Salários dos professores variam muito na Europa e mantêm grandes disparidades mesmo após ajustar o custo de vida. Especialistas defendem melhor remuneração para atrair e manter docentes.
Salários mais elevados para os professores estão entre as exigências dos sindicatos por detrás dos recentes protestos em França, juntamente com mais pessoal e melhores condições de trabalho.
As preocupações refletem um desafio mais amplo em toda a Europa: tornar a carreira docente financeiramente atrativa. Segundo a OCDE, os professores ganham, em geral, menos do que trabalhadores com níveis de qualificação semelhantes, e especialistas alertam que os salários não são suficientemente competitivos para atrair e manter profissionais.
Quais são, então, os países que pagam os salários mais elevados aos professores? E como se posicionam essas remunerações quando se tem em conta o poder de compra?
Os salários dos docentes variam muito na Europa, segundo o relatório Education at a Glance 2026 da OCDE. Entre os 28 sistemas de ensino analisados, os salários efetivos dos professores do ensino primário em 2025 iam de 18 669 euros na Turquia a 74 086 euros na Dinamarca.
Por salários efetivos entende‑se o rendimento médio anual recebido por professores a tempo inteiro entre os 25 e os 64 anos, antes de impostos. Incluem todos os pagamentos relacionados com o trabalho, como o salário base, prémios de desempenho, remuneração adicional por férias e outros abonos.
A Islândia (73 752 euros), a Irlanda (69 747 euros), a Alemanha (69 453 euros) e a Áustria (65 851 euros) completam o grupo dos cinco sistemas de ensino no topo da tabela, todos acima dos 65 mil euros.
Os professores na Noruega (59 453 euros), na Comunidade Flamenga da Bélgica (59 105 euros), na Irlanda do Norte (57 838 euros), na Escócia (57 619 euros), na Comunidade Francesa da Bélgica (55 689 euros), no País de Gales (52 894 euros), na Finlândia (52 272 euros) e em Inglaterra (50 727 euros) recebem também mais de 50 mil euros.
Alemanha lidera salários docentes, Itália em último entre grandes economias
Entre as principais economias europeias, a Alemanha é o país que melhor paga aos professores. Seguem‑se as quatro nações do Reino Unido, todas com salários acima dos 50 mil euros. Em França, os professores ganham em média 41 968 euros, enquanto a Itália apresenta os salários mais baixos, de 32 100 euros.
Não há dados disponíveis para Espanha.
Vários países com salários abaixo dos 25 mil euros
Os salários efetivos dos professores ficam abaixo dos 25 mil euros em sete países: Chéquia (24 457 euros), Hungria (23 181 euros), Eslováquia (22 936 euros), Roménia (20 805 euros), Letónia (20 516 euros), Grécia (18 746 euros) e Turquia (18 669 euros).
“As grandes diferenças nos salários dos professores na Europa refletem as disparidades nos níveis de rendimento nacional, nas estruturas salariais, nas qualificações e na progressão na carreira, mais do que um único fator”, afirmou Daniel Wisniewski, secretário‑geral da Federação Europeia de Empregadores da Educação, à Euronews Business.
“As diferenças de fiscalidade, de prestações sociais e de subsídios também complicam as comparações entre países.”
Os professores do ensino secundário superior recebem, em geral, mais do que os do ensino primário, exceto na Turquia e na Irlanda do Norte. Na Escócia, na Lituânia e na Estónia, os salários são idênticos nos dois níveis de ensino.
No ensino secundário superior, as remunerações variam de 17 615 euros na Turquia a 93 938 euros na Islândia. Superam igualmente os 80 mil euros na Dinamarca (85 999 euros) e na Alemanha (80 163 euros).
As maiores diferenças a favor dos docentes do secundário superior observam‑se na Islândia, na Finlândia, na Bélgica, na Dinamarca, na Áustria e na Alemanha, onde recebem pelo menos mais 10 mil euros do que os professores do primário.
Salário dos professores: o que conseguem comprar
Os números brutos não contam toda a história. Se os preços forem elevados num país, mesmo salários de professores relativamente altos podem valer menos do que noutro.
Para ter em conta as diferenças no custo de vida, a Euronews Business ajustou os valores salariais da OCDE, em moedas nacionais, utilizando as paridades de poder de compra do Eurostat para a despesa de consumo final das famílias.
