos, numa altura em que Teerão continua a alegar que três militares que desapareceram depois de as suas aeronaves terem entrado no espaço aéreo do Qatar e terem sido abatidas em março continuam no país.
“O corpo foi repatriado e houve um funeral”, disse em Doha o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Dr Majed Al Ansari, acrescentando que o Irão não respondeu ao convite do Qatar para enviar uma equipa técnica a fim de analisar a operação de busca.
“Convidámos o Irão a enviar uma equipa técnica para que possa analisar todos os detalhes da operação de busca e salvamento”, afirmou Al Ansari.
“Infelizmente, a parte iraniana não respondeu a este convite.”
Um responsável militar iraniano acusara antes o Qatar de impedir a entrada no país de uma equipa de averiguação e apelara à intervenção do Comité Internacional da Cruz Vermelha.
O Qatar contestou essa versão e afirmou que o convite se mantém em aberto.
“Estamos aqui, estamos abertos”, disse Al Ansari. “Não há necessidade de especulações mediáticas neste caso.”
Classificou as acusações do Irão como “falsas” e “ilógicas” e sugeriu que se destinam ao público dentro do país.
“Se a agenda for para consumo interno, para resolver questões locais, então não nos diz respeito”, afirmou.
As declarações de Al Ansari surgem um dia depois de Teerão ter dito que iria considerar os três pilotos desaparecidos como prisioneiros até que o Qatar esclarecesse a sua situação.
O Qatar negou estar a reter os pilotos, num comunicado divulgado no sábado, afirmando que tinha contactado o Irão para coordenar a entrega dos restos mortais de um deles.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baghaei, afirmou na segunda-feira que Teerão irá prosseguir o caso por vias bilaterais, internacionais e judiciais.
O que aconteceu aos pilotos?
Os pilotos desapareceram depois de aeronaves militares iranianas terem entrado no espaço aéreo do Qatar a 2 de março, nos primeiros dias da guerra iniciada com os ataques norte-americanos e israelitas contra o Irão a 28 de fevereiro.
Teerão afirmou que as aeronaves participavam numa operação contra a base aérea norte-americana de Al Udeid quando foram abatidas pelas forças qataris.
Al Ansari disse que as aeronaves entraram no espaço aéreo do Qatar e representaram uma ameaça para a população do país.
“Estes aviões não vieram aqui para lazer”, afirmou. “Vieram aqui para ameaçar os cidadãos e os residentes.”
Acrescentou que o Qatar tentou contactar os pilotos, mas não obteve resposta antes de agir para defender o seu território.
O Qatar afirma que as suas equipas de busca e salvamento procuraram os pilotos após o incidente de 2 de março e recuperaram os restos mortais de um deles. Al Ansari disse que as buscas terminaram em 6 de abril.
O Qatar contactou então o Irão para devolver os restos mortais e convidou uma equipa iraniana a analisar os detalhes das buscas.
“Em vez de responderem de forma positiva a este convite, fomos surpreendidos por estas declarações”, afirmou Al Ansari.
Qatar promete defender o seu território
Al Ansari disse ainda que Doha continuará a procurar uma solução diplomática para a guerra em curso, mas responderá com firmeza a qualquer futuro ataque ao país.
“O Irão não vai para lado nenhum e nós também não”, disse. “É preciso respeitar a soberania dos países, e cada parte deve respeitar a outra.”
“Qualquer ataque contra o nosso Estado será enfrentado com firmeza e não hesitaremos em proteger as pessoas, os residentes e o nosso território.”
Acrescentou que a prioridade do Qatar continua a ser o diálogo e uma resolução pacífica da crise.
Al Ansari referiu ainda que não há novos progressos a assinalar nas conversações entre o Irão e Omã sobre a reabertura do estreito de Ormuz.
Disse que o Qatar continua à espera que os dois países cheguem a um acordo que possa ajudar a restabelecer o cessar-fogo e permitir a retoma de negociações mais amplas entre os Estados Unidos e o Irão.
Questionado sobre quão perto estão as partes de reativar o acordo mais amplo entre os Estados Unidos e o Irão, Al Ansari respondeu: “Acho que, neste momento, estamos longe disso.”
Acrescentou que um acordo para reabrir Ormuz facilitaria o avanço de negociações mais abrangentes.