Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Três latino-americanos e uma dívida histórica para com as mulheres: quem irá liderar a ONU em 2026?

Da esquerda para a direita: Rebeca Grynspan, Michelle Bachelet e Rafael Grossi, candidatos a Secretário-Geral da ONU 2026.
Da esquerda para a direita: Rebeca Grynspan, Michelle Bachelet e Rafael Grossi, candidatos a Secretário-Geral da ONU 2026. Direitos de autor  Imágenes de AP Photo/Canva
Direitos de autor Imágenes de AP Photo/Canva
De Christina Thykjaer
Publicado a
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

A América Latina aspira a liderar a ONU em 2026 com três candidatos principais, enquanto cresce a pressão internacional para que, pela primeira vez em oito décadas, uma mulher assuma o cargo de secretária-geral das Nações Unidas.

Em 2026, as Nações Unidas enfrentam um dos momentos mais complexos da sua história recente. A saída de António Guterres após uma década à frente da organização coincide com um contexto global marcado por guerras abertas, como na Ucrânia ou em Gaza, tensões geopolíticas crescentes e uma crise de legitimidade das instituições multilaterais.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Neste cenário, a eleição do próximo secretário-geral não é apenas uma questão administrativa: é um debate sobre o futuro papel da ONU. A isto acresce-se um fator-chave: a expectativa de que o cargo recaia na América Latina, seguindo a prática informal de rotação regional, e a crescente pressão internacional para que, após 80 anos de história, uma mulher assuma pela primeira vez a liderança da organização.

Dos quatro principais candidatos, três são latino-americanos e estão no centro das atenções internacionais: Michelle Bachelet, médica e antiga presidente do Chile; Rebeca Grynspan, economista e antiga segunda vice-presidente da Costa Rica; e Rafael Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional da Energia Atómica.

Mas quem são eles e o que os trouxe até aqui?

Michelle Bachelet: a política global

A ex-presidente chilena representa o perfil mais político dos três. Duas vezes presidente do Chile (2006-2010 e 2014-2018) e ex-alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a sua candidatura assenta numa trajetória de liderança estatal e multilateral.

O seu perfil é o de uma líder política com projeção global, habituada a gerir crises e a operar em ambientes complexos. O seu discurso insiste na necessidade de reforçar o multilateralismo num momento em que este parece estar a ser minado, bem como de modernizar a organização para a tornar mais eficaz e mais próxima dos desafios contemporâneos.

Michelle Bachelet fala durante uma conferência de imprensa na sede da ONU, terça-feira, 21 de abril de 2026
Michelle Bachelet fala durante uma conferência de imprensa na sede da ONU, terça-feira, 21 de abril de 2026 Foto AP/Yuki Iwamura

No entanto, a sua visibilidade e o seu historial em questões delicadas suscitaram reservas por parte de alguns atores internacionais, o que levanta dúvidas quanto à sua capacidade de alcançar consensos no Conselho de Segurança. Durante o seu mandato como alta comissária, foi criticada por uma gestão considerada cautelosa em casos como o da China, especialmente após a sua visita a Xinjiang, e pela sua atuação em crises como as da Venezuela ou da Nicarágua.

A estas questões juntam-se obstáculos políticos. Em março, o governo chileno liderado por José Antonio Kast retirou o apoio oficial à sua candidatura, considerando que a dispersão das candidaturas latino-americanas e as divergências com atores-chave tornam "inviável esta candidatura".

Além disso, setores conservadores nos Estados Unidos têm exercido pressão contra ela, questionando a sua posição em temas como o aborto e pedindo que se recorra ao veto no Conselho de Segurança. Estas resistências reforçam a imagem de uma candidata sólida, mas divisiva, num processo em que o consenso entre as potências é determinante. Apesar destes contratempos, Bachelet manteve a sua candidatura.

Rebeca Grynspan: a reformista pragmática

Perante esse perfil mais político, Rebeca Grynspan representa uma candidatura que se move com especial desenvoltura no seio da arquitetura institucional da ONU, um terreno que conhece por dentro e em profundidade.

Economista de formação, ex-vice-presidente da Costa Rica e atual responsável pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (CNUCED), construiu uma carreira intimamente ligada ao multilateralismo e à gestão de consensos entre países com interesses divergentes, especialmente em áreas como o desenvolvimento, o financiamento e as desigualdades globais.

A secretária-geral da CNUCED, Rebeca Grynspan, discursa durante uma conferência de imprensa em Genebra, Suíça, na quarta-feira, 4 de outubro de 2023
A secretária-geral da CNUCED, Rebeca Grynspan, discursa durante uma conferência de imprensa em Genebra, Suíça, na quarta-feira, 4 de outubro de 2023 AP Photo

A sua candidatura assenta menos em grandes gestos políticos e mais numa ideia de reforma progressiva, mas eficaz, do sistema: melhorar os mecanismos internos, agilizar a tomada de decisões e restabelecer a confiança dos Estados-membros numa organização vista por muitos como lenta ou distante.