Os resultados são expressos em padrões de poder de compra (PPS), uma unidade comum que permite adquirir a mesma quantidade de bens e serviços em cada país. A medida em PPS utiliza os preços médios da UE como referência, enquanto a OCDE apresenta as suas comparações de poder de compra em dólares norte‑americanos ajustados pelo poder de compra.
Com base neste método, os professores na Alemanha têm o maior poder de compra — ou seja, os seus salários brutos permitem adquirir a maior quantidade de bens e serviços — entre os sistemas de ensino analisados.
Depois de ajustados às diferenças de preços, os salários médios anuais dos professores do primário vão de 21 456 PPS na Grécia, o valor mais baixo, a 64 143 PPS na Alemanha, o mais elevado.
Wisniewski salientou que subsistem diferenças de grande dimensão mesmo após o ajustamento pelo poder de compra, o que mostra que o custo de vida, por si só, não explica a variação salarial.
“As políticas nacionais de remuneração, os requisitos de qualificação, as grelhas de carreira, a experiência e os ganhos disponíveis noutras profissões para licenciados contribuem de forma significativa para a diferença que resta”, acrescentou.
A Alemanha é seguida pela Áustria (58 265 PPS), pela Dinamarca (53 036 PPS), pela Irlanda (51 226 PPS) e pela Comunidade Flamenga da Bélgica (50 846 PPS), que completam o grupo dos cinco sistemas de ensino onde os salários dos professores do primário têm maior poder de compra.
No extremo oposto da tabela, à Grécia juntam‑se a Letónia (24 670 PPS), a Eslováquia (26 916 PPS), a Chéquia (27 349 PPS) e a Estónia (28 197 PPS), onde os salários dos docentes do primário têm o menor poder de compra entre os sistemas analisados.
No ensino secundário superior, a Alemanha volta a liderar o ranking de poder de compra, com 74 034 PPS, enquanto a Grécia surge na última posição, com 23 289 PPS.
Entre as maiores economias europeias analisadas, a Itália aparece em último lugar, com 36 964 PPS.
Três nações do Reino Unido seguem‑se à Alemanha, enquanto Inglaterra (43 091 PPS) fica abaixo de França (46 058 PPS).
O professor Mihails Hazans, da Universidade da Letónia, observou que os países que ocupam o topo das tabelas salariais dos docentes em PPS também registam um PIB per capita muito acima da média da UE.
“Entre os fatores que explicam estas diferenças contam‑se as tradições e normas sociais, a força dos sindicatos de professores, bem como a carga real de trabalho abrangida pelos salários estatutários”, afirmou à Euronews Business.
Mudanças significativas nos rankings em PPS
Ao comparar os rankings de salários nominais com os de PPS, alguns países mudam de posição de forma significativa. No ensino primário, as maiores subidas são as da Turquia, que avança seis lugares, e da Polónia, que sobe cinco. A Comunidade Francesa da Bélgica e a Roménia ganham ambas quatro posições.
Isto significa que estes países passam a surgir mais bem colocados quando se têm em conta as diferenças nos níveis de preços.
A Islândia regista a maior descida, ao passar do segundo para o 12.º lugar. A Suécia e a Estónia caem também três posições.
Os rankings de poder de compra da OCDE, baseados em dólares internacionais norte‑americanos, diferem dos cálculos da Euronews Business, que utilizam as taxas de conversão do Eurostat.
A Turquia surge significativamente mais acima nas tabelas da OCDE: é 11.ª no caso dos professores do primário e 17.ª no do secundário superior.
Salários pouco competitivos dificultam contratação e retenção de professores
Daniel Wisniewski salientou que, nos países da OCDE, os salários efetivos dos professores do ensino primário e secundário geral representam, em média, apenas 87‑95% dos rendimentos dos trabalhadores com ensino superior, o que significa que pessoas com qualificações semelhantes podem, muitas vezes, ganhar mais fora do ensino.
“A remuneração docente não é, de forma consistente, suficientemente competitiva para atrair e reter professores em toda a Europa”, afirmou.
Jelmer Evers, diretor europeu do Comité Sindical Europeu da Educação, defendeu que os professores devem ganhar, pelo menos, tanto quanto outros trabalhadores com qualificações e responsabilidades comparáveis, refletindo a complexidade e a importância social da profissão.