Encontra-nos
Publicidade

França: dezenas de pessoas detidas durante confrontos entre manifestantes e polícia

Quartier de la Guillotière , Lyon le 17.10.2026
Quartier de la Guillotière , Lyon le 17.10.2026 -  Direitos de autor  Jean-Philippe Liabot/Euronews
Direitos de autor Jean-Philippe Liabot/Euronews
De Estelle Nilsson-Julien
Publicado a •Últimas notícias
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

O governo francês reforça a segurança antes de possíveis confrontos nos protestos nacionais de 17 de outubro contra a crise do custo de vida, que também deverão contar com a participação de grupos estudantis.

Dezenas de pessoas foram detidas na capital francesa, Paris, após os manifestantes entrarem em confronto com as forças de segurança em vários pontos da cidade.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Os sindicatos e os cidadãos que se autodenominam "coletes amarelos" estão a protestar contra a crise do custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis, decorrentes da guerra entre os EUA e Israel contra o Irão.

Um grande número de estudantes também se juntou aos protestos nacionais de sábado, exigindo uma reforma do sistema educativo do país, melhorias nas salas de aula e nas instalações, e maior acesso aos recursos.

Os manifestantes invadiram o edifício da Câmara Municipal de Marselha, a segunda maior cidade de França. Manifestantes mascarados arrombaram a porta com barreiras de segurança.

Várias pessoas entraram, e uma delas pintou com spray o símbolo anarquista "A" numa parede, antes de a polícia intervir. "Vamos tomar a Bastilha", gritou um manifestante, em referência à tomada da fortaleza em 1789, durante a Revolução Francesa.

Entretanto, lojas por todo o país taparam as suas montras com tábuas, numa tentativa de evitar possíveis saques ou atos de vandalismo. Milhares de agentes da polícia e unidades de intervenção foram mobilizados por todo o país para reforçar a segurança.

Caixotes do lixo foram incendiados em Marselha na manhã de sábado, 17 de outubro
Caixotes do lixo foram incendiados em Marselha na manhã de sábado, 17 de outubro Manuela Scarpellini/ Euronews

De acordo com uma fonte próxima do Ministério do Interior francês, estão previstas 500 manifestações em todo o país no sábado, bem como cerca de 90 protestos, e as autoridades estão a preparar-se para possíveis episódios de violência em Paris e noutras grandes cidades.

Os protestos surgem na sequência de quatro semanas de manifestações estudantis relacionadas com uma série de questões, incluindo o absentismo dos professores, as salas de aula superlotadas e as instalações obsoletas.

A maioria dos protestos estudantis tem sido pacífica, mas têm-se registado confrontos com manifestantes violentos e críticas generalizadas à alegada brutalidade e violência policiais.

A fonte disse à Euronews que o movimento de extrema-esquerda poderia procurar provocar confrontos com as forças da ordem e tentar violar os perímetros de segurança ao longo dos percursos dos protestos. Alertou ainda que os bloqueios de vias de transporte estratégicas e de infraestruturas essenciais "não seriam tolerados".

Entretanto, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou na sexta-feira que, embora o direito de protestar "seja plenamente respeitado", este "deve ser acompanhado pelo respeito pelas pessoas e pela propriedade".

"É por isso que apelo à calma e ao respeito: estes direitos têm de ser preservados", afirmou.

Manifestantes em Marselha.
Manifestantes em Marselha. Manuela Scarpellini/ Euronews

Crescente escrutínio das ações da polícia

As autoridades policiais francesas têm sido alvo de um escrutínio cada vez maior nas últimas semanas, no contexto de várias alegações de violência policial.

Num dos casos, um aluno de 15 anos terá perdido um olho após ter sido atingido por uma bala de borracha da polícia. Num incidente distinto, um jovem de 14 anos terá perdido a mão depois de ter apanhado uma granada de atordoamento da polícia. As circunstâncias em torno de ambos os casos continuam a ser investigadas.

Na sequência deste último caso, a França suspendeu a utilização de certos tipos de granadas de atordoamento.

