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Sánchez ataca na ONU as forças “egoístas, ignorantes e cruéis” e enaltece a “decência” de Ceuta

O presidente espanhol, Pedro Sánchez, discursa na 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em 23 de setembro de 2026.
Presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, discursa na 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, a 23 de setembro de 2026 Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.
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De Rafael Salido
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O primeiro-ministro espanhol transformou a intervenção na Assembleia Geral num apelo ao multilateralismo contra forças reacionárias que minam a ONU, e reconheceu a difícil situação que Ceuta atravessa, elogiando a sua decência.

O chefe do Governo de Espanha, Pedro Sánchez, aproveitou na quarta-feira a sua intervenção perante a Assembleia Geral das Nações Unidas para fazer uma defesa firme dos valores do multilateralismo, que nos últimos anos enfrenta uma grave crise, como contrapeso a forças “egoístas, ignorantes e cruéis”.

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“Ao longo destes oito anos, vi estas forças reacionárias (egoístas, ignorantes e cruéis) crescer. Vi como deixavam cair a máscara e tomavam o poder em muitos lugares. E, a partir daí, vi-as lançar guerras ilegais e massacrar civis inocentes”, afirmou Sánchez, numa crítica velada a Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Vladímir Putin. “Ser testemunha destas coisas transformou a minha forma de entender o mundo”.

O líder espanhol lamentou que, do seu ponto de vista, essas “forças” tratam os seres humanos "como se fossem gado" e poluem o ar e os oceanos “como se fossem propriedade sua”, e assegurou que, além disso, “conspiram” para acabar com as próprias Nações Unidas e com “tudo o que representam”.

Neste contexto, o espanhol defendeu avançar com uma série de reformas para garantir a sobrevivência das Nações Unidas: redesenhar o Conselho de Segurança para que todas as regiões tenham uma representação justa, reforçar os organismos da Justiça, retomar a política de não proliferação de armas nucleares e adotar regras rigorosas para o desenvolvimento da inteligência artificial e das redes sociais.

Sánchez salientou que, ao longo dos últimos oito anos, o seu executivo se opôs a “todas as guerras de agressão” que eclodiram, seja na Ucrânia, no Líbano ou no Irão. “Recusámos aumentar a nossa despesa militar para 5%”, destacou o primeiro-ministro, num claro recado ao seu homólogo norte-americano, que há muito tem vindo a exigir que os aliados da NATO elevem o investimento em Defesa até esse limiar.

“Dentro de alguns anos, as gerações futuras olharão para trás, estudarão esta década decisiva e perguntarão que papel desempenhámos cada um de nós. Perguntarão o que fizemos quando alguns países começaram a quebrar as regras e outros decidiram fechar os olhos. Perguntarão o que fizemos quando defender aquilo em que acreditávamos começou a ter um custo elevado”, advertiu o chefe do Governo espanhol. “E, quando isso acontecer, queremos poder dizer-lhes que não deixámos de lutar. Nós não”.

Latino-americana à frente da ONU

Perante a saída iminente de António Guterres, que deixará o cargo de secretário-geral da ONU no final do próximo mês de dezembro, Sánchez fez uma defesa firme de que a sua sucessora seja “uma mulher latino-americana”.

“Nove homens ocuparam a Secretaria-Geral desta organização nos seus 80 anos de existência. Agora é a vez de uma mulher latino-americana, porque como pode uma organização que pretende falar em nome de toda a humanidade nunca ter tido uma mulher à frente? Como pode representar todos os continentes se, há três décadas, não permitimos que ocupe este cargo ao terceiro mais populoso?”, defendeu a partir da tribuna.

Atualmente, três dos principais candidatos a suceder a Guterres são latino-americanos, sendo que há duas mulheres na corrida: Michelle Bachelet, médica e ex-presidente do Chile; Rebeca Grynspan, economista e antiga segunda vice-presidente da Costa Rica; e o argentino Rafael Grossi, atual diretor-geral do Organismo Internacional de Energia Atómica.

“Quero que fique claro: não digo isto por pensar que as mulheres tenham algo a provar. Digo-o porque é o mundo que precisa de demonstrar a si próprio que, no caminho da igualdade, não há marcha atrás”, concluiu Sánchez.

Espanha: crise de Ceuta em plenária da ONU

O governante abordou também a crise migratória que abala Ceuta desde o final de julho, quando cerca de 80.000 pessoas atravessaram de forma irregular a fronteira com Marrocos. Sánchez reconheceu que o enclave espanhol vive “momentos difíceis”, mas destacou a sua “decência” e humanidade.

“Em momentos assim, a tentação é escolher o atalho, ceder ao medo, transformar o migrante em inimigo e violar a legalidade, mas Espanha não o vai fazer, e Ceuta também não”, afirmou Sánchez, que já tinha abordado a crise à chegada a Nova Iorque, numa entrevista à CNN, na qual, pela primeira vez, responsabilizou Marrocos pela crise ao assegurar que o reino alauita “falhou” nas tarefas de controlo fronteiriço.

Até agora, o líder espanhol culpava sobretudo as organizações de tráfico de pessoas de terem provocado a crise através das redes sociais e tinha apontado a Rússia, Israel e à extrema-direita pela difusão de boatos. Apesar das palavras proferidas no dia anterior, perante a Assembleia Geral voltou a recuperar esse argumento.

“Em Ceuta, a desigualdade, o desespero e a desinformação alimentaram uma das maiores crises de migração irregular dos últimos anos”, afirmou. “Vamos sair dela mais fortes precisamente por isso, porque Espanha não escolhe o caminho mais fácil, escolhe o caminho mais justo”.

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