Grynspan projeta uma imagem de pragmatismo técnico e capacidade de diálogo, baseada na negociação constante e na busca de pontos de consenso, mais do que na liderança carismática ou na confrontação pública. Esse perfil permite-lhe ser aceitável para diferentes blocos geopolíticos, algo fundamental numa eleição condicionada por equilíbrios delicados.

No entanto, a sua menor exposição mediática e um estilo mais discreto podem jogar contra ela num processo em que não contam apenas as capacidades de gestão, mas também a visibilidade, a narrativa e o peso simbólico da candidatura num momento de redefinição da liderança global.

Rafael Grossi: o diplomata de campo

O terceiro candidato, Rafael Grossi, traz um toque diferente à disputa. Diplomata de carreira e atual diretor da Agência Internacional da Energia Atómica, esteve na linha da frente de algumas das crises mais delicadas dos últimos anos, especialmente no domínio nuclear.

A sua trajetória e a sua rede de contactos em capitais-chave reforçam o seu perfil de negociador fiável, capaz de dialogar com atores em confronto, incluindo as grandes potências. Num contexto de crescente rivalidade geopolítica, a sua candidatura assenta numa ideia clara: uma ONU mais centrada na gestão eficaz de conflitos do que em grandes processos de reforma.

Rafael Grossi durante uma entrevista na sede da ONU, a 28 de abril de 2026
Rafael Grossi durante uma entrevista na sede da ONU, a 28 de abril de 2026 Foto AP/Yuki Iwamura

Ao contrário das suas concorrentes, o seu discurso não se centra tanto na transformação institucional ou nas agendas sociais, mas sim na eficácia da ONU como instrumento para gerir conflitos e garantir a segurança internacional. Essa orientação, de caráter mais conservador, pode revelar-se atraente para quem dá prioridade à estabilidade, mas também limita o seu apelo num momento em que muitos exigem mudanças mais profundas.

Por outro lado, tem sido apontado como um candidato com menor experiência em questões sociais, de desenvolvimento ou de direitos humanos, áreas que hoje ocupam um lugar central na agenda da ONU. O seu perfil técnico, muito ligado ao domínio nuclear e da segurança, pode ser visto como limitado face à amplitude dos desafios que a organização enfrenta.

Para além destes três perfis latino-americanos, a corrida inclui também o antigo presidente senegalês Macky Sall, que introduz a opção de um candidato africano no processo. No entanto, a sua candidatura parte em desvantagem num contexto marcado pela expectativa de que, seguindo a rotação regional, a próxima liderança provenha da América Latina.

80 anos sem uma mulher no comando

Para além dos perfis, a corrida de 2026 está marcada por um debate de fundo. Nunca, nos 80 anos de história da ONU, uma mulher ocupou o cargo de secretária-geral, e este facto ganhou especial relevância no processo atual, em que as candidaturas de Bachelet e Grynspan representam a possibilidade de quebrar esse telhado de vidro.

Diversos setores, desde governos até organizações feministas e diplomáticas, defendem que uma liderança feminina não teria apenas um valor simbólico, mas poderia contribuir para renovar a legitimidade da organização. A agenda da igualdade de género, além disso, consolidou-se como um dos eixos centrais do debate.

No passado mês de janeiro, a Euronews entrevistou a ex-ministra argentina e cofundadora do GWL Voices Susana Malcorra, que foi candidata ao cargo de secretária-geral em 2016 e conhece em primeira mão as dinâmicas internas do processo. Malcorra resumiu esse desequilíbrio com clareza ao afirmar que "a questão não é se há opções", mas sim se existe "vontade de dar essa oportunidade".

A sua reflexão introduz uma nuance fundamental no debate atual: o problema não reside na experiência ou na preparação, como demonstram perfis como os de Michelle Bachelet ou Rebeca Grynspan, mas nos critérios implícitos que continuam a condicionar a escolha. Segundo Malcorra, esses preconceitos operam de forma subtil, mas persistente, avaliando as mulheres segundo padrões contraditórios, como "demasiado duras ou demasiado brandas", que não se aplicam da mesma forma aos homens.

Mas essa aspiração choca com a lógica realista que continua a dominar o processo: a eleição depende, em última instância, do Conselho de Segurança, onde os equilíbrios de poder continuam a pesar mais do que qualquer impulso de mudança histórica.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Guerras atuais não são falhanço da ONU, mas dos Estados-membros, diz líder à Euronews

A Europa deve acabar com a diplomacia e pressionar para que haja mudanças no Irão, afirma o embaixador israelita na ONU

ONU cria primeiro painel global de segurança da IA apesar da oposição dos EUA