Um drama conjugal com a guerra na Ucrânia como pano de fundo, produzido por empresas francesas, vai concorrer ao Óscar de Melhor Filme Internacional em março de 2027. Uma escolha “refinada e acertada”, segundo o crítico de cinema Jean-Philippe Domecq
Filme em russo disputa os Óscares com cores francesas: o drama “Minotaure”, assinado pelo realizador dissidente Andrei Zviaguintsev, foi escolhido para concorrer na categoria de melhor filme internacional.
A decisão foi tomada por um júri profissional presidido pelo historiador de cinema Charles Tesson, “no termo de um processo independente, supervisionado pela Academia dos Óscares”, explica (fonte em francês) o Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada (CNC).
Vencedor do Grande Prémio do Festival de Cannes 2026, o filme foi produzido pelas sociedades francesas MK Productions e CG Cinéma, com participação alemã e letã.
“Numa competição que se anuncia de alto nível, esta escolha recorda o papel singular da França nas grandes coproduções mundiais”, declarou o presidente do CNC, Gaëtan Bruel.
A longa-metragem, livremente adaptada de “A mulher infiel”, de Claude Chabrol (1969), acompanha o desmoronar de um casal sobre o pano de fundo da mobilização decretada por Vladimir Putin em setembro de 2022, sete meses após o início da invasão em grande escala da Ucrânia.
À medida que o afastamento em relação à esposa, que prefere um jovem fotógrafo, se aprofunda, Gleb, empresário, tem de entregar alguns dos seus trabalhadores ao exército russo para cumprir as “quotas” impostas nas regiões e evitar que o Kremlin mobilize os habitantes de Moscovo.
Como muitas vezes no seu cinema, Zviaguintsev recorre aos mitos. Tal como Egeu, rei de Atenas obrigado a entregar sete rapazes e sete raparigas ao Minotauro encerrado no seu labirinto, Gleb está disposto a todas as concessões para conservar o seu lugar.
França: boa escolha para os Óscares?
Questionado pela Euronews sobre as hipóteses de “Minotaure”, Jean-Philippe Domecq, ensaísta e membro da redação da revista “Positif”, editada pelo Institut Lumière, considera a escolha “subtil e acertada”.
Diz ter ficado “duradouramente impressionado” com a produção anterior de Zviaguintsev, em particular “Leviathan”. “E agora, a opção de retomar o filme ‘A mulher infiel’, multiplicando a ambiguidade com o contexto do recrutamento, cria uma enorme zona cinzenta, cor dominante do filme”.
Segundo o especialista, o filme convence “pela conjugação entre o envolvimento francês, através dos produtores, e a estética e o enredo da obra, que apostam na nuance, como só consegue a arte que não pretende dar lições”.
A receção do filme, porém, não foi isenta de críticas.
Na entrega do Grande Prémio 2026, em Cannes, o realizador, exilado em França, dirigiu um apelo direto a Vladimir Putin para que “pare o carnificina”, sem pronunciar a palavra Ucrânia nem evocar explicitamente a responsabilidade da Rússia nesta guerra de agressão.
“Há outra pessoa a quem hoje gostaria de me dirigir pessoalmente”, declarou o cineasta em russo. “Milhões de pessoas, de ambos os lados da linha da frente, só sonham com uma coisa: que os massacres acabem finalmente. E a única pessoa que pode pôr fim a esta matança é o presidente da Federação da Rússia. O mundo inteiro espera isso.”
Uma intervenção globalmente saudada no Ocidente, mas que suscitou críticas na Ucrânia e entre a emigração russa antiguerra.
“Minotaure” chega às salas francesas a 14 de outubro, com distribuição da Les Films du Losange. A venda internacional está a cargo da MK2 Films e a estreia nos Estados Unidos será assegurada pela Mubi.
A 99.ª cerimónia dos Óscares realiza-se a 14 de março de 2027 em Los Angeles.