Ministros da Energia da UE admitem impor cortes no consumo se o estreito de Ormuz se mantiver fechado nos próximos meses, segundo um documento a que a Euronews teve acesso.
Os governos da UE podem pedir a famílias e empresas que reduzam o consumo de energia, numa altura em que a guerra no Médio Oriente está a fazer subir os preços e a ameaçar o aprovisionamento de petróleo e gás, de acordo com um documento consultado pela Euronews.
Os ministros da Energia vão discutir possíveis medidas à escala da UE para reduzir o consumo na reunião de 29 de outubro, numa altura em que aumentam os receios de que as perturbações no abastecimento através do Estreito de Ormuz possam prolongar-se durante meses.
A proposta de ponderar cortes na procura parte da Irlanda, que detém atualmente a presidência rotativa do Conselho da UE e conduz as negociações entre os Estados-membros.
Os preços do gás dispararam 140% desde que os Estados Unidos e Israel lançaram a guerra contra o Irão, enquanto o Brent era negociado a 110 dólares por barril na quarta-feira. Mesmo que o conflito termine, o impacto nos mercados de petróleo poderá prolongar-se por meses, e as consequências para o fornecimento de gás poderão fazer-se sentir durante anos, alerta a presidência irlandesa.
Até agora, responsáveis europeus identificaram os preços da energia como o principal efeito de arrastamento da crise no Médio Oriente, embora o comissário da Energia, Dan Jørgensen tenha apelado em setembro, pela segunda vez, às capitais da UE para que ponderem cortes na procura de energia.
As operadoras da rede de transporte de gás da UE advertiram recentemente que o bloco pode enfrentar uma quebra de 12 % a 15 % na oferta de gás se este inverno trouxer uma vaga de frio severa. Os níveis de armazenamento estavam nos 74 % a 20 de outubro, segundo dados da associação setorial Gas Infrastructure Europe, o valor mais baixo desde 2011.
Quase oito meses depois de ataques militares terem levado ao encerramento do Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento crucial por onde passa 20% do trânsito mundial de petróleo e gás, o gasóleo e o combustível de aviação estão particularmente expostos a aumentos de preços e a potenciais ruturas de abastecimento.
União Europeia pondera cortes na procura
Com a Comissão Europeia a ficar sem margem de manobra para atenuar o impacto da crise, os ministros vão analisar se a redução do consumo deve passar a integrar a resposta da UE, a par de libertações de reservas de emergência e de apoio financeiro.
“Quais são as lições retiradas da coordenação europeia na resposta aos impactos energéticos da conflitualidade no Médio Oriente e como deve a UE preparar-se para um cenário em que o Estreito de Ormuz permaneça parcialmente ou totalmente fechado nos próximos meses? Que medidas de redução da procura, se existirem, devem ser ponderadas a nível da UE?”, lê-se no documento do Conselho.
O documento do Conselho não propõe cortes concretos no consumo de energia nem estabelece que os ministros tenham chegado a acordo sobre eles. Mas abre caminho para avaliar até onde estão dispostas a ir as capitais da UE na gestão do consumo, caso as perturbações no aprovisionamento se mantenham.
O debate revela uma consciência crescente de que a UE não consegue garantir a segurança energética apenas com importações e libertações de reservas de emergência se uma via de abastecimento principal continuar bloqueada.
Na terça-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, garantiu fornecimentos de gasóleo a partir de países do Golfo, depois de a Arábia Saudita ter oferecido carregamentos adicionais de petróleo bruto no mercado à vista, para entrega na Europa entre o fim de outubro e meados de novembro. A decisão seguiu-se ao acordo do G7 para libertar mais reservas petrolíferas de emergência, sob pressão de Washington.
Entretanto, a Agência Internacional da Energia (AIE) disse estar pronta para coordenar mais libertações de petróleo das reservas de emergência pelos países membros, caso estes o desejem, para contrariar a subida dos preços.
A Espanha confirmou que vai libertar 4,4 milhões de barris de reservas estratégicas de petróleo durante outubro, no âmbito do compromisso de emergência já existente.
Mais domingos sem carros?
Pouco depois dos ataques militares norte-americano-israelitas contra o Irão, a AIE, sediada em Paris, apresentou também um plano em 10 pontos para os países reduzirem o consumo de petróleo, incluindo “domingos sem carros”, prática amplamente utilizada durante a crise energética da década de 1970.
Outras medidas podem ir desde apelos voluntários a famílias e empresas para pouparem energia até restrições específicas ao consumo em determinados setores, consoante a gravidade da crise.
No entanto, qualquer iniciativa à escala da UE levantaria questões sobre quem deve suportar o esforço, se a indústria deve enfrentar limitações e como proteger as famílias vulneráveis sem prejudicar ainda mais a competitividade do bloco.
A questão central para os ministros é saber se a redução da procura deve ser coordenada a nível da UE ou deixada aos governos nacionais.
Uma abordagem comum poderia ajudar a evitar que os países compitam por recursos escassos, mas os governos da UE enfrentam níveis diferentes de exposição a ruturas no gás, preços distintos da eletricidade e necessidades industriais variadas.
Uma proposta da Comissão apresentada na cimeira do Conselho de 15 e 16 de outubro, para agregar a procura de energia a nível da UE, está igualmente em cima da mesa para avaliação pelas capitais. O objetivo é que Bruxelas coordene a procura de energia e a distribua pelos países da União consoante as suas necessidades.