No entanto, numa entrevista na sexta-feira, o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, afirmou que a utilização de granadas de atordoamento seria permitida a 17 de outubro, caso ocorressem "atos graves de violência urbana" à margem das manifestações, alertando que as granadas de atordoamento "nunca são utilizadas quando tudo corre bem".

Nuñez informou o Senado francês, na terça-feira, que tinham sido abertas 36 investigações sobre alegados casos de violência policial durante os protestos estudantis. Referiu que quatro desses casos diziam respeito a lesões mutilantes e seis a lesões graves, enquanto os restantes estavam relacionados com alegados espancamentos, insultos e denúncias de violência sexual.

Um homem que tinha chegado a Paris de avião, vindo dos EUA, na sexta-feira, disse à Euronews que "apoiava" os protestos pacíficos.

"Espero que ninguém se magoe e que as vozes das pessoas sejam ouvidas", afirmou ele.

Um taxista da capital descreveu a situação como "muito delicada".

"As pessoas têm o direito de protestar, mas de forma pacífica", afirmou, acrescentando que "os responsáveis têm de encontrar algumas soluções".

Movimento dos coletes amarelos

Tem havido especulações de que a manifestação de 17 de outubro poderá marcar o regresso do movimento popular dos coletes amarelos, que surgiu em 2018 em reação a um aumento dos impostos sobre a gasolina e o gasóleo, previsto pelo governo.

Durante meses, os manifestantes dos coletes amarelos reuniram-se todos os fins de semana para bloquear rotundas, autoestradas e depósitos de combustível por todo o país, tendo-se registado também confrontos tensos com a polícia.

Isto acontece num momento em que o governo francês também se debate com uma grave crise da dívida pública, enquanto tenta aprovar um orçamento que inclui medidas de austeridade num parlamento sem maioria.

Sindicato da polícia apresenta queixa contra o Estado por "colocar em risco a vida de terceiros"

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, afirmou na quinta-feira que 937 agentes da polícia e gendarmes ficaram feridos desde o início dos protestos. Referiu ainda que se registaram feridos entre 248 estudantes e 149 membros do corpo docente, número que, segundo ele, constitui o mais elevado de sempre registado pelo Ministério da Educação francês.

Lecornu alertou que o «movimento dos estudantes do ensino secundário» se estava a transformar numa «onda de violência urbana».

Entretanto, a Alliance Police Nationale, um dos maiores sindicatos da polícia francesa, anunciou numa declaração na terça-feira que iria apresentar uma queixa contra o Estado «por pôr em risco a vida de outras pessoas».

O sindicato denunciou o que classificou como «ordens contraditórias» dadas aos agentes da polícia, que têm sido "expostos à violência e deixados à mercê da hostilidade do público" ao longo dos protestos no ensino secundário.

"Depois das manifestações de empatia do presidente [o presidente francês Emmanuel Macron] para com os manifestantes e da ênfase que colocou no diálogo, deparamo-nos agora com instruções vagas, ordens contraditórias e declarações públicas superficiais!"

"A discrepância entre as declarações públicas de Laurent Nuñez e as instruções verbais transmitidas através da cadeia de comando tornou-se insuportável", afirmou o sindicato.

O partido de extrema-esquerda "França Insubmissa" tem sido acusado pelo governo e pelos adversários políticos de incentivar a violência e de alimentar a agitação social através de um discurso inflamatório.

Num discurso proferido a 30 de setembro, o líder do partido, Jean-Luc Mélenchon, exortou os seus apoiantes a "enfrentarem a brutalidade policial", acrescentando que "não haverá esquecimento nem perdão para ninguém".

Mais tarde, matizou as suas declarações, afirmando que apoiava métodos de protesto pacíficos.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Polícia dispara balas de borracha e detém centenas no quinto dia de protestos na capital albanesa

Protestos estudantis em França: manifestações em Paris acabam em violência

Assembleia Nacional de França inicia debate sobre orçamento com protestos estudantis em pano de fundo