Argentina vai apresentar queixa-crime contra várias empresas ligadas à petrolífera israelita Navitas por operarem sem autorização nas Malvinas, enquanto Milei agrava a ofensiva ao projeto Sea Lion com novas sanções e medidas para reforçar a defesa territorial.
O governo da Argentina anunciou esta segunda-feira que vai apresentar uma queixa-crime contra várias subsidiárias da petrolífera israelita Navitas por operarem sem autorização nas ilhas Malvinas, administradas pelo Reino Unido e cuja soberania é reclamada pela Argentina.
A decisão provocou uma reação imediata em Israel. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, pediu ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que reconheça a soberania argentina sobre as Malvinas e sancione o Reino Unido “enquanto a ocupação continuar”, a quem acusou de se apropriar de território e de recursos petrolíferos argentinos.
De acordo com a presidência argentina, a queixa-crime abrangerá Navitas Petroleum Development & Production Ltd, Navitas Petroleum Atlantic United, Navitas Petroleum LP, JHI Associates Inc e Eco Atlantic Oil & Gas Ltd, bem como os seus administradores e representantes.
A Argentina sustenta que estas empresas “dispõem alegadamente de licenças concedidas por o ilegítimo Governo do Reino Unido” para procurar e explorar hidrocarbonetos na Bacia Malvinas Norte, em violação da legislação argentina. O processo dirige-se igualmente contra administradores, gestores, fiscais e qualquer representante que tenha participado no projeto.
Não é a primeira vez que Buenos Aires avança com medidas contra as atividades petrolíferas na zona. A Argentina já declarou clandestinas estas operações em 2012 e apresentou uma queixa semelhante em 2015. Em 2022 sancionou diretamente a Navitas e, em dezembro de 2025, o governo de Javier Milei rejeitou formalmente a decisão de investir 1.808 milhões de euros para iniciar a produção.
Sea Lion, o campo petrolífero no centro da disputa
A Navitas opera e controla 65 % do projeto Sea Lion, situado a cerca de 220 quilómetros a norte das Malvinas, em águas cuja soberania é disputada pela Argentina e pelo Reino Unido. A parceira é a britânica Rockhopper, detentora dos 35 % restantes. O projeto está em fase de desenvolvimento e prevê iniciar a extração de crude em março de 2028.
As duas empresas já tinham respondido às medidas anunciadas pela Argentina, embora antes de ser conhecida a queixa-crime. Após o discurso de Milei na passada quinta-feira, divulgaram um comunicado conjunto em que garantiram operar com licenças “legalmente concedidas” pelo governo das ilhas e com “o apoio pleno e contínuo” do Reino Unido.
As empresas salientaram que não esperam que as medidas argentinas atrasem o calendário do projeto Sea Lion. As ações da Rockhopper caíram mais de 6 % na Bolsa de Londres após o anúncio.
Ben Gvir pede a Netanyahu que reconheça a soberania argentina
A queixa contra as subsidiárias de uma petrolífera israelita coincide com uma crescente tensão diplomática entre Israel e o Reino Unido. Ben Gvir pediu a Netanyahu que reconheça a soberania argentina sobre as Malvinas e adopte sanções contra Londres “enquanto a ocupação continuar”.
O ministro israelita acusou o Reino Unido de se apropriar de território e de recursos petrolíferos que, defendeu, pertencem ao povo argentino. Horas antes, o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, pedira a expulsão do embaixador britânico em Israel.
As declarações surgem numa altura de crescentes divergências entre Londres e Telavive sobre a política britânica em relação à Palestina. Para já, as palavras de Ben Gvir não representam uma mudança na posição oficial de Israel sobre a soberania das ilhas.
Milei acelera ofensiva pelas Malvinas
O presidente Javier Milei anunciara na quinta-feira a intenção de endurecer as sanções contra as petrolíferas que operam nas Malvinas com licenças do Governo local. Adiantou também o envio ao Congresso de um projeto de lei que alargará as sanções aos fornecedores destas empresas e impedirá os infratores de celebrar contratos com o Estado argentino.
Nesse mesmo dia confirmou que vai reativar o projeto para construir uma base naval em Ushuaia, a cerca de 700 quilómetros das ilhas. Esta segunda-feira, Milei instruiu o ministro da Economia, Luis Caputo, a dar prioridade a esse projeto no Orçamento de 2027, que o Governo enviará ao Congresso ainda este mês.
“Estas medidas fazem parte de uma política integrada destinada a reforçar as capacidades do Estado argentino para defender o seu território, proteger os seus recursos naturais e salvaguardar os seus interesses estratégicos”, afirmou o Governo em comunicado.